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João é um jovem portimonense, agora com 35 anos, que tinha a profissão de eletricista, mas que era um desportista, tendo por hobby desafiar o perigo, em motocross freestyle. Ao fim de semana, acelerava rampa acima, numa moto ou numa bicicleta rebocada por uma moto, elevava-se no ar cerca de sete metros, fazia um back-flip e voltava a aterrar noutra rampa, tendo voado 13 ou 14 metros. A adrenalina que lhe corria nas veias saltava para o público, que o aplaudia, maravilhado.

Um dia, aos 28 anos de idade, o João foi vítima de um acidente. Não na modalidade que todos diziam ser perigosíssima, mas na estrada, num passeio com amigos.

Furou o pneu dianteiro e, a 30 quilómetros à hora, numa curva, a roda fugiu-lhe, acelerou um pouco para endireitar a moto, mas encontrou uma pedra. Foi cuspido e, ao cair, bateu com as costas noutra pedra, desmaiou e, quando acordou, estava paraplégico, com uma lesão lombar ao nível das vértebras D4 e D5.

Mas este jovem, insensível dos mamilos para baixo, não se deixou ir abaixo, nem perdeu a vontade de viver. Pelo contrário, é um exemplo para muita gente que anda a chorar pelos cantos por coisas insignificantes.

«Eu não sou diferente de ninguém. A fase inicial é muito difícil e passam-nos imensas coisas pela cabeça».

«Infelizmente, perdi os meus pais, vítimas de cancro, a seguir à lesão, mas a minha mãe era muito trabalhadora e sempre nos tentou proporcionar todas as condições para termos uma boa vida. Uma coisa que meti na cabeça, antes de sair do hospital, foi que «a minha mãe nunca vai saber o que é ter um filho paraplégico», significando que não queria que ela tivesse de perder o pouco tempo livre a tratar de mim, embora tivesse de adaptar partes da casa e ficasse preso a uma cadeira de rodas».

A maior ou menor adaptação, segundo João Pinto, depende de cada ser humano, sendo necessário força de vontade, mas vai ocorrer naturalmente.

Acabou-se a sua vida profissional, mas não se deixou abater. Regressou à vela ligeira, que praticara assiduamente, de muito novo, mas que colocara um pouco de lado, a partir de 2002, para se dedicar ao match racing. Mas, agora, adaptada à sua condição.

Quando quisemos saber como se sente um homem que, de repente, se vê numa cadeira de rodas, privado de uma vida ativa, respondeu-nos: «depois de ficarmos paraplégicos, porque não temos uma noção até nos acontecer, o que desejamos é que a lesão tivesse sido, pelo menos, uma vértebra abaixo, porque seria uma mais-valia. Mas é isto que eu tenho e com isto vivo tranquilamente e vou fazendo a minha vida. Considero-me bastante ativo. Vivo sozinho, vou nadar, todas as manhãs, entre um quilómetro e mil e quinhentos metros e faço isto tudo sozinho. Na minha casa, tento manter as coisas todas arrumadinhas e tenho uma senhora que ajuda com as limpezas, uma vez por semana, como muita gente».

Como fizera natação e vela desde criança, sente-se à vontade na água e trazia conhecimentos que lhe permitiram adaptar-se facilmente à vela adaptada.

«A vela reentrou na minha vida, depois de ficar paraplégico, graças a Luís Brito e à Vela Solidária, que me permitiram velejar e competir, desde 2013. Nesse ano, fui ao campeonato europeu na Suíça, um campeonato open, onde alcancei o 2º lugar, sendo o lugar mais elevado do pódio conquistado por um velejador sem lesões. E já consegui três títulos de campeão nacional. Em 2015, em Inglaterra, fui 2º em equipa com o Guilherme Ribeiro e 3º individual. Também fiz a travessia do Algarve, para promover a vela adaptada e a levar as pessoas com lesões a não se fecharem muito em casa, mostrando as possibilidades que existem. Nunca tinha sido feito em vela ligeira, num barco com menos de 4 metros».

O nosso entrevistado foi à Austrália, em 2015, treinar e competir num barco muito mais complicado, em termos técnicos. Conseguiu um 26º lugar em 63 embarcações, perdendo a participação nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, por cinco posições.

João Pinto também pratica natação e já conseguiu um segundo, dois terceiros e um quarto lugares, no campeonato nacional. Também faz provas de mar. Contudo, usa a natação principalmente como preparação física.

Em 2015, descobriu o para-ciclismo, que se tornou a sua nova paixão, substituindo a vela como desporto federado. «A bicicleta sempre fez parte da minha vida, até com o free style, o BMX e o BTT.

No para-ciclismo uso uma hand-bike, significando que é movida pela força dos braços. Pratico a modalidade em que se vai completamente deitado, com a cremalheira sensivelmente à altura do umbigo, pedalando com os dois braços ao mesmo tempo, para ter mais força de impulsão».

A bicicleta, para o João, também significa uma sensação de liberdade acrescida, porque se mete nela no quintal e sai por aí fora, quando lhe apetece, sem necessitar de ninguém.

«Na vela, tinha de recorrer aos amigos para colocar e retirar o barco na água, ou ajudar na rampa de acesso, quando a maré estava muito vazia. Após a lesão, o poder fazer as coisas sozinho dá uma sensação de independência e liberdade que é muito importante», confessa.

Começou a competir na nova modalidade em 2016. Contudo, quando lhe perguntamos se já ganhou alguns títulos vai logo dizendo que a sua importância é relativa porque há pouco mais de meia-dúzia de para-atletas a praticar esta versão.

«Mas considero-me um desportista nato, sempre fiz desporto, e por isso a adaptação foi rápida e, felizmente, tive logo sucesso. Já sou tricampeão nacional de contrarrelógio e de fundo».

Para dar uma ideia do esforço, o contrarrelógio é uma prova solitária, a dar tudo até ao fim, na distância mínima de quatro quilómetros, podendo chegar aos vinte. No fundo, vão em pelotão e gerem o esforço em função dos outros, em percursos entre os quarenta e os setenta quilómetros.

O para-ciclismo ainda está na fase de competições por um dia ou dois. Mas o objetivo é vir a ter corridas de uma semana, como acontece com o ciclismo.

A terminar, João Pinto disse-nos que já tem treinador, sempre importante para quem está em competição. «É o Nelson Pinto, personal trainer, que já me conhece há algum tempo. É praticante de ciclismo, frequenta a mesma loja que eu, os donos da loja falaram com ele e ofereceu-se para me treinar, porque achou interessante. Aceitei logo, porque este desporto passa por ter um treinador a acompanhar».

João Pinto, há anos, fez um curso de patrão local e um curso de treinador de vela. Neste último, foi a todas as aulas, passou nos testes teóricos e práticos, fez estágio, mas não entregou o dossier final, como era requerido.

«Houve algum desinteresse e não foi só da minha parte. Mas tenho a experiência que tenho e não é o diploma que me vai tornar mais sábio, se um dia tiver de ajudar alguém».