Universidade do Algarve celebrou 10 anos de ensino de Medicina

  • Print Icon

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, visitou a Universidade do Algarve (UAlg), no sábado, dia 23 de fevereiro, no âmbito das Jornadas de Educação Médica. O evento, organizado pelo Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina, faz parte das comemorações do 10º aniversário do Mestrado Integrado em Medicina (MIM), solução que desde 2009 permite a formação de médicos na academia algarvia.

Em declarações aos jornalistas, o ministro considerou que o MIM «fez um percurso de sucesso que a todos nos deve orgulhar. É um exemplo para que outras universidades possam aprender com o Algarve e integrar cursos de medicina desta forma abrangente, interdisciplinar e que cada vez mais recorre também a processos de transformação digital, desde o uso do telemóvel, ao contacto com os doentes e médicos e, sobretudo com impacto na população residente».

Em jeito de balanço, Manuel Heitor sublinhou que «este curso tem fortes ligações internacionais ao Canadá, Reino Unido e Espanha, que lhe dão uma credibilidade importante. A história destes 10 anos é hoje uma referência, não só nas metodologias de ensino, mas também na forma como está a mudar o hospital, ajudando à modernização dos cuidados de saúde no Algarve, e a própria Universidade».

O ministro destacou o método Problem Based Learning (PBL) utilizado no MIM, «que é um exemplo a seguir» por outras academias. Em relação ao futuro, o governante disse que o caminho a seguir «é sobretudo a pós-graduação, trazer e atrair médicos para se virem aqui especializar. É um processo gradual, complexo, difícil, mas certamente um desafio que vale a pena fazer».

Em declarações ao «barlavento», Nuno Marques, presidente do Algarve Biomedical Centre (ABC) explicou que estas Jornadas serviram para formalizar a ligação da UAlg «a uma rede internacional de educação para que se consiga usufruir ao máximo de tudo o que está hoje a ser desenvolvido na medicina. Nos últimos anos temos estado muito atentos, mas agora vamos estreitar laços de forma a conseguir cada vez mais, formar melhor os nossos médicos».

Cruzamento de saberes académicos

Nuno Marques acredita que a Unidade de Educação Médica do Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina, também inaugurada no sábado, poderá alavancar outras unidades orgânicas da Universidade do Algarve e, sobretudo, atrair «massa crítica». Isto porque «já temos um número de estudantes muito acima do número de candidatos aceites. Estamos a falar de 500 candidatos para 40 vagas. Significa que o que queremos, acima de tudo, é que os melhores venham para cá», sublinhou ao «barlavento».

Embora há 10 anos a criação do Mestrado Integrado em Medicina (MIM) tenha causado polémica entre pares, o responsável sublinha que «as associações de estudantes de Medicina fizeram um estudo em 2018, no qual, os alunos da UAlg tiveram a melhor classificação nacional».

Porquê? «O nosso ensino é muito dirigido aos alunos. Temos estado a trabalhar para ajudar a desenvolver a Escola Superior de Ciências da Saúde e até a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Acho que temos de aproveitar o melhor de cada um e pôr todos ao serviço do conjunto global e, tal como nós vimos, a aposta em Medicina vai ajudar a potenciar imenso as outras áreas» da academia algarvia.

Ensino de vanguarda

No âmbito desta visita foi inaugurado o Laboratório de Saúde, Envelhecimento e Cinética do Centro de Investigação em Biomedicina, que irá promover investigação sobre o declínio funcional e as alterações músculo-esqueléticas associadas ao envelhecimento.

Procurará igualmente estimular a pesquisa de abordagens terapêuticas não farmacológicas a doenças crónicas como a osteoartrose, a diabetes tipo II e a hipertensão (doenças associadas ao envelhecimento). Segundo Sandra Pais, docente da UAlg e coordenadora deste projeto, «o laboratório encontra-se igualmente empenhado em trabalhar em parceria com o Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) nas áreas da medicina física e reabilitação, neurologia e ortopedia.

Estabelecerá ainda parcerias com a Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve e com o Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) da região na promoção do Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física e do Programa Nacional para a Alimentação Saudável». Este projeto é financiado por fundos comunitários no âmbito do programa INTERREG Espanha-Portugal, ao abrigo do qual foi adaptado e equipado o laboratório.

Já Isabel Palmeirim, coordenadora do MIM, faz um balanço positivo dos 10 anos do curso. «Estamos a formar médicos com muita qualidade, em contextos pedagógicos completamente diferentes. Procuramos receber feedback tanto por parte dos estudantes, como dos médicos durante ou depois da formação (nos hospitais ou centros de saúde), reagindo e reajustando sempre que necessário». Um dos objetivos é trazer para Portugal algumas das melhores práticas de Educação Médica de outras universidades, como McMaster, no Canadá, Newcastle, no Reino Unido, Maastricht, na Holanda.

Os números da década

O Mestrado Integrado em Medicina (MIM) da Ualg admitiu os primeiros alunos em setembro de 2009, primeiro com 32 alunos/ ano e depois com 48 alunos/ ano. Até julho de 2018 formou mais de 200 médicos;

– Os alunos da primeira edição completam em 2019 a sua formação especializada em Medicina Geral e Familiar. Os restantes completarão a sua formação específica em 2020/2021 por terem optado por especialidades hospitalares com formação mais prolongada;
– A escolha dos formandos favorece o Algarve, mas muitos também se encontram distribuídos pelo país, ilhas e estrangeiro;
– De 43 médicos formados e colocados no Algarve, 49 por cento optou pela especialidade de Medicina Geral e Familiar, 51 por cento optou por outras especialidades;
– O MIM aceita apenas candidatos com licenciatura numa área científica;
– A seleção inclui uma prova de inglês e testes de capacidade de raciocínio;
O filtro final passa por uma avaliação do perfil psicológico do candidato;
– A formação implica uma dedicação intensiva de quatro anos, com um sistema integrado de aprendizagem baseada em casos clínicos, discutidos e explorados em grupos de oito estudantes, sob a orientação de um tutor;
– A aprendizagem de ciências básicas (anatomia, fisiologia, farmacologia,entre outras) ocorre no contexto dos casos clínicos;
– As sessões de discussão em grupo PBL (Problem Based Learning) têm lugar em seminários semanais, dados por especialistas;
– Ao longo do curso há um contacto precoce entre estudantes e médicos;
– Os estudantes observam os aspetos básicos da prática clínica (história clínica, exame físico, plano terapêutico, deontologia profissional e o comportamento ético com doentes e colegas);
– Nos dois últimos anos, os estudantes são distribuídos pelos serviços hospitalares das principais especialidades médicas e cirúrgicas;
– A avaliação cobre três componentes essenciais da educação médica: conhecimentos teóricos, competências práticas (134 competências), comunicação e comportamento ético.

Centro de Simulação Médica

A concentração das valências pedagógicas e de investigação num mesmo edifício no campus de Gambelas, abre a possibilidade de criar, ainda este ano, um grande Centro de Simulação Médica. «Cada vez mais as universidades têm financiamento escasso, por isso, maximizar e utilizar desta forma o espaço foi uma decisão da reitoria completamente estratégica, a pensar no futuro», disse Nuno Marques.

Por outro lado, o Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina espera, ainda em 2019, abrir um doutoramento em Medicina, e avançar com outros projetos. «O grupo de trabalho para a descentralização de competências na área da saúde já concluiu o seu relatório. Pensa-se que este ano irá passar à prática. Além disso, o Algarve Biomedical Centre vai potencializar várias áreas de investigação clínica, que terá um grande impacto. Estamos também a maximizar cursos para pós-graduados, ou seja, para os médicos.

E isto está a ser feito de forma articulada, mais uma vez, com a Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve, o Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) e a UAlg. Por outro lado, estamos a conseguir captar recursos humanos e esperamos a criar, nos próximos dois anos, 100 postos de trabalho altamente diferenciados».