Já não é a primeira vez que a Fungo Azul surpreende com ideias fora da caixa. Mas reunir seis artistas, alguns que até não se conheciam entre si, nem tinham trabalhado juntos, no isolamento de um promontório onde a terra acaba e o mar começa, é algo de inédito. Mas o desafio lançado por Carlos Norton, fundador e diretor artístico daquela associação acabou por ser aceite por Jacinto Lucas Pires (escrita), José Smith Vargas (ilustração), Jorge Pereira (artes visuais), Camille Leon (fotografia), e, vindo de Braga, o guitarrista Afonso Dorido, mais conhecido pelo projeto a solo Homem em Catarse. As residências decorreram em duas fases, de 14 a 16 de novembro, e de 6 a 8 de fevereiro.
«De certa forma, o farol tem um significado e uma carga emocional e cultural muito forme. Solicitamos autorização à Autoridade Marítima Nacional, através da Direção de Faróis, que viram com bons olhos a possibilidade de se utilizar este espaço para fins culturais. Do que eu sei, nunca foi feito nada do género», disse Norton ao «barlavento». Um dos trabalhos que vai resultar desta experiência é uma banda-desenhada, a publicar pela editora algarvia Sul, Sol e Sal.
«Toda a gente gosta da orla de mar, é sempre algo ligado ao fantástico. Não tenho nenhuma relação especial com o mar, mas é sempre um bom ponto de partida para histórias. O que vou fazer aqui é uma colaboração com o Carlos Norton, que tem uma ideia de argumento, de onde vão resultar as ideias gráficas», explicou José Smith Vargas. Norton trabalhou também em vídeo num filme curto, contemplativo, cuja banda-sonora foi composta e gravada por Afonso Dorido, no interior do farol.

«O escritor Jacinto Lucas Pires, participou à distância. O desafio era escrever uma carta a um hipotético faroleiro. Esse é o mote para todo o trabalho artístico», explicou Norton. «Inspiramo-nos em tudo o que nos rodeia, tanto na vida dos faroleiros, como no ambiente paisagístico à nossa volta. Irá resultar numa série de peças e trabalhos artísticos que retratam o que é estar dentro de um farol», acrescentou.
Em relação à Fungo Azul, «concluímos agora o primeiro mandato, um ciclo de quatro anos, e isso ´+e algo que nos deixa muito orgulhosos. Editamos um DVD, três discos e um livro de fotografia, além de uma exposição ao ar livre na Ria Formosa». Em março, a associação será parceira do novíssimo festival Ventania. A Fungo Azul ficou incumbida de produzir e realizar o filme «Gaivotas em Terra» que estará em destaque. «Isto porque nós fundamos a CUBO, uma incubadora de cinema em parceria com o Teatro Experimental de Lagos. É um protocolo entre as duas associações para promover, estimular o realizar e produzir de cinema aqui no Algarve. Apoiamos qualquer tipo de cinema no geral. Temos recursos humanos e materiais», revela. Apesar de ainda estar numa fase embrionária, «a ideia é começar pelos mais novos, mas qualquer pessoa que tenha uma ideia para um filme poderá vir ter connosco. O CUBO está em processo de nascimento, embora o protocolo tenha sido assinado há um ano e já há filmes feitos internamente para ir fazendo a máquina trabalhar», explicou.

Em relação ao filme, que terá estreia no dia 22 de março, «explora muito o movimento poético do tempo e a questão da orla costeira enquanto fronteira. Já acabamos o processo de captação de imagem e neste momento estamos na fase de montagem e edição». Outra novidade é que «continuamos de pedra e cal com o Festival Fusos, em Alte, que vai este ano para a terceira edição. Está a ser uma aposta do município e da Junta de Freguesia. Estão muito envolvidos na organização e pretende-se que seja um projeto duradouro e que venha a ser uma marca na região em termos de festivais». Decorrerá de 7 a 9 de junho, e em breve haverá novidades sobre a programação.
Depois da temporada no Centro Cultural de Vila do Bispo, «Seascapes» estará patente na Galeria LAR, em Lagos, de 8 de março a 22 de abril. Carlos Norton não afasta, contudo, a possibilidade de entretanto publicar o filme on-line. O projeto contou com o apoio institucional do município de Vila do Bispo, da Direção Regional de Cultura do Algarve, da Direção de Faróis/ Autoridade Marítima Nacional, da editora Sul, Sol e Sal e do LAC – Laboratório de Atividades Criativas.

Presente e futuro dos faróis de Portugal
Contacto pelo «barlavento», Fernando Fonseca, porta-voz da Autoridade Marítima Nacional, explica que «um farol, hoje em dia, não deve ter apenas a finalidades de assinalamento marítimo. Deve ser entendido como a infraestrutura e os terrenos adjacentes que circundam a torre de alumiamento, funcionando de uma forma integrada como um centro de serviços marítimos».
Neste sentido, «há quatro grandes segmentos poderão fazer parte destes centros de serviços. O assinalamento e posicionamento marítimo, que é a função original; a monitorização do ambiente costeiro dada a sua localização; a cultura marítima, numa perspetiva iconográfica e simbólica e, não menos importante, o turismo».
Neste último aspeto, e talvez o que mais interessa à região algarvia, a Autoridade Marítima Nacional não descura utilizar «a infraestrutura habitacional sobrante, devidamente adaptada, para a sua utilização turística em regime hoteleiro».
Assim, não só os faróis, mas instalações como os edifícios da antiga estação rádio-naval do Cabo de São Vicente, hoje fechada e sem uso, poderão vir a ser cedidos a privados, embora ainda não haja nenhuma proposta nesse sentido.
Um exemplo recente teve lugar no Farol do Cabo da Roca, com uma parceria entre a Autoridade Marítima Nacional e Parques de Sintra Monte da Lua, SA «com impacte a curto e médio prazo em que manterá a sua função primária de assinalamento marítimo da responsabilidade da Direção de Faróis, turismo de habitação, cafetaria, centro interpretativo e sala modelar permitirá a realização de eventos».
No entanto, «no que se refere à disponibilização de terrenos ou infraestruturas para o estabelecimento de parcerias ou protocolos,não há soluções únicas. Há que garantir sempre uma posição flexível e adaptativa, conforme as caraterísticas dos faróis, os locais e as comunidades onde estão inseridos e os interesses dos eventuais parceiros».
O desafio que se coloca hoje aos faróis é «a procura por soluções tecnológicas mais eficazes e eficientes em termos energéticos, o recurso a energias renováveis, menores consumos, maiores autonomias, maiores alcances e conspicuidade, num mundo mais sensível às questões ambientais».
Outro objetivo novo para estes locais é a «instalação de estações meteorológicas automáticas, câmaras vídeo para observação sistemática das zonas litorais, para efeitos de estudos das suas dinâmicas, ou antenas de radar HF para medição de correntes costeiras».
Claro, sempre com o foco «na salvaguarda da profissão dos faroleiros mas e a valorização patrimonial das edificações».
