Faleceu esta manhã, em Portimão, vítima de doença prolongada, o grande jornalista algarvio Hélder Nunes, fundador do jornal barlavento. Tinha 75 anos. Foi responsável por uma grande transformação na imprensa regional do Algarve, à qual dedicou 40 anos da sua vida, sendo muito respeitado e, até, temido pela classe política regional.
Hélder de Matos Nunes teve um desejo, desde os 15 anos de idade: ser jornalista e, se possível, criar e dirigir um jornal regional. Foi sua a ideia de criarmos um jornal no Liceu Nacional de Portimão, aos 16 anos, que aconteceu e teve sucesso. Também em conjunto, e por sua iniciativa, publicámos alguns números do boletim informativo do Portimonense Sporting Clube.
Ao cumprir o serviço militar obrigatório, teve a sorte de integrar um destacamento de fotografia e cinema, o que o manteve ligado à informação. Em sua homenagem, o barlavento publica a última entrevista ao fundador, com um abraço do tamanho do Algarve e um enorme obrigado pelo legado que nos deixou.
barlavento: E depois da tropa, Hélder, que aconteceu?
Hélder Nunes: Ao regressar a Portimão, verifiquei que não havia jornal nenhum e como, desde criança, tenho essa intuição para o jornalismo, resolvi fundar um jornal, o barlavento, cujo primeiro número saiu no dia 26 de abril de 1975, um ano e um dia após a Revolução dos Cravos.
Recordo que o barlavento, durante muitos anos, esteve entre os melhores jornais regionais do país. Como foi?
É verdade e fomos premiados, inclusive por Cavaco Silva e pela Associação de Imprensa Nacional, como um jornal regional com alguma intervenção. Aliás, foi sempre nossa preocupação ir à frente da informação, como eu dizia. Isto é, estávamos a dar notícias daquilo que iria acontecer, portanto diferentes do resto dos outros órgãos de informação. Tínhamos uma secção muito especial, o Gramofone, que publicava as tricas que existiam a nível político e que dava um grande peso ao jornal. Era um jornal diferente dos outros e isso faz com que continue vivo, mais de 40 anos após a sua fundação.
Os jornais regionais têm uma função diferente da imprensa nacional?
Exatamente. A imprensa regional passou a chamar-se, agora, imprensa de proximidade, isto é, normalmente dá a notícia da rua, a notícia da proximidade do leitor, aquela notícia que não tem lugar nos outros órgãos de informação. A imprensa regional existe exatamente para colmatar essa falta de informação a nível nacional que têm as notícias de proximidade.
Hoje, a imprensa regional está muito virada à ecologia, à natureza, à cultura. No passado, abordavam mais os temas de política regional e o barlavento tinha muito peso nesse campo. Como sentes essa mudança editorial?
No caso do Barlavento, cobríamos uma grande parte da política por uma razão simples. Além de ser importante para as pessoas saber o que se passava nos bastidores da política, os políticos são os decisores. Os jornais regionais e quaisquer outros órgãos de comunicação vivem principalmente da publicidade. Logo, temos de dar cobertura às pessoas que têm o poder de decisão. Por isso, estávamos muito próximos da vida política, nos bastidores do que se passava no Algarve. Era isso que dava nome ao barlavento, porque mais nenhum órgão dava a informação que nós dávamos. Isso era importante para que as pessoas pudessem avaliar como é que a vida política na região ia evoluindo. E depois, como é lógico, publicávamos o resto da informação.
Tocaste aí num ponto que considero muito sensível, a publicidade, o grande suporte dos órgãos de comunicação social. No passado, as câmaras municipais davam mais publicidade aos jornais regionais do que agora, não davam?
Há um determinado tipo de informação cuja divulgação é obrigatória. Essa tem de ser publicada num jornal da terra, por lei. Contudo, atualmente, a lei permite os tais convites a três empresas para participarem e, por isso, as câmaras fogem de publicitar essas obras. Mas convém que as câmaras tenham em mente que o povo precisa de saber o que se faz na terra e que, quando publicam esse anúncio, estão a dar informação às pessoas. Isso é obrigatório, como é obrigatório anunciar a formação de empresas, os avisos do tribunal e outros.
E essa publicidade permite a sobrevivência dos jornais?
Exatamente. Nenhum jornal sobrevive somente com os seus leitores.
Hoje não se faz jornalismo como ontem e como se fará amanhã. Como vês essa mudança de conceitos de informação?
Há 50 anos, um indivíduo que ia para o jornalismo, entrava numa redação e ficava a trabalhar junto a um jornalista mais antigo durante um certo tempo, aquilo a que chamávamos tarimbar. O jornalista sénior mandava-o fazer uma reportagem, ele chegava, dizia que não tinha visto nada com interesse, era mandado de volta para encontrar matéria para noticiar. Assim, ganhava experiência, conhecimentos e um manancial de informação que lhe servia para o futuro. Hoje, verifica-se aquilo a que chamamos na gíria o «pé de microfone». O estagiário vai fazer um trabalho e nem faz perguntas. Tem um microfone, apanha o que a pessoa diz e é este o jornalismo que temos atualmente.
Queres dizer que os jornalistas saem das universidades com um curso de comunicação social, mas não vêm preparados para o dia-a-dia?
Vêm preparados teoricamente. Mas não são colocados no terreno como antigamente. No passado, eram obrigados a fabricar peças e hoje são atirados para a rua com aquilo que chamamos o «pé de microfone». Não se preparam, não levam perguntas, limitam-se a estar presentes e a captar o que lhes dizem.
Em determinada altura, fundaste uma rádio, a Rádio barlavento. O que é que achavas que uma rádio local devia ser, naquela altura?
Nessa altura, entre as sete e as 10 horas da manhã, servíamos informação ao vivo. Tínhamos um locutor, ligávamos para o exterior, tínhamos diretos. Em suma, informávamos localmente o que se estava a passar à volta de Portimão e no Algarve. Porque é isso que eu sinto que deve ser uma rádio local, um veículo para transmissão aos ouvintes do que se passa na sua zona, tal como os jornais regionais. Hoje, as pessoas não ouvem rádios locais, porque estas não lhes dizem nada. Transmitem música e pouco mais. Antigamente, eram rádios vivas. Hoje, programam-se as músicas no computador e muitas horas são feitas sem ninguém na rádio.
Naquela altura, as rádios locais eram algo novo. Como foram aceites pela população?
As pessoas ouviam rádio local, porque, além da informação, faziam passatempos, ligavam às pessoas, punham-nas no ar. Toda esta ligação fazia com que se ouvisse rádio. Deixaram de funcionar assim e não sei porquê. E, ao deixarem de ter ouvintes, perderam os anunciantes e vivem com dificuldades financeiras. Penso que se devia repensar as rádios, porque, se tiverem interesse para as pessoas, passam a ser ouvidas. Repara que as rádios que transmitem os jogos de futebol das equipas locais têm ouvintes. As pessoas têm necessidade de saber o que se passa à sua volta.
Como vês o papel das redes sociais, onde qualquer pessoa é «jornalista», se colocam fotos e vídeos de acidentes, casamentos e falecimentos, afetar a comunicação social, não só regional, mas também nacional?
Os fenómenos da internet e do Facebook são elementos de uma cultura nova. Mas é necessário chamar a atenção das pessoas para o facto de o jornalismo ser uma profissão e, como tal, deontologicamente, ter de reger-se por certos princípios, enquanto a informação que se passa nas redes, muitas vezes, não é verdadeira. Fabrica-se uma notícia, diz-se o que se entender, não se põe lá o essencial e isto vai desvirtuando a informação. As pessoas querem aceder à informação de uma forma rápida e simples, mas acabam por apanhar muita informação falsa. Logo, temos de mentalizar as pessoas de que as redes sociais não substituem os jornalistas.
Mas levou a comunicação social a comunicar online, para que as pessoas possam, em qualquer momento e local, através dos seus computadores e telefones celulares, ter acesso a essa informação. Assim pergunto: achas que, no futuro, a comunicação social escrita irá passar pela internet?
Sim, penso que será o futuro da informação, porque as televisões e as rádios dão as notícias em segundos. Qual será o papel da informação escrita? No dia seguinte, a notícia curta irá ser complementada. Vai-se dizer o antes, o porquê, o depois. Vai ser uma informação muito mais completa, muito mais formatada. Haverá notícias para as pessoas saberem porque é que aquela coisa aconteceu.
Mas isso também pode ser feito online, com uma vantagem: não temos de preocupar-nos com o espaço disponível…
O papel não vai morrer, porque há uma coisa importante e que as pessoas têm de assimilar: o papel tem cheiro. Pessoalmente, gosto de manusear algo com cheiro e de sentir aquilo na minha pele. E no papel, a gente não lê hoje tudo, arruma e lê o resto amanhã. Na internet, passar coisas extensas no écran, não sei.
A nossa geração, não. Mas os jovens preferem os écrans, não preferem?
Não sei…
Não podíamos terminar esta entrevista sem analisar a famosa secção Gramofone, que tornou o jornal famoso. Como era?
A secção trazia dicas e, muitas vezes, fazia previsões do que poderia vir a acontecer e que, muitas vezes, acontecia. Tenho um amigo de Vila Real de Santo António que, quando me encontrava, perguntava-me: Como é que vocês conseguem, com três meses de antecedência, estar a anunciar aquilo? Aliás, muitas das coisas que publicávamos vinham a influenciar algumas decisões tomadas depois. Lembro-me, por exemplo, que nós lançámos «na brincadeira» que o José Vitorino iria ser candidato à câmara de Faro. Passado um mês, ele anunciou a candidatura. Era este tipo de coisas que lançávamos e as pessoas eram obrigadas a ler aquilo e, por vezes, acertávamos nas previsões. Por outro lado, no jornalismo, muitas vezes, sabíamos coisas que não podiam ser publicadas. E nós respeitávamos. Daí, portanto, as pessoas respeitarem-nos.
A atual equipa do barlavento endereça sinceros sentimentos à família e amigos.