«Caídos no Colo»

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Uma economia de mercado é, por natureza, uma economia de guerra, no sentido em que os diversos agentes que nela operam competem, a cada momento, entre si, procurando ganhar clientelas uns aos outros.

Ora, em tempo de crise económica como o atualmente vivido, natural será que essa guerra se torne, cada vez mais, intensa, em particular e por razões conhecidas, no mercado turístico.

Espanha, com as suas tapas, procura roubar turistas a Portugal e Portugal, com os seus pastéis de nata, a Espanha procura roubá-los, o sul do país, com as suas praias, turistas ao norte tenta tirar e o norte, com o seu Douro, do sul os procura desviar, Albufeira, com os seus bares, de Portimão os turistas tenta levar e Portimão, com as suas sardinhas assadas, a Albufeira os procura conquistar, ou seja, procuram roubar-se uns aos outros ou, se se quiser e usando-se uma linguagem mais benigna, «Amigos, amigos… negócios à parte!».

É, pois, neste contexto que se dá notícia do seguinte:

Um inglês, cativado por toda uma campanha publicitária feita ao Algarve pela RTA, denominada «Algarve Fica-te Bem», decidiu, para bem ficar, passar férias na região, apesar das restrições impostas pelo seu governo no que a tais férias diz respeito.

Como forma de contornar essas restrições, voou até Badajoz* e, uma vez aí, alugou um carro para ao Algarve, finalmente, poder chegar.

Em plena travessia do Alentejo, porém, sentiu-se, em determinada altura, desorientado e avistando dois compadres sentados junto à estrada pela qual conduzia, decidiu parar junto deles e colher informação que, devidamente, o orientasse para o seu destino.

Abrindo o vidro da porta do carro e aos dois compadres se dirigindo:

– Hello! Good morning…The route to the Algarve?

Os nossos compadres entreolharam-se em silêncio, encolheram os ombros e em silêncio permaneceram.

O inglês vendo que eles, pelos vistos, não conheciam a língua de Sua Majestade, tentou o francês, pois sempre era uma língua latina:

– Bonjour!… La route de l´Algarve?

Mas os compadres nossos, tornando a entreolharem-se e a encolherem os ombros, em silêncio permaneceram.

Já meio desesperado, o inglês tenta, ainda, o espanhol, uma vez que Portugal e Espanha não deixavam de ter fronteira comum:

Hola! Buenos dias… La carretera al Algarve?

Mas nada, o mesmo entreolhar, o mesmo encolher de ombros e o mesmo silêncio por parte dos compadres ditos.

Desesperado, só resta ao inglês continuar estrada fora, à procura de melhor sorte.

Algum tempo depois do inglês retomar viagem, um dos compadres, quebrando o silêncio e dirigindo-se ao outro:

Oh! Compadre, tenho estado cá a matutar… O compadre não acha que, para acompanharmos a modernidade, deveríamos, também, aprender uma língua estrangeira?

Ao que o outro lhe responde:

Para quê, compadre? Aquele sabia três e vossemecê acha que lhe serviu de alguma coisa!?

Consta que o inglês tem continuado às voltas pelo Alentejo, sem conseguir atinar com a estrada devida que lhe permita atravessar o Caldeirão e ao Algarve chegar.

Entretanto, enquanto às voltas, assim, anda, no Alentejo vai, necessariamente, consumindo, almoçando aqui, jantando acolá, sendo que o Alentejo, também, sofre com a crise e de tal tipo de consumo por parte de turistas estará precisado.

Bastando-lhe, para que o mesmo ocorra, a genuinidade das suas gentes, sem cedências na língua materna e aproveitando os turistas que lhe possam «cair no colo» de campanhas publicitárias feitas por outros, aparentemente, mais abonados.

* Isto, como será fácil de perceber, antes de Espanha, igualmente, ter passado a fazer parte da lista «negra» do governo inglês.

Luís Ganhão | Jurista