No relatório de 2 de novembro de 2014 do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas, trabalho produzido por oitocentos cientistas, diz-se, pela primeira vez, que as emissões dos gases de estufa têm de ser reduzidos a zero, até 2100, para que a Terra, considerada como um todo, não aqueça mais do que 2º C – o que foi estabelecido como o limite para que o aquecimento global não produza fenómenos irreversíveis e potencialmente perigosos.
Num outro estudo realizado por dois cientistas da University College de Londres, publicado na revista Nature (8/1/15), chegou-se à conclusão que um terço do petróleo, metade do gás e mais de 80 por cento do carvão existentes nas reservas a nível global têm de ser deixadas no subsolo, inexplorados, para se evitar o aquecimento global, com consequências trágicas.
Há bem pouco tempo, em Paris, o mundo inteiro parou para seguir a Cimeira do Clima e, finalmente, celebrar, com grande entusiasmo, a assinatura por todos os países presentes, de um compromisso político com o objetivo de erradicar a utilização dos combustíveis fósseis até ao fim do século.
Estamos a viver, pois, um momento histórico da civilização humana, um momento em que a humanidade percebeu que o seu futuro está em perigo e que a necessidade de arquitetar um novo paradigma de modo de vida e de relacionamento com a natureza, interpõe-se como uma questão de sobrevivência.
É neste contexto de esperança, da possibilidade de um salto civilizacional, de se começar a construir uma sociedade na base de valores como o respeito pela natureza e pela dignidade humana, que nos batem à porta uns arcaicos e sinistros senhores transportando umas pastas com uns dossiers tipo minas e armadilhas, para nos demonstrarem que é tudo muito simples, muito calmo, muito pacífico, que não há nada a temer. E que vamos ficar todos ricos!
Nós, algarvios, guardiões desta terra abençoada pelos deuses, falhámos rotundamente uma vez, ao termos permitido o saque imobiliário que descaracterizou amplamente este outrora paraíso, e mais outras vezes, nomeadamente e muito recentemente no ato ignóbil da destruição da praia de D. Ana, até agora o maior crime ambiental do século XXI no Algarve. Não podemos permitir, desta vez, que uma cruzada de dinossauros provindos de uma era que já está em vias de extinção, venha ainda tentar colocar os seus ovinhos poluidores e destruidores nas nossas praias.
O que se quer, hoje em dia, é o Algarve da nova Era emergente, em sintonia com o que dizem os cientistas e filósofos de todo o mundo, o Algarve da sustentabilidade, das energias limpas, do respeito pela nossa cultura mediterrânica, da proteção da paisagem e da reabilitação da nossa arquitetura, agricultura e pesca tradicionais.
Quanto a esses senhores fora de prazo, temos que os ter bem debaixo de olho. Na extinta era dos dinossauros, havia predadores perigosíssimos e brutais!
Opinião de Fernando Silva Grade | Ambientalista e autor do livro «O Algarve tal como o destruímos»