Algarve: um novo Hospital, um novo conceito

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Tendo surgido notícias nas últimas semanas sobre «o Parlamento aprova por unanimidade proposta para avanço do Hospital Central do Algarve», velhas ideias voltaram-me à cabeça. Antes do mais, parece-me que esta notícia é apenas uma mão cheia de nada. A proposta é apenas para que em 2019 se iniciem os procedimentos «com vista» à construção do novo hospital e, mais importante, é apenas uma proposta do parlamento e não uma intenção clara do governo.

Antes disso, irão ser construídos outros hospitais, sem dúvida extremamente necessários, nomeadamente o Hospital de Todos os Santos (em Lisboa), o Hospital de Évora, o Hospital do Funchal, e os Hospitais de proximidade de Sintra e do Seixal. Esses sim, já com projetos em andamento. Ou seja, o que esta notícia nos diz é que o novo Hospital do Algarve pode ser uma realidade dentro de 7, 8 ou 10 anos.

Essas notícias levaram logo a uma séria de reações, afirmações e opiniões, quase sempre desencontradas, mais atentas a pequenas rivalidades e protagonismos locais.
Em minha opinião falta uma visão de futuro e uma clara afirmação de vontade dos poderes algarvios. O que se deve questionar será: é necessário um novo hospital na região do Algarve?
Se sim, com que prioridade? Que modelo de cuidados de saúde hospitalares queremos para a região?

Em relação à primeira questão, basta lembrar que o Algarve é a região de Portugal com menor número de camas por habitante. Partindo de uma população de 442 mil habitantes e um número médio de camas hospitalares de 330/100 mil habitantes (PORDATA), o Algarve devia ter, no mínimo 1350 camas hospitalares. Atualmente, o Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), única estrutura hospitalar pública da região, que inclui o Centro de Reabilitação do Sul, dispõe de 950 camas, aproximadamente. O enorme déficit é evidente.

Além disso, se a Unidade Hospitalar de Portimão ainda dispõe de estruturas adequadas à sua atual missão e potencial de expansão, a Unidade Hospitalar de Faro encontra-se atualmente completamente estrangulada.

Isso é visível a olho nu para qualquer profissional que lá trabalhe. E tem-se acentuado, nos últimos anos, pela indefinição sobre investimentos motivada pela … hipotética construção do novo hospital! Como diz Horácio Guerreiro em artigo recente «o hospital de Faro já não reúne condições para cumprir cabalmente a missão de hospital diferenciado, que lhe é exigida. Tem enfermarias grandes, corredores estreitos, salas de espera exíguas, não tem radiologia de intervenção, nem cintigrafia, nem PET, nem onde os colocar, tem um bloco operatório e esterilização exíguos, etc». E os eteceteras são muitos.

A ideia, que li num outro artigo de opinião, de o Hospital de Faro anexar as instalações do atual pavilhão de São Luís e expandir-se para «o outro lado da rua» nem merece comentário, por estar tão fora da realidade. Parece, até, que se querem cometer de novo erros recentes relacionados com essas mesmas instalações desportivas.

Assim a reposta à primeira pergunta, e à consequente, está dada. Um novo hospital é extremamente necessário e é, em meu entender, uma enorme prioridade.

Resta saber porque razão foi removido da lista prioritária de hospitais a construir – onde foi colocado em segundo lugar no ano de 2006 – e atirado para uma espécie de limbo, do qual ainda não saiu.

Passando à segunda pergunta, que talvez devesse ser a primeira: que modelo de cuidados de saúde hospitalares queremos para a região do Algarve?

Desde a estruturação do Serviço Nacional de Saúde que a rede hospitalar na região do Algarve está desequilibrada e nunca se procurou corrigir. Basta comparar com a rede hospitalar da região do Alentejo, que tem uma estrutura coerente e uma lógica que atende, em simultâneo, à proximidade e à diferenciação. Com a recente criação do CHUA o desequilíbrio manteve-se e, até certo ponto, acentuou-se. Temos uma Unidade Hospitalar de Portimão, de média diferenciação, que cumpre uma função de proximidade e assegura os cuidados a um terço da população da região e uma Unidade Hospitalar de Faro, que se pretende de elevada diferenciação, mas ao mesmo tempo com funções de proximidade, e que atende dois terços da população do Algarve.

Quando escrevo isto, parece-me óbvio que o Algarve necessita de três unidades hospitalares: duas de média dimensão, de média diferenciação e com funções de proximidade e uma outra de elevada diferenciação, o novo Hospital Central do Algarve ou novo Centro Hospitalar e Universitário do Algarve.

Para isso, basta apenas mudar ligeiramente a forma de ver as coisas.

O novo hospital não deve substituir o atual Hospital de Faro, mas sim ser um verdadeiro novo hospital, mantendo-se um “novo/antigo Hospital de Faro”. Até porque o que fazer das instalações do atual é uma pergunta que nunca teve resposta cabal.

Reparem que será a primeira vez que se pretende «fechar» uma estrutura hospitalar robusta e construída de raiz para esse fim. Não serve nenhum outro propósito e é demasiado grande, demasiado equipada, para ser incluída na rede de cuidados continuados.

Assim, a região teria dois hospitais de média dimensão e de média diferenciação – o Hospital de Portimão ou do Barlavento e o Hospital de Faro, ou do Sotavento. Estes assumiriam a importante função de proximidade e disporiam das valências hospitalares básicas: medicina interna, cirurgia geral, ortopedia, ginecologia/obstetrícia, pediatria, anestesiologia, radiologia, patologia clínica e cuidados paliativos. Disporiam ainda de unidades de especialidades médicas e cirúrgicas, autónomas ou dependentes do Hospital Central, de acordo com carta hospitalar.

Por fim, teriam uma Urgência Médico-Cirúrgica com unidades de cuidados intermédios/intensivos acopladas. No geral, o Hospital de Portimão manteria as suas características atuais e o novo/antigo Hospital de Faro, com as suas atuais instalações e equipamentos, asseguraria em pleno estas funções. Cada um deles teria 300 a 350 camas de doentes agudos.

O novo Hospital Central do Algarve seria assim uma unidade altamente diferenciada, assegurando uma atividade clínica de excelência – já hoje praticada no CHUA sem que ocorra, por vezes, o devido reconhecimento público – de que são exemplos (sendo injusto para o que não for nomeado) a Unidade de Hemodinâmica Cardíaca, a Unidade de Cuidados Intensivos Coronários, a Unidade de Tratamento Cirúrgico da Obesidade, a Unidade Multidisciplinar de Doença Oncológica Digestiva, a Unidade de AVCs, a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos, a Unidade de Diabetologia/Centro Colocador de Bombas de Insulina, o Centro de Neurodesenvolvimento Pediátrico, o Grupo Multidisciplinar de Senologia, a Unidade de Imunodeficiência ou os serviços de ORL, Urologia e Neurocirurgia.

Disporia ainda de um serviço de Imagiologia com capacidade para medicina nuclear e radiologia de intervenção e de um Serviço de Urgência Polivalente com Unidade de Cuidados Intensivos de nível III. Teria ampla ligação à Universidade do Algarve, através do Academic Biomedical Center, e seria o polo de desenvolvimento de investigação biomédica de alta qualidade. Este hospital teria cerca de 600 camas, o que perfaz (incluindo o Centro de Reabilitação do Sul) cerca de 1300 camas hospitalares para a região.

Os recursos humanos do novo Hospital serão recrutados no Hospital de Faro, a maioria, no Hospital de Portimão e noutras regiões. Poderão ocorrer algumas dificuldades iniciais, mas temos tempo para nos preparar. O curso de medicina e os cursos da Escola Superior de Saúde da Universidade do Algarve, em pleno funcionamento, garantem um grande manancial de jovens profissionais e esta nova realidade fará da região o local atrativo para o desenvolvimento de qualquer carreira na área da saúde.

Por fim, será necessária uma ligeira reorganização dos cuidados primários de saúde.

O Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Sotavento passará a incluir os concelhos de Olhão e Faro, que juntamente com o Serviço de Urgência Básica (SUB) de Vila Real de Santo António, terão o Hospital de Faro como hospital de referência.

O ACES do Barlavento perderá o concelho de Silves e continuará a ter como hospital de referência, juntamente com o SUB de Lagos, o Hospital de Portimão.

O ACES Central, incluirá os concelhos de São Brás de Alportel, Loulé, Albufeira e Silves que, com os SUBs de Loulé e Albufeira, drenarão diretamente para o novo Hospital Central. Assim, finalmente, o Algarve terá três áreas de saúde, com populações equilibradas (aproximadamente 150 mil habitantes) e uma rede hospitalar coerente.

Poderão apontar que este novo hospital, neste novo conceito, deveria ser mais central e que obriga a grandes deslocações dos utentes.

Julgo ser um falso problema: as pessoas já se deslocam de todo o Algarve, com facilidade, para áreas comerciais na zona de Faro ou Portimão.

Se houver um ajuste da disponibilidade de transportes públicos (autocarro e comboio) as distâncias serão sempre muitos curtas.

Julgo ser esta, ou outra parecida, a estratégia pela qual todos deveríamos lutar, sem olhar a cores políticas, a disputas locais ou egos pessoais.

Uma estratégia com uma visão para o futuro da saúde na região do Algarve.

Se persistirmos nas atuais pequenas querelas paroquiais, se continuarmos a ter dificuldade na integração das duas unidades hospitalares do CHUA, o futuro pode não ser risonho.

Em Lisboa pode existir uma visão do Algarve semelhante à que os Romanos tinham dos antigos Lusitanos: uma gente que nem se governa, nem se deixa governar!

No momento atual, desfazer o Centro Hospitalar e separar os dois hospitais, por vontade própria ou forçada, levará sempre a uma desqualificação das duas unidades, especialmente para o Hospital de Portimão. Pode inclusive ocorrer a constituição de Unidades Locais de Saúde, incluídas numa nova ARS do sul, com uma centralidade mais a norte, o que seria uma (quase) humilhação para a saúde do Algarve.

É tempo de assumirmos as nossas responsabilidades, de pugnar em conjunto por um modelo de cuidados de saúde que os algarvios merecem e que a região tem obrigação de oferecer a quem nos visita.

Paulo Caldeira | Médico, Assistente Graduado Sénior de Gastrenterologia, Coordenador da Unidade Multidisciplinar – Centro de Referência do Cancro do Reto do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA)