Carta de uma amendoeira

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Nasci humilde nesta terra quente, sou chegada da meia altura caiada dos velhos muros dos caminhos que são o passado do orgulho de gerações, vivi tranquila e esplendorosa num mar branco de iguais como respeitada pelo calor humano de quem me plantou, vi passar burros carreiros de rédea pela mão e carros de mula pintados com as cores da herança mourisca, produzi os frutos de sustentação de uma doçaria ainda enraizada e fui cartaz turístico de tempos que se perderam, caindo no baú do esquecimento do que chamam de modernidade… restando as fotos do abandono.

Uma amendoeira florida ainda hoje põe brilho nos olhos… como consolavam as sombras dos pinhais que corriam até ao mar, e ali se juntavam as gentes, comia-se e ria-se nos convívios que os fumos das assadas não incomodavam por excessos de dióxidos.

Só o mar e o Sol são os mesmos, por serem poderosos e superiores à vontade da destruição da terra!

Os costumes, os prazeres, os odores e as distâncias desvaneceram do imaginário dos algarvios, na fusão com outras culturas.

Para perceber o que perdemos, o prazer das imagens de uma viagem de carro de Faro a Lagos em décadas passadas, faz-se agora num incrível igual tempo entre massividade de casas, carros e reclamos, e, apesar do chamado desenvolvimento, converteu-se num aborrecimento e num perigo, chamado EN125!

A alternativa política e oportunista é pagar para os privados o que foi um investimento público!

As amendoeiras seguiram estes passos na proporção da sua destruição.

Como as falésias, velhas companheiras de uma secularidade saudável e habituadas ao relacionamento com o mar até que lhe sobrecarregaram o peso e o excesso de presença humana que alterarou os factores.

Veio o modernismo da indústria das viagens e dos novos meios de aviação, deixámos de olhar para as amendoeiras e a nossa tipicidade de coberto verde, deixámos de ver o mar como os seus arriscados trabalhadores de gerações ainda gerem mais proibições e mais pobreza, envolvemos o património histórico, religioso ou não, de montoados de tijolo, de formas e até cores desconsoladas que roubaram a penetração da típica claridade sulista e não incomodou compradores aliciados das soberbas qualidades de um areal e Sol curadores, sem que importasse leis e consequências sobre as distâncias para a linha de água, para a segurança de bens deixados em encargo na imensa maioria dos meses do ano, como as inseguranças rodoviárias e até as necessidades de emergência de cuidados de Saúde.

Os prados de dinheiros que enriqueceram investidores desinteressados por Cultura e pelos costumes locais voaram dos nossos problemas e o mesmo se poderá dizer do equivalente desinteresse de quem veio alimentá-los.

Tardiamente temos reacções sem efeitos. E o que foi cartaz de um «abril em Portugal», o oceano de amendoeiras em flor em paralelo com o foco internacional da beleza invulgar de duas frentes de costa rasgadas de maneira diferente, não tiveram devido respeito nas assimetrias de Orçamentos de Estado, continuadamente a negar as ervas daninhas que nos atormentam!

Saudosismo? Fomos considerados inúteis! A carta foi rasgada, mas pagámos o selo! E as amendoeiras e admiradores são cada vez menos! Não deveriam as sementes do passado, ser a voz do futuro?

Luís Alexandre | Escritor e ensaísta