Agricultura: aprender com os erros, investir com conhecimento

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Muito tem mexido a agricultura do Algarve. Há histórias de sucesso e insucesso empresarial. Um dos fatores essenciais para as empresas progredirem é serem capazes de inovar. Aprenderem com os erros e investirem em conhecimento, experimentação e em parcerias com universidades e centros de saber.

No Algarve podemos identificar agricultores e produtores rurais inovadores, mas também organizações que se adaptaram aos desafios dos mercados, perceber as suas estratégias, as preocupações e as respostas que procuram, o segredo do negócio mas também o sentido de partilha. Há algo de comum em todos eles: um gosto enorme pelo que fazem.

Destaco os jovens agricultores, pela dificuldade que continua a ser o rejuvenescimento agrícola. Apesar de uma nova vaga de gente bem preparada, temos agora menos jovens na agricultura dos que tínhamos há 20 anos atrás. E sabemos como eles qualificam a atividade e estão associados a explorações mais bem dimensionadas. E têm espírito inovador.

Na agricultura de regadio temos investimentos muito interessantes. Jovens que introduzem novas variedades, como na romã ou no diospiro, que relançam produtos que tinham estagnado no mercado, como o abacate, que aplicam novas tecnologias em produções tradicionais, como na figueira e no medronheiro. Jovens que apostam em territórios muito complicados do nordeste algarvio, com solos pobres e com muito pouca água, que inovam na instalação de olivais e querem fazer da região o solar da azeitona de mesa. E que até nos ensinam a temperar as azeitonas britadas com azeite, há volta de um ensopado de borrego.

Temos jovens rurais que adotam modelos de agricultura alternativos, como a permacultura ou a agricultura biológica, que aderem a redes internacionais de voluntários para trocas de experiências e de trabalho na exploração, que transformam, em pequenas cozinhas, os seus produtos e os valorizam em compotas, trufas de figo, manteiga de alfarroba e amêndoa e azeites aromáticos e retiram das salinas não apenas flor de sal como sal líquido, procurando aproveitar tudo. Integram estilos de vida saudável e modelos de negócio rentáveis.

Percebemos, neste roteiro de jovens empreendedores, que conhecem as novas tendências da produção, mais amiga do ambiente, com uso racional de recursos, sem desperdícios, sempre à procura de ter mais qualidade com menos custos. Mas o que os distingue verdadeiramente é a inovação organizacional, a multifuncionalidade e a integração de atividades, a atenção aos movimentos sociais e à organização do trabalho, a perceção do mercado e a relação ativa com os clientes.

Tudo isto só é possível com apoio dos fundos comunitários. Por isso, é fundamental agilizar o Programa de Desenvolvimento Rural 2020. Já lá vão dois anos com um programa bloqueado, com decisões de partida erradas e escassez de verbas, sem uma orientação de prioridades, colocando em risco este ciclo de inovação em meio rural.

Termino com um desafio: instalar na região um Observatório de Inovação Agro-Rural, que permita medir, avaliar, acompanhar e transferir conhecimento e tecnologia, modelos de negócio e de organização empresarial.

Opinião de Miguel Freitas | Professor na Universidade do Algarve