Bebida vegetal à base de alfarroba vai ser produzida por um novo parceiro industrial da Grand Carob no início do próximo ano.
A ideia surgiu algures em 2017, à mesa do pub The Gallimaufry, em Bristol, no Reino Unido, onde Nuno Alves debatia com amigos a ideia de um Algarve menos dependente do turismo.
«É algo em que sempre acreditei. A nossa economia regional não deve depender apenas disso, até porque temos vários recursos naturais, entre eles, a alfarroba. Muitos não estão a ser aproveitados. A minha ideia foi criar uma indústria que pudesse criar valor acrescentado» para a região.
Na altura, «por conselho médico, fiz uma dieta sem glúten nem lactose, e portanto, estava muito informado acerca da oferta que existia no mercado. Pensei então em desenvolver uma alternativa ao leite», recorda. Por outro lado, «não havia uma marca forte, diferenciada, associada a produtos feitos a partir de alfarroba. Foi esse o percurso».
Nuno Alves, formado em Gestão, pós-graduado em Contabilidade e com raízes em Tavira, passou «meses a fazer experiências».
«Não utilizamos farinhas, pegamos na vagem e fazemos vários processos para extrair os açúcares naturais e o sabor real da alfarroba. Investi muito em perceber como podia extrair o melhor da alfarroba e combinar isso com outros ingredientes», recorda.
«Assim que finalizei o desenvolvimento da receita, voltei para o computador e comecei a desenhar uma ideia de negócio».
Em boa verdade, a Grand Carob foi criada em 2018. «Fechei-me em casa durante dois meses para elaborar as candidaturas aos fundos europeus do Portugal 2020», com a ajuda do CRIA – Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da Universidade do Algarve. Felizmente, «foram todas aprovadas».
A partir daí, «era preciso ter liquidez e abordei os Business Angels para pôr as ideias em marcha. Fomos a primeira start-up a ser alavancada pela Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD). Tudo começou com uma bebida à base de alfarroba, mas hoje temos muitos mais produtos desenvolvidos, não só na categoria das alternativas ao leite, mas também noutras categorias».

Para já, a empresa não tem fábrica própria, embora isso seja uma grande ambição para o futuro, de preferência a instalar no Algarve.
«Sem dúvida. É algo que quando houver condições, gostaria que avançasse. Uma unidade fortemente especializada com o objetivo de valorização dos recursos do Algarve».
Nuno Alves admite que a adjudicação da produção tem as suas vantagens, mas também desvantagens.
«Tudo fica muito dependente da relação com os parceiros e de fatores externos que de outra forma, com instalações próprias, não acontecem». E sabe do que fala, pois recentemente teve de interromper a produção.
No entanto, «já temos um novo parceiro no sul, no Alentejo. Fizemos os testes industriais e correu tudo bem. Em janeiro, a nossa produção será retomada» com um novo fôlego.
O empresário informa ainda que a internacionalização está na génese da criação da marca, embora «ainda não iniciámos esse processo porque a nossa bebida tem um prazo de validade de 28 dias, o que torna a exportação desafiante. Estamos a falar de um produto fresco, quase como um iogurte, mas 100 por cento vegetal. O processo de produção está feito para que o sabor não se altere. Não tem corantes nem conservantes para estender o prazo de validade».
E quem procura este produto? «Não são apenas pessoas que têm regimes alimentares específicos, ou vegetarianos e intolerantes ao glúten ou à lactose, mas também pessoas que procuram produtos com sabores distintos», diz.
Até à recente interrupção, a bebida da Grand Carob estava presente em 42 lojas da cadeia «Celeiro» e na grande distribuição através dos hiper e supermercados «Continente». A marca ganhou o Prémio Intermarché de Produção Nacional 2020, e estará disponível nas prateleiras do Intermarché a partir de 13 de janeiro.
Em termos de produtos novos, também há novidades na calha. «Aproveitámos o confinamento para contratar uma técnica de desenvolvimento de produtos alimentares. Vamos ter uma extensão de sabores na bebida e vamos lançar uma nova série de cereais para pequeno-almoço à base de alfarroba».
Este ano, o preço da alfarroba em fresco subiu bastante. O empresário vê o aumento com bons olhos. «Ainda bem. É sinal que se está a valorizar este produto. Mas ainda há muito por fazer. Nós somos um promotor da alfarroba e cabe a marcas como a Grand Carob fazer bons produtos para que o consumidor final tenha a percepção do valor desse ingrediente».
«Claro que isso pode inflacionar os nossos custos, mas penso que depois desta oscilação, o preço deverá baixar e estabilizar. Mas vejo isso com bons olhos porque significa que, se calhar, os agricultores poderão ter a rentabilidade necessária para substituir outras culturas pela alfarroba, que tem todas as condições que precisa no Algarve», opina.

«Desafiante, global e inesperada. Quando entrámos na cadeia Continente, em janeiro, não podíamos fazer ações de promoção e provas junto dos clientes. O que fizemos foi um plano de comunicação, entrámos em contacto com a indústria, enviámos amostras e tem sido esse o percurso. Mas estamos muito limitados devido à situação que atravessamos e continua a ser assim. Mesmo agora, se quisermos fazer uma degustação em loja é muito difícil. As redes sociais, no caso de produtos alimentares, por si só, não são suficientes porque os consumidores querem experimentar» antes de comprar.
Nuno Alves é um defensor da diversificação da base económica do Algarve. E não se cansa de o dizer.
«Não podemos depender apenas do turismo. Nem o Algarve nem o país. Não podemos ficar dependentes apenas dos serviços. É preciso uma capacidade produtiva que aumente a nossa competitividade e que contribua para aumentar as nossas exportações», afirma.
No outro lado da moeda, também diagnostica as dificuldades, principalmente as estruturais.
«Criar uma empresa em Portugal custa 360 euros. No Reino Unido custa 12 libras. Não faz sentido. A burocracia e a carga fiscal que temos é surreal. Como é que se consegue captar talento, nacional ou internacional, se para se conseguir pagar um ordenado significativo, isso representa um custo gigantesco para a empresa, custo esse devido à carga fiscal? Portugal deve criar condições para as suas empresas crescerem e prosperarem. Temos um mercado interno muito pequeno, portanto se a escala é reduzida, se a carga fiscal é elevada e se não temos as condições que os outros países têm para exportar, na prática, tudo se torna difícil», conclui.
Publireportagem | Programa Operacional CRESC Algarve 2020