Alunos da Escola Profissional Gil Eanes reinventaram a Via Sacra

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Não eram Jesus Cristo com os 12 apóstolos, mas o fotógrafo e professor João Ribeiro com 13 alunos. Unidos, conseguiram, em apenas três meses, reconstruir a morte de Jesus, da última ceia à reencarnação, em 16 fotografias fine art, a preto e branco, com 100 por 70 centímetros de lado.

A inauguração da exposição Via Crucis teve lugar no dia 19 do corrente mês, na igreja de S. Paulo, em Tavira. E nenhum destes jovens, de diversas nacionalidades e crenças, renegou a sua participação no ato. Os seus nomes devem ficar para a posterioridade e são: Anna Kovdiei, Beatriz Rebelo, Caroliinaii, Carolina Albuquerque, Daniel Aires, Denisa Bazdara, Filipa Zeverino, John Tweasol, Lucas Gonçalves, Magda Gaspar, Magda Oliveira, Patrícia Duarte e Tatiana Marques.

O «barlavento» foi à conversa com o professor João Ribeiro e as alunas Anna Kovdiei e Caroliinaii, em representação do grupo, para entender como aconteceu esta simbiose entre a escola e Igreja e como aparece uma escola profissional de Portimão ligada à paróquia de Tavira.

«A ideia partiu do padre Miguel Neto e de Alexandra Rufino, responsável pela igreja da Misericórdia, em Tavira. Fizeram-me a proposta de criar uma exposição fotográfica para ocupar uma área desaproveitada, numa igreja, com o objetivo de abrir aquele espaço ao público. A ideia que me deram foi criar uma exposição que tivesse a ver com a Via Sacra, mas mais virada para os dias de hoje. De imediato, sugeri que o projeto fosse transposto para a Escola Profissional Gil Eanes, em Portimão, e elaborado pelos alunos do 3º ano do curso de fotografia. Queria que eles se apercebessem do que é criar um projeto desta envergadura. Fiz a proposta aos alunos, eles aceitaram, cumpriram na perfeição e o resultado está à vista. Tínhamos a Via Sacra como referência, mas tudo o resto foi criado de raiz», disse-nos João Ribeiro, orgulhoso dos seus pupilos.

Caroliinaii disse-nos que «primeiramente, sentimo-nos nervosos, sem saber muito bem o que era este tema. Depois do professor João Ribeiro nos ter explicado mais um pouco e de termos pesquisado, ficámos interessados e fomos ficando cativados, cada vez mais, fazendo as fotografias com paixão, saindo da caixinha e deixando para trás os nossos medos. Na minha opinião, os meus colegas e eu fizemos um bom trabalho e as fotografias ficaram bonitas. Espero que os visitantes gostem, como parece que gostaram a cerca de meia centena de pessoas que estiveram na inauguração».

Anna Kovdiei disse que «no início, ficámos baralhados, porque temas religiosos não fazem parte do nosso dia a dia. Não fazem o nosso estilo de fotografia. Mas, depois do professor dizer que o trabalho não tinha de seguir as linhas clássicas da igreja, as ideias começaram a surgir, diferentes e interessantes. No final, o professor apoiou tudo e vimos que muitas fotografias estão relacionadas com o quotidiano, o mundo do trabalho. Nas aulas, desenhámos as posições e fizemos os enquadramentos. Depois, tentámos fotografar o que tínhamos idealizado». Sobre o método de trabalho usado, acrescentou que «de início, cada um queria fazer a sua foto, mas depois decidimos trabalhar todas as fotos em conjunto e tivemos a ajuda de outras turmas e de outros professores. Foi um trabalho em equipa».

Numa sociedade onde cada um olha, cada vez mais, para si próprio e se torna individualista, estes jovens aprenderam por experiência que a partilha funciona melhor, como nos adiantou a Caroliinaii: «por mais que trabalhemos por conta própria, vamos sempre precisar de outras pessoas e o que fizemos em conjunto resultou bem e espero mesmo que gostem. Tivemos como objetivo o trabalho e o quotidiano. E, se não tivéssemos trabalhado em conjunto, não teria saído um trabalho tão criativo e não tínhamos introduzido tantos pequenos detalhes que são enriquecedores e que, quando virem as fotos, se aperceberão de que foram pensados ao pormenor». Perguntámos ao professor João Ribeiro porquê a escolha de uma escola profissional portimonense pela paróquia de Tavira.

«Eu sou de Tavira e sempre tenho vivido lá. E, embora por vezes pensemos no Algarve como algo grande, na verdade somos pequenos. Há pouco, uma aluna falou nas vantagens da partilha. Essa filosofia deve aplicar-se também aos municípios algarvios, os quais deveriam trabalhar mais no coletivo. E também com as escolas, principalmente as que têm estes cursos de artes. O curso veio através de mim, que sou tavirense. Como estou a trabalhar em Portimão e tenho a sorte de ter todos estes excelentes alunos à minha disposição, achei por bem passar este desafio para os alunos, para que eles percebam como funciona o mundo da fotografia profissional. Porque, sendo uma escola, estamos a preparar o futuro deles».

No campo da fotografia, só conhecemos duas escolas no Algarve, a Escola Profissional Gil Eanes (EPGE) em Portimão e a ETIC_Algarve em Faro, sendo a EPGE a única a oferecer cursos de fotografia integrados no ensino regular, equivalentes ao 7º, 8º, 9º, 10º, 11º e 12º anos de escolaridade, com 115 alunos inscritos.

A exposição Via Crucis ficará durante seis meses na igreja de S. Paulo, em Tavira. E depois?

«A ideia inicial era que a exposição servisse apenas a paróquia de Tavira. Depois, começámos a perceber que a qualidade da exposição e a forma como estava a ser concebida, fora dos parâmetros ditos normais, tinha qualidade museológica. Não fizemos 16 fotografias; fizemos 16 obras de arte, porque foram pensadas e trabalhadas dessa forma. Não são fotografias vendáveis. Têm o número de série 1 para 1, o que significa que são peças únicas. Têm um tamanho considerável, impressos em tela fine art, 100 por cento algodão, com a qualidade usadas nos museus, muito duradoura. Estamos a pensar levá-la para outras paróquias, porque, de acordo com o que vimos na inauguração, os fiéis aceitam-na facilmente, embora esteja fora dos parâmetros a que estão habituados na Via Sacra. Pensamos que a sua qualidade não deve ficar presa dentro das paredes de uma só igreja e que deverá tornar-se uma exposição itinerante pelas paróquias do Algarve».

Os alunos envolvidos sentiram-se muito orgulhosos e emocionados com o sucesso da exposição. Como dizia a Caroliinaii: «Eu devo ter ficado com os mesmos olhos que o Gato das Botas, no filme. Já queria ser fotógrafa, mas isto deu-me um entusiasmo muito maior e penso que definiu definitivamente o meu futuro. Obrigado ao professor João Ribeiro pela oportunidade que nos deu».