A Noite Obscurantista está a regressar?

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1) A imprensa internacional noticiou mas, por cá, creio que a coisa não teve grande eco. Várias escolas públicas de Barcelona decidiram varrer os ficheiros das suas bibliotecas a fim de eliminar os livros considerados sexistas e que, pela sua leitura, promovam a desigualdade de género. Entre estes, encontram-se os do Capuchinho Vermelho, da Cinderela e da Branca de Neve.

Foram cerca de 30 por cento dos títulos encontrados entre as estantes das escolas atingidas pelo raio demolidor da correção de género. Esses são os livros que as fascistas de Barcelona consideram «tóxicos» (a designação vem numas declarações prestadas ao diário El País por uma apaixonada da censura); os restantes títulos dividem-se entre «problemáticos» (cerca de 60 por cento) e os «adequados a uma perspetiva de género» (uns miseráveis 10 por cento).

Regressámos, assim, claramente, ao mundo das senhoras puritanas anteriores à «lei seca» americana. Se um dia estas fascistas decidem que os «problemáticos» também devem ser retirados das estantes, bem podem fazer uma fogueira à moda dos seus antepassados da Inquisição ou dos nazis, a cujo mundo pertencem.

É, aliás, no mínimo, curioso que uma sindicalista da UGT tenha comentado: «Não vamos acender uma fogueira, mas devemos refletir». É preciso esclarecer que as centrais sindicais espanholas – tanto a UGT como a Comisiones Obreras – têm grupos de pedagogos que teorizam, em panfletos e nos sites das suas organizações, sobre o fim dos jogos de futebol no recreio, o uso de azul na roupa dos rapazes, a música a ouvir, os autores a evitar, as formas de tratamento, as casas de banho, e por aí fora.

Esta purga catalã é organizada por professores, pais e mães imbecis, sindicalistas e loucos indeterminados cuja existência a ciência tem dificuldade em explicar, mas ameaça fazer lei por todo o lado.

2) Jonathan Ross é uma estrela, apresentador de televisão e rádio inglês. Uma vez perguntou à sua audiência: «pensais que a algumas pessoas não deveria ser permitida a paternidade? Por exemplo, as que vivem nos bairros de habitação social?».

Comentando com alguns amigos esta pérola civilizacional encontrada na internet, fiquei a saber que, afinal, em diversos países europeus, existem programas de rádio e televisão onde se manifesta uma perceção do mundo que julgávamos ter desaparecido.

Na velha Europa do Renascimento, do Humanismo e das Luzes, há tabloides e espetáculos de televisão a demonizar membros das classes trabalhadoras e toxicómanos considerados subsidiados irresponsáveis, pois bebem demais, fumam imenso, comem excessivamente, têm demasiados filhos e são maus pais. Juntamente com emigrantes e refugiados, tornaram-se alvos regulares no teatro da crueldade.

3) As recentes comemorações do 10 de Junho trouxeram mais uma vez para a ribalta o tema infinito da desigualdade racial (e por vezes religiosa, étnica). Portugal é um país racista? Há racistas em Portugal? O tema adquiriu contornos particulares a propósito da atuação das Forças de Segurança em bairros socialmente degradados.

E assistimos, estupefactos, ao episódio de um dirigente sindical ser levado a demitir-se devido à contestação dos respetivos associados às suas denúncias sobre esta matéria.

Importa, em minha opinião, dizer com clareza que alguns dos piores exemplos de bairros como o Casal Ventoso, Cova da Moura, 6 de Maio, Quinta do Mocho, Jamaica, Bela Vista, Aleixo, devem merecer cuidados e enormes esforços de reabilitação por todas as razões sociais e económicas, independentemente do facto de as minorias étnicas representarem 10 ou 90 por cento da respetiva população.

Estes bairros são a vergonha de todo um país e não é por estarem habitados por negros, muçulmanos ou ciganos. É por não terem suficiente atenção por parte dos poderes públicos, dos políticos, das empresas, das instituições, das igrejas e dos sindicatos. É por serem a ilustração deste facto singelo: Portugal é um dos países mais desiguais da Europa.

4) Em qualquer dos casos apontados, são muitas, variadas e potencialmente contraditórias, as respostas às questões de fundo que se levantam. Compreende-se, dado que estão em causa valores essenciais, entre os quais os de humanidade, dignidade da pessoa e liberdade.

Não esperamos, portanto, que cheguemos facilmente a consensos. Estão em causa ideologias, crenças e a situação de cada um. Felizmente, pois uma sociedade decente depende do respeito de uns pelos outros. Há, entretanto, uma questão prévia à discussão com alguma cordialidade e argumentos: fascismo nunca!

Manuel da Luz – Cidadão algarvio.