Alumínio, o cancro dos centros históricos

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Trata-se da epidemia dos alumínios, que já é endémica há algumas décadas no Algarve, mas que se tem vindo a agravar ultimamente, e que está a aniquilar a integridade, a harmonia e o élan espiritual das zonas históricas, não só na nossa terra, mas em todo o Portugal.

A arquitetura é, nas palavras do professor Francisco Lameira, um dos principais baluartes de identidade de um povo. Os romanos, quando conquistavam uma cidade, destruíam o mais possível a sua arquitetura pois sabiam que era essa a melhor maneira de subjugar os seus habitantes, destituídos que ficavam dos seus referenciais culturais mais importantes.

No Algarve não são os romanos que estão a destruir as nossas cidades. Somos nós que, num estranho caso de autofagia, estamos a devorar-nos a nós próprios.

Com a saída da crise deu-se um incremento extraordinário nas manutenções e reabilitações nos centros históricos que, surprise, começaram de repente a ser valorizados.

Até há pouco tempo estas zonas eram desprezadas e foram abandonadas pela população que as rotulava de velhas, pobres e feias.

O problema é que esta apreciação relativamente às zonas históricas não se alterou substancialmente e a intenção de quem lá intervém, não é de reabilitar respeitando a identidade das casas, mas de alterar em função de um paradigma de modernidade que colide de frente com a essência e o cunho histórico de tais casas e edifícios. Entretanto, assistiu-se igualmente nos últimos anos a uma perda quase total dos conhecimentos relativos aos processos construtivos tradicionais, o que ainda mais dificulta a possibilidade de intervenções adequadas nas habitações.

Entre as perdas mais significativas temos os artesãos carpinteiros que durante séculos esculpiram portas e janelas de grande qualidade artística ajudando a alcandorar as nossas casas a objetos de assinalável valor estético. Aliás, o Algarve, que é pobre em monumentos, concentrava muito da sua riqueza patrimonial na extraordinária qualidade artística das suas portas e janelas, que são das mais elaboradas e complexas do país e das mais interessantes do mundo.

Contudo, muito pouca gente se apercebeu dessa circunstância e confrontamo-nos, hoje, com a destruição selvática desses elementos preciosos da nossa cultura, estando a ser substituídos por pavorosas portas e janelas de alumínio que por sua vez destroem com a sua presença o que resta do edifício (que na maior parte das vezes, convenhamos, já foi abastardado pelo cimento e pela tinta plástica).

Falemos, então, deste material. A extração e produção de produtos à base de alumínio constituem indústrias extremamente poluidoras tendo, inclusive, dado origem a uma das maiores catástrofes ambientais de sempre na Europa (Hungria em 2010). O custo da produção das janelas de alumínio pode ajudar-nos a compreender o quão este material é ambientalmente insustentável o que, em função das preocupações atuais com o ambiente, é um aspeto não despiciente.

Assim, a energia consumida para produzir material até à sua aplicação final é 560 vezes maior no caso do alumínio do que no caso da madeira (Mariano Vasquez Espi, Universidade politécnica de Madrid). O facto das janelas de alumínio serem mais baratas que as de madeira é um absurdo, mas não é difícil perceber quem paga esta disparidade: o meio ambiente.

Não é, pois, de estranhar que o alumínio seja dos materiais mais utilizados nos países do terceiro mundo, onde os parâmetros de proteção ambiental são quase nulos. É um dos elementos que melhor define a expressão arquitetónica das favelas e dos bairros degradados. O alumínio está relacionado com pobreza, degradação ambiental e subdesenvolvimento.

Na Europa Ocidental os alumínios (mais sofisticados) resumem-se à arquitetura contemporânea, onde encaixam bem. Ficam, entretanto, à porta dos centros históricos. Portugal é o único país desta Europa onde os alumínios são utilizados em doses maciças nas zonas históricas – uma vergonha nacional!

As portas e as janelas, no contexto da arquitetura sempre desempenharam um papel relevante que advém do seu significado profundo e quase místico, pelo facto de representarem a passagem / fronteira entre o público e o privado, a exterioridade e a interioridade, o profano e o sagrado.

Numa outra perspetiva são considerados os olhos e a boca das casas. Por isso, sempre se colocou especial ênfase na sua concepção.

Tradicionalmente as portas e janelas eram fabricadas por hábeis artesãos que esculpiam na madeira facetamentos, frisos, almofadas e outros ornatos, conseguindo-se como resultado final peças únicas que constituíam autênticos objetos de arte. As pessoas tinham grande orgulho nas suas portas e janelas.

Uma porta ou janela de alumínio é uma peça industrial standard constituída por um material ordinário e destituído de qualquer valor intrínseco. A sua finalidade é quase exclusivamente funcional. Tem mais afinidades com um electrodoméstico do que com uma verdadeira porta e janela, que têm um peso cultural e simbólico impossível de ser representado por tais pífios artefactos. Temos que nos rebelar contra a sociedade do pechisbeque porque ela tira intensidade, densidade e profundidade ao ato de viver!