Filomeno Pereira de Sousa, a quarta geração de uma família de joalheiros

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Filomeno Pereira de Sousa, de 66 anos, natural do Porto, não só é um excelente joalheiro, como tem vindo a formar muitos outros, ao longo de mais de trinta anos. Porque ensinar é a sua outra grande paixão, decidiu cumprir um desejo antigo: vir para o Algarve. Estabeleceu-se em Faro com a galeria Pontos Iguais, um pequeno espaço onde recomeçou a sua atividade docente, limitado a uma dúzia o número de alunos. Oriundo de uma família de joalheiros, bem cedo foi obrigado a trabalhar no ofício. Ao «barlavento» recordou que «aos onze anos de idade, fui logo empurrado para uma oficina, nas férias escolares».

O seu gosto pela joalharia começou aí?
Filomeno Pereira de Sousa – Nessa altura, não. O que eu gostaria era de brincar e já estava enfiado no meio laboral. Por volta dos vinte anos, descobri que gostava de fazer joalharia. Nessa altura, já sabia fazer e tinha passado a idade das brincadeiras.

Já podia usar a sua imaginação criativa?
Não, porque laborava na vertente comercial, que era muito repetitiva. Às vezes, gostava de criar novos caminhos, nem que fosse apenas pela via técnica.

Que veio a acontecer. Como deu esse salto?
Após o serviço militar, estive no Rio de Janeiro, Paris e Casablanca, trabalhando em alta joalharia. Era mestre joalheiro aos trinta e poucos anos. Quando regressei, fiquei em Lisboa, trabalhando como freelancer e arranjei um part-time na ARCO, a única escola existente em Portugal, onde permaneci até 1988. Saí e abri a minha escola, a Contacto Direto, que mantive até 2012, em Lisboa e no Porto. Mas a escola cresceu muito e, a certa altura, eu fazia tudo menos joalharia. Entretanto, percebi que já não estava a fazer o que gostava e percebi que tinha de mudar. Como não havia hipótese da Contacto Direto continuar sem mim, a única solução foi ganhar coragem e fechar. Porque o que gosto mesmo é de ensinar, estar próximo dos trabalhos, limar, serrar, ajudar nos projetos, conhecer as pessoas, sair com as alunas para almoçar.

Há mais senhoras do que homens a querer aprender? E porquê?
Sim, há mais senhoras. Tradicionalmente, a ourivesaria é uma profissão de homens e, no passado, era impossível às mulheres entrarem nas empresas. Hoje, já vai havendo algumas. As mulheres gostam de joalharia, na maior parte dos casos, pelo facto de as usarem. Embora haja as que gostam pelas técnicas. Na joalharia, as pessoas têm a possibilidade de desenhar e construir as peças e, no final, as poder usar. Quando começaram a abrir as escolas, nos anos oitenta, as mulheres afluíram, porque as empresas não lhes abriam as portas.

Qual a diferença entre ourivesaria e joalharia?
Se tivermos uma aliança em ouro, é considerada um artefacto de ourivesaria. Mas, se lhe colocarmos uma pedra, passa a ser considerada joia, porque mistura materiais.

Que materiais se usam mais, atualmente, na joalharia?
O ouro está a um preço astronómico e, além disso, tem uma grande densidade. Significa isto que, em volume, um grama de ouro é muito mais pequeno do que, por exemplo, um grama de prata. Embora, na escola, haja trabalhos em que o aluno tem de aplicar ouro, só acontece em obras muito leves. E as técnicas de trabalhar os diversos materiais são muito diferentes. Não só pela densidade, como referi, mas também pelos pontos de fusão e pela elasticidade. Há aspetos químicos muito diferentes. Uma pessoa que saiba lidar bem com um material pode não saber lidar tão bem com outro. Carece de experiência. Durante os últimos séculos, a joalharia esteve ligada à preciosidade dos materiais. Era muito fácil dizer o que era ou não joia. Era joia, se fosse ouro ou prata; caso contrário, era considerada bijuteria ou imitação. Contudo, antes do aparecimento desses metais preciosos, já havia ornamentos, feitos com outros materiais. Após a Segunda Guerra Mundial, no centro da Europa, começou a aparecer joalharia com uma expressão formal mais próxima da pintura ou da escultura e a sair do tipo de design que a alta joalharia francesa impunha. Aí, começou a surgir um novo conceito, designado por joalharia contemporânea. Mas usavam técnicas com muito pouco primor; eram rústicas, dando a impressão de mal acabadas. Nos anos setenta, uma nova geração de joalheiros começou a procurar novos materiais. Porque, entretanto, surgiram metais com mais capacidades físicas do que o ouro e a prata. Por exemplo, o titânio ou o aço inox são muito mais duradouros, não se riscam, quase não se gastam. Têm características intrínsecas mais preciosas.

Logo, a joalharia alargou a gama de metais usados?
E não só. Procuraram outros materiais, como madeiras e plásticos. Nos anos oitenta, chegou-se ao ponto de que tudo o que nunca tivesse sido usado em joalharia seria uma novidade. Eu próprio comecei a fazer joias com cimento e ouro, tendo a Cimpor patrocinado um trabalho, porque nunca ninguém tinha feito joalharia com cimento. Gostei muito de pesquisar outros materiais. E há alguns muito leves. Repare que fazer um colar grande em ouro não só apresenta o problema do preço, como também do peso. Os materiais usados na alta joalharia são tão poderosos que, muitas vezes, ultrapassam a expressão artística. A gente olha para a joia, vê as pedras a brilhar e o ouro e, só depois, é que repara no desenho. E um artista, de um modo geral, é egocêntrico e gosta que o seu trabalho se veja primeiro do que os materiais. O titânio, o inox e o acrílico permitem isso.

O projeto Corpo Restrito, agora em exposição pelo Algarve, dá-me a impressão de ser mais decorativa, mais estatuária, pouco prática para usar. Estou errado?
Não está errado, não. Sobretudo nos anos oitenta, houve joalheiros que começaram a fazer obras de grandes dimensões, na medida em que os materiais a usar permitiam coisas que antes eram impensáveis. Eram mais baratos, mais leves e mais suportáveis. E tinham uma expressão visual que os materiais tradicionais não tinham. Eu próprio, que vinha da joalharia tradicional, habituado a fazer peças muito ergonómicas, senti enorme prazer em fazer peças que extravasassem isso tudo, que se impusessem em cima das pessoas. Não estava à espera de as vender, quando as fazia, mas gostaria de as mostrar e de as ter em exposições. Acabou por resultar.

Mas essa tendência foi passageira?
Nos anos noventa, voltei às peças de dimensão mais reduzida e, nos anos dois mil, praticamente deixei de trabalhar, porque a escola ocupava-me o tempo todo. Tive um aluno num workshop a quem sobraram umas horas e ele quis fazer uma peça de dimensões maiores, em cobre. Ajudei-o e senti-me muito entusiasmado por estar, de novo, a fazer peças de grande volume. E lancei o desafio de fazer um projeto de esculturas para o corpo, que extravasem a dimensão do corpo humano. Ele achou interessante, pois nunca houve algo assim em Faro. Aliás, nunca houve nada como o Corpo Restrito, em Portugal. Juntar um grupo para um projeto de obras de grande porte nunca tinha acontecido. A ideia agradou, as pessoas foram-se juntando, acabámos por juntar dezanove participantes, que não eram exclusivamente ourives. Há cenógrafos e designers, que desenharam a peça e mandaram executar; há serralheiros, há escultores. Foi a mistura ideal, porque vieram trabalhos que eu não esperava. Às vezes, a ideia de alguém que está fora do assunto é mais surpreendente do que a dos que estão informados e conhecem as tendências.

Como aconteceu a exposição pública do projeto?
O evento foi pensado para uma apresentação única, por convite, com os modelos a conviver com o público. Arranjámos uma coreógrafa, a Filipa, e foi uma noite muito elegante, com gente linda no amplo foyer do Teatro das Figuras.

Como evoluiu para o formato atual?
Conseguimos a disponibilidade do fotógrafo Vasco Célio, que foi incansável e fez excelentes fotos, com a intenção de fazer um catálogo, o que aconteceu. E avançámos com as exposições.

Só das fotos, ou também das peças?
Neste momento, no museu do traje, em São Brás, há também 3 peças expostas em manequins. E já estiveram peças expostas no museu da cerâmica, em Sacavém. Estamos com duas exposições de fotografia, porque os espaços são pequenos e não albergavam todas, no museu do traje e nas ruínas de Milreu. Depois, virão para o Museu Municipal de Faro e, eventualmente, para Lagos e outros locais que possam aparecer. Em suma, o Algarve está na vanguarda da joalharia portuguesa de grande porte. Filomeno de Sousa pensa, até, numa bienal, porque há muita gente interessada.