Carta aberta aos representantes eleitos de Portimão

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Sra. presidente, senhores vereadores,

Dizem-me que sou lírica, no entanto não desisto de pensar que todos somos responsáveis e que é minha obrigação escrever-vos.

Vivo no estrangeiro há mais de 30 anos, mas venho a Portugal com regularidade. Ao Algarve venho pelo menos uma vez por ano. Como os meus pais se estabeleceram em Portimão, é aqui que passo uma parte das férias.

Todos os anos tiro fotos da nossa desgraça comum: passeios esventrados (é um mistério para mim que os mestres em calçada não consigam, na sua própria terra, deixar um único trabalho acabado!); escadas de acesso à praia repetidamente estragadas devido à inadequação e manifesta má qualidade dos materiais usados; construção frenética e selvagem, décadas depois de sabermos, por experiência, aonde este tipo de erros nos leva (turismo pobre que, apesar de nos visitar aos milhões, não deixa um contributo sustentável para as nossas comunidades)… tudo isto me deixa atónita e envergonhada. A vocês não?

A minha mais recente perplexidade foi constatar, na Praia da Rocha (que, perdoem-me o inevitável cliché, noutros países há décadas já teria sido alvo de medidas de proteção especial), a morte iminente de um verdadeiro ex-libris desta praia: refiro-me ao Palacete [Vivenda Compostela] que, do lado oposto ao Hotel Bela Vista, forma com este uma porta fabulosa para uma praia de excepção, recordando tempos menos ávidos de dinheiro fácil, onde a beleza também era critério. Não lhe conheço o nome, nunca soube a quem pertencia. Mas pensava que estaria a salvo da ganância…

Para já, o velho palacete está a ser desfigurado com uma construção adjacente gigante. Percebe-se que esta pérola vai desaparecer a prazo.

Utilizando o Google Maps, apercebo-me de que este espaço nem sequer está assinalado, ou seja, é terreno virgem para construtores ávidos… e órgãos camarários sem instrução nem escrúpulos. Rezo para que não seja este o caso na autarquia de Portimão!

Será possível que ninguém sinta vergonha? Dir-me-ão que «é propriedade privada». Mas não existe um Plano Diretor urbanístico? Não existe o superior interesse público? Além de que uma resposta destas não contém, em si mesma, já, o germe de um insulto à memória colectiva dos portimonenses?

Fico perplexa. Basta ir a Lagos, a Tavira, mesmo a Faro, a impressão com que se fica é de maior respeito pelo património local.

Outro exemplo chocante é o abandono e a degradação a que está votada a Fortaleza. Sei que na Praia da Rocha se organizam eventos celebrados e transmitidos à escala nacional. Não mereceria este património maior respeito?

Não deveria a Fortaleza ser ela também um ex-libris de Portimão? Não seria de a recuperar com a ajuda, por exemplo, de privados? Um pequeno café que, com qualidade, se ocupasse de acolher os turistas a troco da preservação daqueles espaços, será assim tão utópico? Todos devem ser chamados a contribuir, com responsabilidade e dentro de critérios de interesse comum.

Na vossa qualidade de cidadãos eleitos (espero eu, com o ideal de deixar obra feita e um nome de que os portimonenses se orgulhem no futuro, ao contrário de muitos dos vossos antecessores que, realmente, são lembrados, mas pelas piores razões), talvez tenham alguma capacidade de intervenção?

Não deixem passar a ideia de que também vocês se deixam vergar ao dinheiro fácil e rápido!… Porque, quer queiram quer não, a cupidez é como o rabo de fora do gato: todos a vêm, todos sabem, todos comentam, mesmo que, por elegância ou simples cobardia, ninguém fale dela abertamente…

Porque não apostar noutra fórmula de desenvolvimento para Portimão que não a da construção civil, pura e dura, caótica e desregrada, que há décadas desfigura esta cidade?

Apelo à vossa integridade para pensarem no bem colectivo a longo prazo, e não, simplesmente, garantirem o esboço de uma subsistência, que é precária porque se baseia sobretudo no trabalho sazonal.

Portimão tem potencialidades para ser referência – a nível nacional e internacional – de turismo de qualidade, durante o ano inteiro, e não só nos 3 ou 4 meses de verão: Portimão e a Praia da Rocha são muito mais do que praia!

Ouço repetidamente dizer, no meu país, que é inútil reclamar ou chamar a atenção das autoridades. Pelo contrário, a minha experiência lá fora mostra-me que a participação cívica (reclamando, assinalando e elogiando) é indispensável para defender o bem comum.

Certamente os cidadãos eleitos, que um dia invocaram disponibilidade e vontade de servir a comunidade – e a quem é dado tempo e um salário para o fazer – apreciarão a contribuição alheia, sobretudo dos que os elegeram?

Ana Vinagre | Luxemburgo

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Há alguns dias, enderecei uma carta à presidente e aos vereadores da Câmara Municipal de Portimão a propósito da construção selvagem e aparente ausência de critério na preservação do património.

Infelizmente, constatei que não é fácil interpelar diretamente os representantes locais, pois os seus endereços eletrónicos não estão disponíveis em linha. Tentei obtê-los pelo telefone, mas deixaram-me pendurada… (quer dizer, em espera interminável…)

Pensei que a publicação da carta, caso a considerem digna disso, poderia estimular outros cidadãos a manifestarem-se também. Aterra-me a apatia com que os meus compatriotas vêm a sua terra degradar-se!

Este o texto que dirigi aos eleitos autárquicos de Portimão e que muito agradecia publicassem. Agradeço a atenção que me dispensaram.