Ressonar e dormir aos bocadinhos: a Apneia Obstrutiva do Sono

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Apesar de não existirem estudos epidemiológicos em Portugal, estima-se que mais de meio milhão de portugueses sofre desta doença. São cada vez mais aqueles que adormecem ao volante, no café, no cinema ou no emprego. São habitualmente homens, quase sempre obesos, quase sempre hipertensos. Já há tratamentos, com taxas de sucesso elevadas, mas mesmo assim a Apneia do Sono mantém-se subdiagnosticada. Muitos doentes só procuram ajuda depois de terem perdido o emprego, a auto-estima e por vezes até o casamento.

Das dezenas de perturbações do sono conhecidas até hoje, a apneia é a mais grave pelo risco cardiovascular que lhe está associado. Não se morre de apneia do sono, mas a probabilidade de sofrer um enfarte do miocárdio é superior nestes doentes, além do dramático impacte sobre a qualidade de vida. A apneia obstrutiva do sono é uma doença caraterizada por pausas respiratórias durante o sono, de duração variável. Ou seja, ter apneia significa, na prática, dormir aos bocadinhos, devido às sucessivas paragens respiratórias.

O número de pausas respiratórias ou «eventos apneicos» pode ser de 30 ou mais por cada hora de sono. Estas pausas são habitualmente intervaladas por períodos de ressonar muito intenso. Os doentes com apneia do sono não atingem a fase de sono profundo ou reparador. E por isso queixam-se de cansaço matinal, sonolência exagerada durante o dia e por vezes, dores de cabeça ao acordar.

A sua capacidade de concentração diminui, perturbando o desempenho profissional. As consequências variam, desde desconforto até situações de risco de vida. Sintomas como depressão, irritabilidade, disfunção sexual, dificuldade de aprendizagem, problemas de memória, e adormecer ao telefone ou ao volante são frequentes. A probabilidade de sofrer um acidente de viação são três ou mais vezes superiores às de um indivíduo normal, além desta condição estar associada ao aparecimento de arritmias cardíacas, pressão arterial elevada, ataques cardíacos e tromboses cerebrais.

Embora a primeira avaliação seja muitas vezes feita pelo clínico geral, o diagnóstico definitivo é feito por uma equipa de médicos e técnicos com treino específico, normalmente pneumologistas e neurologistas.

A Polisonografia é o exame adequado e regista uma variedade de funções que ocorrem durante o sono, como por exemplo, a atividade elétrica do cérebro, movimentos oculares, atividade muscular, frequência cardíaca, movimentos e fluxos respiratórios, níveis de oxigénio no sangue, entre outros parâmetros. A análise destas variáveis permite diagnosticar a apneia do sono e a determinar a sua gravidade. Outro tipo de estudo especializado é o Teste de Latência Múltipla do Sono que mede a velocidade com que o doente adormece durante o dia. Pode ser útil para aferir o grau de sonolência e excluir outras doenças do sono.

Nos casos ligeiros, medidas comportamentais tais como perda de peso, evicção de bebidas alcoólicas ou sedativos pode ser suficiente. Nos casos mais severos, o tratamento é mais especializado, nomeadamente com a utilização de CPAP nasal (Nasal Continuous Positive Airway Pressure).

Durante a noite, o doente usa uma máscara nasal que está ligada a um pequeno ventilador que força o ar através das vias aéreas, impedindo o seu colapso e prevenindo as pausas respiratórias. Alguns doentes podem beneficiar de cirurgia – remoção das amígdalas e adenóides (sobretudos em crianças), remoção de pólipos ou correção de anomalias estruturais.

Quem sofre de sonolência excessiva durante o dia, ressona sonoramente ou tem pausas respiratórias durante o sono é muito provável que tenha uma apneia do sono. Quando não tratada, esta doença pode ter graves consequências para o indivíduo e para outros.

Espaço Saúde | Hospital Particular do Algarve