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Lê-se:

« Poluição na China não afeta somente o país. Estudos já mostram que o aumento da produção industrial (sublinhado nosso) provoca poluição em outras partes do mundo.»

«Portugal está em risco elevado de escassez de água e ocupa a 41.ª posição de uma lista que coloca 17 países, maioritariamente no Médio Oriente e Norte de África, em risco extremamente elevado de escassez de água»»

Etc.

Quando observo as mais diversas conferências e debates múltiplos sobre as alterações climáticas e a degradação do meio ambiente, matérias sobre as quais se tornou, entretanto, «politicamente correto» falar (1) e as medidas daí saídas para, pretensamente, lhes fazer frente, não deixo, muitas vezes, de pensar em como os respetivos conferencistas e oradores se gostarão de enganar a si próprios e/ou aos outros.

Digo isto, porque tais medidas, como substituírem-se os carros a gasolina por elétricos, as centrais a carvão por eólicas, etc., mais não passarão do que simples «aspirinas» para um «paciente» cada vez mais em estado «terminal», recusando ver (ou fingindo não ver) que o cerne da questão estará no modelo de sociedade em que vivemos: um modelo capitalista, sinónimo de consumo crescente, num planeta de recursos limitados e onde a população mundial não tem parado de crescer (só nos últimos cem anos, uma gota de água no vasto oceano da história da humanidade, estima-se que ela terá crescido cerca de quatrocentos por cento!).

Na verdade, um capitalista proprietário de uma fábrica de calçado, não irá dizer, ao ver já toda a gente calçada, que chegou a hora de parar a produção e contentar-se com tudo aquilo que, entretanto, possa ter ganho com ela. Não, a lógica capitalista é a de que se ganhou mil, há de querer passar a ganhar dois mil e por aí a fora (2). Para isso, entre outras técnicas de «marketing», ele vai inventar a «moda», vai dizer às pessoas que, pese embora estarem todas calçadas, troquem os sapatos pretos que possuem por uns brancos ou vice-versa, para poderem, assim, «dar nas vistas», terem «estatuto social»…

Curiosamente e como se não bastasse, até partidos que se dizem anticapitalistas, não deixam, contudo, de falar em investimento, produção, crescimento económico, ou seja, consumo!

E onde o consumo cresce, por mais reciclagens que se façam, não deixa de crescer, por sua vez, a poluição, a destruição do meio ambiente! O consumo de carros elétricos não implica consumo de baterias de lítio, lítio cuja exploração não deixa de comportar, por sua vez, riscos ambientais? Que dizer de uma paisagem campestre onde o chilrear alegre e diversificado da passarada vai dando lugar ao zumbido de um «exército» (quais gigantes invasores extraterrestres) de torres eólicas ou em que campos primaveris floridos vão dando lugar a extensões cada vez maiores de escuros painéis solares, tudo em nome do nosso consumismo sem freio, assente em ««black friday» e quejandos?

Que dizer de uma paisagem campestre onde o chilrear alegre e diversificado da passarada vai dando lugar ao zumbido de um «exército» (quais gigantes invasores extraterrestres) de torres eólicas ou em que campos primaveris floridos vão dando lugar a extensões cada vez maiores de escuros painéis solares, tudo em nome do nosso consumismo sem freio, assente em ««black friday» e quejandos?

Não será, pois, altura de se começar a refletir sobre um modelo de sociedade alternativo, quiçá de decrescimento económico, como já se fazem ouvir algumas vozes, de decrescimento do consumo supérfluo e onde os centros comerciais deem lugar a centros de lazer, socialização, de partilha e de cultura, antes que se torne tarde de mais?

Afinal, o Homem, também, é capaz de sonhar e quando isso acontece, como diria o poeta, o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança e não definha nas mãos de velhos, olvidando o futuro dessa mesma criança.

(1) Para os que só agora falam de política ambiental, convirá lembrar aqueles outros, como um arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, que há muito para ela começaram a alertar, sem, contudo, lhes ser dada a devida atenção.

(2)) David Harvey, no seu livro «O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo», explica tal lógica, entre outros fatores, com o facto de o dinheiro ser uma forma de poder social de que os indivíduos se podem apropriar. Por conseguinte, quanto mais se tiver, mais se quererá.

Luís Ganhão | Jurista