Consequentemente, aumentou o abandono das nossas atividades produtivas tradicionais, nos setores da agricultura e das pescas, dando origem a um desmesurado crescimento do desemprego regional. Nunca foi adotada uma estratégia de diversificação da atividade económica, mas o Algarve adaptou-se.
Emergiu o setor do comércio e serviços. Num futuro próximo, tornar-se-á inevitável mostrar ao poder político a indispensabilidade de uma diferente abordagem à economia do mar.
Tal desiderato não será uma fatalidade ou penitência, que tenhamos que cumprir, visto possuirmos recursos pouco explorados, relativamente ao uso presente e futuro do nosso mar.
Na sequência da última remodelação portuária (fevereiro 2014), os portos comerciais de Faro e Portimão, passaram a ser tutelados pela administração do porto de Sines.
Perante uma quase generalizada indolência política, consumou-se a exclusão do porto de Vila Real de Santo António (VRSA), que também é comercial.
Aparentemente, usar a experiência de Sines para ganhar escala e garantir a marca de qualidade dos portos comerciais do Algarve, é o ingénuo intuito. Se a tese vingar, prosperam os portos sob tutela da administração do porto de Sines, que teve um movimento de carga portuária, superior a 47 por cento do total transportado, em Portugal, no 1º trimestre deste ano.
A contrario sensu, o porto comercial de VRSA é empurrado para o apagamento, apesar dos repetidos «amanhãs que cantam» do presidente da Câmara local.
Devido à ação ou omissão de alguém, o porto comercial de VRSA definhou, mas tem um cais de 300 metros de comprimento e possuía um terminal ferroviário de carga/descarga, em plena área portuária. Basta executar dragagens na barra e leito do Rio Guadiana – que ocorrerão seja qual for o pretexto invocado – para reunir condições de funcionamento, por exemplo, para os percursos turístico-fluviais.
Recordamos o porto comercial de Faro, que já passou por dificuldades, mas não foi ignorado. Estrategicamente, foi melhorada a sua capacidade de oferta e os obstáculos foram ultrapassados.
Nada impede uma solução análoga para VRSA, que chegou a ser o 2º porto nacional em termos de movimentação de carga, quando os produtos da mina de São Domingos e da indústria de conservas de pescado eram determinantes na economia regional. Hoje pode dizer-se, que as mudanças operadas no setor portuário, deveriam abarcar um plano de enquadramento global, atentando nas suas especificidades.
De facto, verifica-se uma completa ausência de políticas portuárias escoradas numa estratégia de desenvolvimento com calendarização, etapas e objetivos. O centralismo, no seu pior, ignorou que VRSA também tem um porto comercial beneficiando do silêncio cúmplice de responsáveis locais e regionais.
Defensivamente, o governo dramatizará a habitual tese da inevitabilidade, como tem sucedido com o confisco das pensões de reforma e salários. É o truque costumeiro. Entretanto, foi noticiada a prospeção offshore de gás natural, a poucos quilómetros das praias vila-realenses.
Desajeitadamente, o presidente do município local e do PSD/Algarve, Luís Gomes, expôs aos media as suas dúvidas acerca do impacto da exploração de gás natural. Mas,… não é suposto ser um interlocutor privilegiado do governo?
Entrementes, nada de novo nos portos do Algarve e esse laxismo preocupa o indigenato. Creio, convictamente, se a Região Administrativa do Algarve fosse já uma realidade efetiva, não se atreveriam.
*Estudioso dos assuntos do mar