Como ficará o país e o Algarve no pós-Brexit?

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Passados que são quase três anos sobre o referendo de 23 de junho de 2016, que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia, é confrangedor verificar como a classe política britânica tratou este assunto. Não só pela importância de que o mesmo se reveste para o Mundo e para a União Europeia, mas sobretudo para o Reino Unido. Porque seja qual for o modo como os britânicos vão sair da UE, ninguém tenha ilusões, eles serão os mais prejudicados em todo este processo. Pelo menos no curto e no médio prazo.

A prova disso é que não há um único economista prestigiado independente ou nenhuma instituição económica ou financeira internacional que não se tenha pronunciado no sentido de que a saída da EU terá um impacto bastante negativo na vida dos súbditos de Sua Majestade Isabel II e em toda a economia britânica. Daí que me interrogue, como foi possível estabelecer-se um acordo entre 27 Estados-Membros e o Governo Conservador Britânico e este não tenha sido capaz de criar as condições necessárias à sua aprovação pelo respetivo Parlamento? Para mais quando foram os britânicos que decidirão, pelo seu próprio pé, sair da UE. Uma situação que legitima a posição de não cedência da UE às pretensões britânicas.

Com a decisão de não aceitar alterações ao acordo alcançado, cujas negociações duraram mais de dois anos, a UE dá um sinal claro a todos os países membros que para uma maior integração – a qual não só é necessária, como inevitável, e que no futuro, ainda distante, culminara numa qualquer forma de federalismo – é necessário obterem-se consensos, o mais alargados possíveis, e dar aos diferentes países tempos distintos para implementação dessas políticas, mas sem abdicar da obrigatoriedade de todos terem que incorporá-las.

Se há lição que podemos retirar da saída do Reino Unido é que o aprofundamento da UE baseado num modelo à la carte não dá um bom resultado. Porque foi essa permissividade dos políticos europeus e das instituições europeias da UE relativamente ao Reino Unido, ao longo de décadas, o que mais contribuiu para que tenhamos chegado à atual situação. Uma permissividade que levou os britânicos a pensar, quando com ligeireza decidiram abandonar a UE, que o acordo de saída iria ser aquele que mais lhes convinha. Bastando para isso que o processo se arrastasse e que, à última hora, decidissem que queriam um outro acordo, rejeitando aquele que fosse possível construir com os demais 27 estados da União. Mas desta feita, felizmente, tal não aconteceu.

Mas agora que está em curso o processo de saída do Reino Unido, que aparentemente é irreversível, resta aos países da UE adaptarem-se a essa circunstância. E no que respeita a Portugal, provavelmente o país da UE cuja economia mais sofrerá com o Brexit, continua a não ser perceptível o trabalho que o governo está a fazer para minimizar esse impacto.

Neste momento, por exemplo, deveria ser visível o trabalho que está a ser feito para aproveitar a deslocalização que as empresas multinacionais, a operar no Reino Unido, estão a ensaiar, incentivando-as a criar a sua base europeia no nosso país.

À semelhança do que estão a fazer outros países europeus. Como é o caso da Holanda. É que a captação dessas empresas permitiria alavancar, em face da sua dimensão, o nosso crescimento económico (PIB) nas suas mais diferentes vertentes (investimento; exportações e consumo interno), o qual começa a exibir sinais de clara desaceleração.

Um crescimento que possibilitaria ainda o aumento da receita fiscal (que não a sua carga), e que daria margem para que o investimento público, pelo menos em termos absolutos, também aumentasse.

O que não só ajudaria ao nosso crescimento, mantendo-o acima da média da UE, como também a melhorar o funcionamento dos hospitais, escolas e demais áreas das Administração Pública. Setores cujo desinvestimento, nestes últimos anos, deixou-os à beira da rutura.

Mas se pouco sabemos quanto ao que está a ser feito pelo governo, no que respeita ao país, para apoiar as nossas empresas exportadoras, ainda menos se sabe em relação ao Algarve. Cujas empresas – quase todas, direta e indiretamente, ligadas ao setor do turismo – têm o Reino Unido como principal mercado.

Uma situação que a todos, mas sobretudo ao governo, deveria preocupar. Pois a com diminuição de turistas oriundos dessas paragens, a não ser encontrado outros mercados alternativos, o aumento do desemprego, bem como a sua precaridade, abriram a porta para uma nova crise social na região algarvia.

Preparar o país e o Algarve para o pós-Brexit deveria por isso, neste momento, ser a principal prioridade do governo. Mas ao invés, as eleições para o Parlamento Europeu e agora para a Assembleia da República, mais precisamente o processo de constituição das listas, tem absorvido por completo a sua atenção. Não lhes sobra tempo para mais nada. Pelo que a política, no verdadeiro sentido do termo, como se vê, fica para segundo plano.

Tudo aponta por isso para que uma vez mais, desta feita para uma crise anunciada, não estejamos suficientemente preparados para a tempestade económica que se avizinha. E o Algarve, como sempre sucede, dado o perfil da nossa economia, será quem mais irá sofrer as consequências.

Mas isso pouco importa aos nossos governantes. Para eles, o Algarve será sempre aquele lugar paradisíaco, onde passam uma semana ou quinze dias de férias por ano, ao qual todos os anos querem voltar. E não mais que isso.

Esquecem-se é que, nestas terras a sul, há quem aqui viva todo o ano. Uma vida que não são 365 dias de férias.

Miguel Madeira | Gestor