As passinhas do Algarve

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Na falta de explicação histórica para a origem desta expressão tão comummente utilizada no Algarve e no país, resta-nos enfatizar sobre a sua formação e o seu significado.

O Algarve foi reconhecido pela importância que deteve na produção, transformação e comercialização dos frutos secos.

A forma como estes eram colhidos, armazenados e tratados, conferia-lhes uma inegável qualidade. Felizmente, ainda retemos esse conhecimento ancestral, assim como também sabemos o quanto é duro todo o processo que acarreta.

Daqui, acreditamos que nasceu a expressão passar as passinhas do Algarve «utilizada metaforicamente para descrever o sofrimento e provação em todo o processo de transformação».

O seu sentido literal tem duas dimensões; o individual e o colectivo. E é nestes dois sentidos colectivo/individual, que hoje, esta região está a passar por um período negro da sua história.

Mas, voltemos à fama da passa Algarvia, que ultrapassou os limites da região e se expandiu ao resto do país, principalmente na região de Lisboa, centrando-nos figurativamente no Terreiro do Paço como símbolo do centralismo nacional.

A passa e outros frutos secos, chegavam a Lisboa vindos do Algarve (região inóspita, tão longínqua e exótica) por via terrestre. Imaginemos o sacrifício permanente desta viagem, que cruzava a serra algarvia e a longa planície Alentejana.

Ainda por mais, quando o desgraçado do almocreve pretendia atravessar o Tejo, era taxado. Apesar de todo este percurso sinuoso, a passa chegava doce e limpa para aguçar a gula do Paço. Não sabemos se esta expressão proferida a partir do Paço, era positiva ao reconhecimento do esforço dos algarvios ou dita de forma pejorativa a quem chegava da província.

Facto é que ainda hoje, o Paço e o seu Terreiro, continua a sorver as taxas doces da província.

Pois é… o advento da indústria turística nos últimos 50 anos, proporcionou ao País, divisas significativas. Seria extensivo e deveras moroso, quantificar os valores que a região contribui em valores líquidos nas últimas cinco dezenas de anos, expurgado do investimento na região. Investimento este mais fácil e menos moroso de quantificar, tal é a sua insignificância.

Analisemos agora a visão do Paço sobre esta região. Apesar de se situar frente ao extenso rio Tejo, estrada marítima para o mundo, a única coisa que conhecem é a rotunda do umbigo.

E dali se tomam medidas gerais e abstratas que criam, por vezes, profundas desigualdades territoriais, quando a verdadeira intenção é de que a norma seja, justa e praticável a todo o território.

Hoje, em tempos de economia de guerra, as medidas devem ser de guerra, proporcionais e adequadas à realidade territorial da região, para que sejam JUSTAS.

A realidade do que tem vindo a acontecer é completamente ambígua. Damos como exemplo duas pequenas situações:

a) A restrição de abertura de estabelecimentos e as restrições de acesso e horário aos estabelecimentos de restauração e bebidas.

b) A moratória das rendas que terminam em setembro 2020.

Meus senhores, ÀS 23 HORAS NO ALGARVE AINDA É DE DIA, como tão bem o sabem.

O cumprimento das regras sanitárias seguidas pelos estabelecimentos é imperativa, assim como a sua sobrevivência económica e preservação do emprego.

Acresce, que a larga maioria dos estabelecimentos possuem esplanadas, o que contribui para uma menor disseminação de contágios, estando estas ainda limitadas pelo espaçamento entre mesas.

Outubro de 2020 será catastrófico e está a chegar depressa demais, não haverá dinheiro para as rendas e mais estabelecimentos serão encerrados. O desemprego na região irá atingir níveis altíssimos. Facto, é que as tutelas têm conhecimento de toda esta realidade, mas continuam a manter a morrinha do vírus inativo até às 23 horas.

Com a ausência do mercado britânico e a diminuição dos fluxos de outros mercados, urge rentabilizar os negócios da melhor maneira possível de forma a colmatar o embate do Inverno, a mudança de horário de acesso, não colocará em risco os cuidados sanitários, desde que as regras se cumpram, mas fará toda a diferença.

Por cada dia que passa é um dia de derrota contra a COVID-19, as festas ilegais crescem como cogumelos e a responsabilidade terá de ser apurada. As más decisões são sinónimo de desorientação, mantê-las, uma injustiça.

Ao terminar este texto, chegou a recente notícia do apoio à região no valor de 300 milhões de euros, ou seja 0,66% do total alocado ao país.

Valor este para ser executado em sete anos e que é manifestamente insuficiente para a perda de valor, dos agentes económicos e das pessoas. É pouco mais do que um orçamento anual de uma autarquia.

Custa a entender este critério de alocação de recursos, que deveriam ser de acordo com a contribuição do Algarve para a riqueza nacional.

A inanição económica, não poderá servir de subjugação do Algarve ao terreiro.

Se o centralismo realizar a viagem das passinhas, aprenderá a reconhecer aos algarvios o seu esforço e sofrimento hercúleo deste longo Inverno. Se não nos querem, se não nos percebem e não nos ouvem, deixem-nos fazer a nossa viagem, porque as passinhas são nossas e continuam doces.

Sérgio Brito | Empresário e dirigente associativo