As linhas desalinhadas

  • Print Icon

Um saudoso tio meu, proprietário de uma drogaria na Rua de Santa Catarina, no Porto, costumava contar que, quando apareciam rapazinhos a trabalhar como serventes em obras a decorrer ali perto, os operários mais velhos, para os praxarem, mandavam-nos à loja comprar «5 tostões eletricidade em pó».

Um dia, já farto, encheu um cartucho com fuligem da chaminé, entregou-o ao garoto, ficou-lhe com a moeda… e assim acabou com a brincadeira, pelo menos lá na rua.

Além disso, a nível nacional, a eletricidade é produzida por fontes renováveis numa percentagem crescente (já é superior a 55 por cento, chegando a ultrapassar 100 por cento em certas horas), é importável e exportável instantaneamente (de e para a rede europeia), dispensa navios-tanque, camiões-cisterna e pipelines, é comercializada a preços variáveis (permitindo aos utilizadores escolherem o fornecedor e a tarifa que mais lhes convenha), e chega, à velocidade da luz, a todo o lado onde possa chegar um cabo elétrico.

Em termos puramente técnicos, nada impediria que elevadores, máquinas de lavar, aspiradores, metropolitanos, etc., funcionassem a derivados de petróleo ou mesmo a lenha ou a carvão.

Então porque é que nos rimos só com essa ideia, e todos usam electricidade?

Bem… é que ela é limpa, fiável, segura, abundante, barata, facilmente transportável e manuseável, transformável em luz, calor e movimento, permitindo-nos, neste último caso, beneficiar das vantagens próprias dos motores eléctricos: movimento rotativo (e não de vai-vem), fiabilidade, velocidade, binário, rendimento, simplicidade, compacticidade e, cereja em cima do bolo, possibilidade de recuperar a energia cinética aquando de travagem ou simples abrandamento.

Além disso, a eletricidade é produzida por fontes renováveis numa percentagem crescente (em Portugal chega a ultrapassar 100 por cento), é importável e exportável instantaneamente (de e para a rede europeia), dispensa navios-tanque, camiões-cisterna e pipelines, é comercializada a preços variáveis (permitindo aos utilizadores escolherem o fornecedor e a tarifa que mais lhes convenha), e chega, à velocidade da luz, a todo o lado onde possa chegar um cabo eléctrico.

O grande problema é que é difícil de armazenar em grandes quantidades, o que tem atrasado a massificação do transporte autónomo elétrico.

Curiosamente, os primeiros automóveis eram a baterias, mas os problemas que estas enfrentavam levaram ao seu rápido declínio, especialmente a partir do momento em que, em 1908, Henry Ford lançou o modelo Ford T.

Mas os tempos mudaram, e as sociedades começaram a ser confrontadas com desafios como a poluição e os problemas geopolíticos relacionados com o petróleo.

E foi assim que, com particular destaque a partir de 2012, começaram a ser produzidos, e às centenas de milhares por ano, veículos eléctricos autónomos, contando-se atualmente o seu número por milhões, e com crescimento exponencial.

Bruxelas estipulou, entretanto, metas conducentes à redução das emissões dos veículos com motores a combustão, pelo que todos os fabricantes estão a lançar uma enorme gama de modelos a bateria de Lítio, numa corrida em que a China também intervém, e da forma que todos lhe conhecemos.

Essa corrida está a traduzir-se numa rápida baixa dos preços e num aumento da autonomia dos veículos (desde os de duas rodas até autocarros e ferries!) para valores que, para os automóveis, já ultrapassam os 500 quilómetros, ao mesmo tempo que a potência dos carregadores tem vindo a subir, permitindo que as cargas possam demorar apenas minutos (e não horas) — para já não falar na tecnologia do hidrogénio, especialmente nos transportes pesados, um tema aliciante, mas que ficará para outra altura.

Aqui chegados, perguntar-se-á, então, porque é que os comboios Lagos-Tunes e Faro – Vila Real de Santo António ainda são a fuel, e vão continuar a sê-lo ainda por mais uns anos?

Pois saiba-se que isso sucede porque é preciso fazer a Avaliação de Impacte Ambiental (AIE)!

Eu gostaria de perceber melhor qual é o risco ambiental envolvido nessa mudança, que só tem vantagens, é inevitável e já tarda.

Será que os «avalia… dores» têm receio que nos caia em cima uma nuvem da tal «eletricidade em pó» que o meu tio vendia?

Carlos Medina Ribeiro | Engenheiro eletrotécnico, escritor e cronista lacobrigense