Talentos algarvios em acordeão

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O acordeão é o instrumento musical popular por excelência, na região sul de Portugal. É rei nos nossos ranchos folclóricos, fornecendo as melodias ao compasso dos ferrinhos. Também continua a ser muito usado em bailes de cariz popular, principalmente fora dos centros urbanos. Recentemente, ganhou foro de executante de música erudita.

A Bordeira, pequena aldeia do concelho de Faro, é «terra de acordeão», pois tem visto nascer, ao longo de séculos, muitos executantes e compositores de gabarito. De tal modo que Eugénia Lima, ainda hoje considerada por muitos como a maior acordeonista portuguesa de sempre, foi atraída, aos 6 anos, pela arte de José Ferreiro (Pai), ao ouvi-lo tocar em Castelo Branco.

Nelson Conceição, 36 anos, é mais um talentoso acordeonista da Bordeira. Começou aos oito anos e teve como último professor Aníbal Freire, em Alcobaça, para onde se deslocava de 15 em 15 dias, ao domingo, embora tivesse três empregos na altura.

Acordeonista com créditos e vários prémios no seu currículo, como artista, decidiu dedicar-se ao ensino, mas encontrou grandes dificuldades, «porque isso não significava que a parte pedagógica fosse muito positiva. Tive de prestar provas e tive dificuldade em arranjar o conjunto de alunos que tenho hoje e que me têm dado muitas alegrias, não só pelos prémios alcançados a nível nacional e internacional, mas acima de tudo pelo talento que têm vindo a desenvolver e pela riqueza que têm vindo a dar à música algarvia».

O nosso entrevistado criou o projeto «Folequestra», para dinamizar e dar a conhecer outras formas de música, misturando o acordeão com guitarras, percussão e baixo. Tem sido um sucesso, como demonstram o 4º e 5º lugares alcançados no maior prémio para orquestras de acordeão do mundo, o Festival Castelfidardo, em Itália. O 4º lugar dos jovens músicos amadores algarvios foi obtido entre 16 grupos maioritariamente profissionais.

Nelson Conceição é coordenador, em conjunto com o professor Hermenegildo Guerreiro, do projeto «Terra de Acordeon», que visa publicar os grandes autores do passado.

«Autores como José Ferreiro (Pai) e José Barra Bexiga, que não deixaram a obra registada. Alguns não registaram mais do que 10 ou 20 por cento da sua produção musical. Estava tudo engavetado e, neste momento, estamos a lançar livros para que os jovens possam tocar as músicas desses grandes autores», disse-nos o nosso interlocutor.

Também têm estado a ser editados CDs desses compositores, interpretados por grandes acordeonistas nacionais consagrados. Todos os compositores homenageados nesta fase são da Bordeira: José Ferreira (Pai e Filho), José Barra Bexiga e Daniel Rato. Outros, como Hermenegildo Guerreiro, serão contemplados numa segunda fase.

O «barlavento» esteve à conversa com três jovens talentos algarvios no acordeão, todos com 17 anos, a cursar o 12º ano, alunos de Nelson Conceição e membros da «Folequestra».

Jéssica Guerreiro

Natural das Ferreiras, Albufeira, toca desde os oito anos. Foi influenciada pelos bailes no Alentejo, onde o instrumento reinava. E, talvez, pela mãe, que começou a aprender tarde e não continuou, porque engravidou da Jéssica.

«Eu já gostava. Ia aos bailes, pequenina, e ficava a olhar para o tocador, porque aquele som despertava-me uma certa harmonia. Então, decidi tentar e aqui estou», foi-nos dizendo com simplicidade e um pouco de acanhamento.

Faz parte do Grupo Folclórico dos Olhos de Água e toca em espetáculos, galas e concursos, numa vertente de música popular e folclórica e já arrecadou alguns troféus, incluindo um 8º lugar no campeonato mundial, na Lituânia, em setembro passado.

Contudo, vê o seu futuro na área da saúde, programando a sua entrada na universidade, no próximo ano, para cursar enfermagem. O acordeão passará a ser um hobby ou uma atividade secundária.

Daniel Silva

Natural de Malhão, Paderne, Albufeira. O avô já tocava, o pai também «toca um bocadinho», o irmão mais velho começou, mas abandonou. O Daniel, com oito anos, pediu ao pai que lhe ensinasse algumas músicas fáceis. Aprendeu-as e pediu para ir para uma escola.

Toca no rancho Amigos das Ferreiras, faz festivais e concursos, indo anualmente ao campeonato nacional, em Alcobaça, onde ganhou um 1º lugar, na «Folequestra».

Individualmente, conquistou o 1º lugar, no ano passado, já tendo arrecadado outro, no primeiro ano em que lá foi.
Tocou música clássica durante cerca de três anos, «mas agora estou mais na varieté, que é mais divertida».

E foi nesta modalidade que, em setembro, obteve o 6º lugar no campeonato do mundo, na Ucrânia.
Também está a pensar em ir para a universidade, remetendo o acordeão para hobby.

Hernâni Cerqueira

Natural de Tunes, foi influenciado por uma tia acordeonista e começou a aprender aos cinco anos.
«Comecei com o professor Nelson Conceição e, desde aí, nunca mais parei. Vou aos festivais de São Brás de Alportel e de Messines e toco no rancho folclórico de Albufeira. No rancho, toco folclore, como não podia deixar de ser. Fora disso, toco músicas menos conhecidas do povo português», foi-nos dizendo.

Alcançou a 7ª posição no Campeonato mundial, na Ucrânia, em Setembro e é o único que pensa fazer uma carreira na música, planeando a sua entrada no Conservatório de Música de Beja. Escolheu esta cidade alentejana, pois foi o local onde, tanto a tia como o professor, estudaram.