Algarvios ilustres de que ninguém se lembra: o jornalista Valeriano Machado

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Morre, definitivamente, todo aquele de que ninguém mais se lembra, sendo, por isso, certo que o esquecimento, em si, é mais forte e injusto do que a própria morte. Todavia, nem a proverbial inveja lusa, nem a natural ingratidão humana, conseguem sempre vencer. Figuras há que a vida eternizou, porque delas nunca se esqueceram os vivos.


Mas, em contrapartida, muitas figuras de talento e de génio não alcançaram a graça da fama nem a bênção dos poderosos, para poderem vencer a morte. Passado o tempo do luto, durante o qual viveram os seus genes, apagou-se a memória e o tempo cobriu-os na névoa do esquecimento.


Hoje, venho a esta tribuna lembrar um algarvio que o tempo injustamente apagou da nossa memória coletiva, mas cujo talento, de um fulgor plurifacetado, merece ser para sempre lembrado, como alguém que sacrificou o melhor do seu talento ao serviço dos outros, sobretudo da educação das crianças e dos mais desfavorecidos.
Peço, pois, a vossa atenção para vos apresentar, de uma forma sucinta, o jornalista, poeta e dramaturgo José António Valeriano Machado, um algarvio natural de Faro, a quem a rádio e o teatro português, nunca souberam pagar as dívidas de tantos anos de sacrifício e dedicação.


Espírito empreendedor e algo aventureiro, dotado de grande capacidade de trabalho, inteligência repentina, argúcia de filósofo, talento a rodos, mas desperdiçado em atividades de inferior relevância. Escrevia com facilidade em prosa e em poesia, dispersando-se pelos jornais locais até chegar às colunas da imprensa diária na capital. A partir de então, com o nome estampado nos vespertinos mais credenciados de Lisboa, tornou-se numa figura de superior pertinência e destaque social.

A vida nesses atribulados anos também não lhe correu bem. Sentiu que os magros cobres granjeados no jornalismo não eram suficientes para governar a vida, razão pela qual tentou encontrar no teatro os meios de sobrevivência com que pudesse pagar as dívidas. Por isso, escreveu para o Teatro Apolo uma revista intitulada «Risos e Flores», que embora levada à cena não teve o sucesso almejado pelo seu autor.
Felizmente existem depositados na Biblioteca Nacional, em Lisboa, pelo menos dois exemplares impressos, desta peça teatral, sendo que um deles é o texto original, ou seja, a versão literária da mesma, datada de 1920, idealizada muito antes de ser levada à cena em Lisboa. Para elucidação dos bibliófilos, aqui fica a descrição deste pequeno e raro livro, com que José António Valeriano Machado se estreou nas letras e no teatro: Riso de Portugal, Riso Amarelo ou Risos e Flores, Lisboa, Tip. do Comércio, 1920.


A outra edição desta peça corresponde à versão que foi levada à cena no Teatro Apolo, contendo o texto e as coplas em verso, inspiradas no gosto popular, que compunham o corpo cénico desta revista teatral. Tem esse folheto, de apenas 14 páginas, a seguinte descrição bibliográfica: Coplas da Revista, em dois actos e 2 Quadros, Risos e Flores, música de Vasco Macedo e Bernardo Ferreira, 1920.
Desiludido com a situação política da sua amada República, mas também para escapar às responsabilidades que lhe eram imputadas em determinado processo judicial, emigrou para o Brasil onde se fixou durante alguns anos. Todavia, razões de vária índole, próprias do seu espírito aventureiro, não lhe permitiram alcançar o sucesso desejado.


Republicano até à medula da alma, foi um dos chamados «heróis da Rotunda», pois que, com armas na mão, tomou parte ativa na Revolução do «5 de Outubro» em 1910. Mas essa foi uma das suas medalhas de juventude, de que pouco ou nada se orgulharia, porque a República além da desilusão em que a transformaram os seus apaniguados políticos, foi também um regime de grande conflitualidade na ordem pública, marcado por vários levantamentos militares, desobediência civil, terrorismo urbano, ataques bombistas, greves violentas do operariado, constantes crises governativas, em suma um clima de instabilidade política que só contribuiu para o descrédito do novo regime, em que as gerações jovens tinham depositado tantas esperanças.


Assim, desapontado com o Brasil, onde a vida não lhe correu de feição, regressou à pátria, fixando-se em Lisboa. Empregou-se na redação de «O Século» – um diário de larga expansão e sucesso, porta-voz do nosso incipiente capitalismo – onde como jornalista desenvolveu intensa atividade. Foi na qualidade de redator do «Século» que tomou parte no grupo de plumitivos que fundou a Associação dos Jornalistas Portugueses, cujo programa cultural e objetivos sociais defendeu e divulgou nos órgãos da capital. Desse núcleo embrionário surgiria mais tarde o Sindicato dos Jornalistas e a Associação da Imprensa de Portugal.


Receoso do seu futuro como jornalista, decidiu empregar-se como funcionário da União dos Grémios da Indústria Hoteleira, ao serviço da qual recebia um vencimento, que não sendo avultado era, contudo, infalível e suficiente para sobreviver. Nessas funções chegaria à idade da reforma, sem brilho nas letras, é certo, mas também sem sobressaltos na vida.


No tempo em que residiu no Rio de Janeiro, escreveu e publicou um belo livro de versos, no qual constam várias composições poéticas datadas de Faro. Encontramos um exemplar na Biblioteca Nacional, em Lisboa, do qual aqui deixamos a descrição oficial: Cinzas… Poesia Tosca, Rio de Janeiro, Imp. Moderna Carinhas, 1926, 117 p., [4] f., 17 cm (BNP: L. 34979 P.).

Curiosamente, este mesmo livrinho teve no ano seguinte, em 1927, uma nova edição, embora me pareça que deve ter sido apenas uma republicação da versão do ano anterior. Este procedimento não era raro nessa época, porque as edições de livros faziam-se primeiro com poucos exemplares (por vezes uma centena de exemplares) para testar o acolhimento público da obra, fazendo-se, em caso de resposta positiva, um aumento de exemplares à edição inicial. É por isso que em certas obras vemos no frontispício a indicação de 1º, 2º ou 3º milhar, em vez de 1ª, 2ª ou 3ª edição, por se tratar de um aumento da publicação de exemplares e não de edições espaçadas por diferentes anos de publicação.


Só lamentamos que este livro seja hoje raro de encontrar, até mesmo no Brasil, e, por isso, difícil de chegar às mãos do comum leitor. Infelizmente, à exceção da Biblioteca Nacional, em Lisboa, não existe em mais nenhuma outra biblioteca pública do nosso país.


Nos últimos anos de vida, Valeriano Machado, pronunciou aos microfones da «Rádio Graça» de Lisboa uma palestra semanal sobre temas muito diversos, como a instrução graciosa e pós-laboral da classe operária, a moral nacionalista e a ética social, a conduta religiosa do povo, o combate à mendicidade e a assistência aos pobres, poesia popular e teatro radiofónico, a leitura e a educação cívica dos trabalhadores, etc…

Na esteira desse programa radiofónico publicou um pequeno jornal, em forma de boletim, de que saíram impressos, entre 1941 e 1942, pelo menos seis números, cuja edição cessou devido aos condicionalismos da guerra. Esse boletim publicou-se com a designação de «Rádio Graça», sob a direção de Valeriano Machado e edição de Américo dos Santos, Lisboa, 1941-1942.


Os textos eram na sua maioria do Valeriano Machado, resumindo alguns programas difundidos, noticiando os melhoramentos do bairro da Graça, o sucesso de alguns dos seus moradores, assim como realçava os progressos técnicos da própria estação.
Esta estação radiofónica, sediada no Bairro da Graça, daí a sua designação, iniciou a emissão publica em 27-3-1932, sob a égide de Américo Santos, um simples guarda-livros que teve a inteligência e ousadia de divisar novos projetos e mais promissores horizontes, através da fundação de uma modesta antena de rádio, que viria a tornar-se num verdadeiro caso de sucesso através da inovadora emissão do teatro radiofónico nos anos cinquenta do século vinte.


Uma das peças mais aclamadas pelo público desse tempo foi o drama «A Força do Destino», que em 1954 chegou a ter entre os lisboetas uma audiência sem precedentes, a tal ponto que até a Emissora Nacional passou a inserir diariamente um espaço de teatro radiofónico, à hora do almoço e à hora do jantar, com peças dos maiores dramaturgos nacionais e estrangeiros. Devido ao seu enquadramento num bairro lisboeta, a «Rádio Graça» era uma espécie de rádio local com fraca expansão hertziana. Não tinha hipóteses de competir com as grandes antenas que dominavam o espaço nacional, nomeadamente a «Emissora Nacional», o «Rádio Clube Português» e a «Rádio Renascença».

Para poder ampliar o seu alcance, Américo Santos decidiu nos anos cinquenta juntar-se a uma quarta antena de âmbito nacional, os Emissores Associados de Lisboa. Deste modo, passou a fazer parte de um grupo de quatro estúdios com audiência nacional, no qual se integravam também a «Rádio Peninsular», o «Clube Radiofónico de Portugal», e a «Rádio Voz de Lisboa».


Idêntica estratégia ocorreu no norte do país em 1953, quando as rádios locais se associaram numa antena de larga expansão territorial designada por «Emissores do Norte Reunidos» (cuja antena esteve instalada no Canidelo, em Vila Nova de Gaia), que subsistiu até 1975, altura em que foi também nacionalizada, sendo hoje a «Rádio Comercial», fundada em 1979, a sucedânea natural do antigo emissor do Norte.
A popular «Rádio Graça» chegou a ter em Lisboa quase um milhar de associados, que pagavam as suas quotas para ouvir diariamente, as notícias locais, as canções e os fados mais populares, mas também os contos tradicionais portugueses, as palestras do desporto e da cultura, os preceitos sobre a vida cívica, e sobretudo as peças de teatro radiofónico, cujo patrocínio da marca de detergentes «Tide» foi o garante da sua sobrevivência até 1975, quando aquela emissora foi nacionalizada e logo a seguir encerrada, por não se enquadrar na linha convergente à nova ordem política.


Entre os programas de maior sucesso da «Rádio Graça» distinguiam-se os contos, as lições de história pátria e as palestras infantis, para a educação e formação cívica das crianças, da autoria de Valeriano Machado. Convém esclarecer que este programa tinha sido primeiramente difundido pelo seu autor na «Rádio Hertz», que depois o fez ressurgir aos microfones da «Rádio Graça», ainda com mais sucesso e maior difusão. É curioso notar que cada um dos programas tinha uma lição pedagógica a incutir no espírito das crianças.

Por isso era personalizado, isto é, tinha dedicatória a uma criança em particular, geralmente um filho ou neto de um associado da rádio, ou de um amigo do próprio autor. E o nome da criança era enunciado com todo o carinho, como que a pressagiar-lhe um auspicioso futuro. Foram depois reunidas num volume que deu à estampa com o título de Lições do Avozinho, método aprazível e intuitivo, Lisboa, Tip. da Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1940.


A edição deste livro inscreveu-se no âmbito das Comemorações Centenárias, uma espécie de apoteose do regime de Salazar, cuja nação dimensionada pelos cinco continentes se apresentava em paz e em prosperidade, perante uma Europa em guerra, possuída do espírito nazi e ameaçada pelo espectro da autodestruição.
O livro de Valeriano Machado, cujo conteúdo era de uma inocência desarmante, expressava uma mensagem patriótica e paternalista que na essência convinha à propaganda nacionalista do regime.

As lições moralistas que o autor infundia no espírito das crianças, favoreciam a apologia do país onde florescia a paz e o bom entendimento entre os cidadãos, sem o divisionismo partidário nem a desordem da democracia. Sem ser essa a intenção de Valeriano Machado, as «lições do avozinho» foram usadas para ilustrar a trilogia de Salazar: «Deus, Pátria Família».


Valeriano Machado, natural de Faro e cidadão do mundo, que viria a falecer em Lisboa, a 13-1-1954. Foi casado com D. Emília Correia Machado, de quem teve dois filhos, ambos bem colocados na vida, a Dr.ª Marina Correia Valeriano Machado, residente no Brasil, ainda viva, que usa o nome literário de Marina Frazão, e António Correia Machado, residente em Lourenço Marques, que julgo já falecido.
Por minha iniciativa e proposta, a Comissão de Toponímia de Faro atribuiu o nome de Valeriano Machado a um largo da cidade, em preito de homenagem a um farense que se distinguiu na poesia, no teatro, na imprensa escrita e radiofónica.