Já lá vão 15 anos, conhecemos uma menina muito simples, que cantava fado «como gente grande». Fomos atraídos pelo timbre da sua voz, pelo sentimento que transmitia, pela melancolia escondida por detrás dos seus grandes olhos, pelo modo como o seu sorriso cativava audiências e pela humildade que a distinguia dos demais.
Seguimos o seu percurso ascendente, com um sem número de vitórias em concursos de fado e que culminou com o triunfo inquestionável no concurso do Filipe la Féria, de âmbito nacional. Recordamos a presença constante da avó Maria Eugénia, um escudo protetor, mas discreto, deixando o terreiro para a neta, mas controlando à distância. E dos livros escolares, porque a Sara Gonçalves estudava sempre que não estava a cantar.
Reencontrámos, há dias, a «nossa menina», que acabou de completar vinte e cinco primaveras, está uma linda senhora, é doutorada em psicologia, continua a cantar fado e mantém a humildade e a simpatia de sempre. A avó Eugénia é presença menos assídua, mas a ligação entre as duas mantém-se forte e inabalável.
Eis uma história de vida, de amor e de sacrifícios, que não podíamos deixar de partilhar com os leitores. Fomos colher, em separado, as versões da avó e da neta.
Sara Gonçalves: a mulher
Coordenadora de equipa no Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA) de Faro, onde se iniciou como estagiária, a psicóloga, tal como a fadista, sente o conforto e a segurança da opção B, caso fique desempregada. Tal situação permite à Sara (detesta que lhe chamem doutora) fazer o seu trabalho da melhor maneira que sabe e pode, mas sem stress.
Mas a vida desta jovem nem sempre foi tão fácil. Os pais divorciaram-se, quando tinha oito anos e acabara de vencer um «Bravo, bravíssimo». Na Fuzeta, à época, o divórcio ainda era olhado como algo satânico e a nossa entrevistada foi vítima de bullying, na escola, por causa disso.
Sara Gonçalves – A minha avó acabou por ser a compensação pela falta do meu pai. Lembro-me de ter entrado em alguns palcos a chorar, porque levava comigo essa dor. Foi na altura em que senti que dei um pulo, entre os 12 e os 15 anos. Trazia para os fados a amargura da minha vida pessoal e a minha avó, durante muito tempo, foi mãe e pai. A minha mãe ajudava, mas tinha que trabalhar, enquanto a minha avó era doméstica e estava sempre presente. Era e ainda é a minha grande crítica, em tudo. Quando estou aflita, seja pelo que for, é a pessoa a quem recorro logo. Herdei dela o negativismo, mas também a sensibilidade de olhar para a pessoa como um ser bio-psico-social, que tem um contexto, uma vida, uma família, traz recordações, e não olhar apenas para aquela atitude única da pessoa. E trago também a humildade e a honradez que me transmitiram.
Acabou por abraçar a psicologia, fazendo um mestrado nas áreas da educação e reinserção profissional e um doutoramento, sempre com boas notas. E diz que está bem, a fazer duas coisas de que gosta: psicóloga durante o dia e fadista durante a noite, a sua catarse para os dias pesados a conviver com um público muito vulnerável.
A convivência com um público tão fragilizado não afeta uma psicóloga que, apesar da sua formação, ainda é muito jovem e não tem todas as defesas bem desenvolvidas?
Acho que tenho tido uma proteção grande, porque tento sempre quebrar o gelo. Mas já tive medo, em muitas alturas, porque há casos de violência doméstica, conflitos. Estaria a mentir se dissesse que não tive medo. Mas acabo sempre por levar as situações com leveza. Quanto mais medo tenho, mais tento chegar ao lado bom da pessoa. E também tenho chefias muito boas, que compreendem este meu lado imaturo, com muito para aprender. E, quando não sei, pergunto. E evito dar uma resposta, criar expetativas. Vou para casa analisar o assunto e procurar uma resposta. Mas ainda não consegui separar a minha vida entre o CASA e a minha casa. Mas considero-me uma pessoa sortuda.
Sara Gonçalves: a fadista
Nasceu na Fuzeta, oriunda de humilde família de pescadores. Aos cinco anos, cantava na rua para a vizinhança e para os turistas que passavam, achavam graça e a filmavam. O fado era o único género musical, porque era o que ouvia na casa dos avós, com quem vivia. Um dia, a avó Maria Eugénia foi falar com o Domingos, da Banda Íris, perguntando-lhe se a neta não podia cantar um fado, no espetáculo durante as festas locais. Foi atendida. «Escolhi a Lenda da Fonte», diz-nos a protagonista, acrescentando que «só a tinha ouvido cantada por um rapaz e, assim, achava que não ia imitar ninguém».
A poetisa local Maria José Fraqueza deu-lhe a conhecer os concursos de fado e assim começou o seu trajeto fadista, aos seis anos. Finalmente, aos nove, depois de já se ter qualificado diversas vezes para a final, venceu o concurso de fado amador de Albufeira, que considera um marco na sua carreira.
Porquê um marco importante?
Sara Gonçalves – Embora nunca tivesse sentido nervos em palco, porque era muito arisca, sabia que tinha jeito e pensava que poderia vir a ser uma grande fadista, a vitória deu-me mais confiança. Contudo, ao longo dos tempos, fui perdendo esse sonho, porque me dediquei mais aos estudos.
Não pudemos deixar de recordar os livros sempre presentes, onde enterrava a cabeça nos intervalos das atuações.
Sara, sorrindo, disse-nos que ainda hoje aproveita todas as horas vagas para estudar e fazer o que tem pendente. E recordou que até para o Luxemburgo levou livros e computador, embora os colegas fadistas lhe dissessem que não o podia fazer, porque os donos dos restaurantes não iriam gostar. E foi conciliando as duas facetas da sua vida.
Nem sempre foi fácil, pois não?
Houve uma altura, no nono ano, que foi mais difícil de gerir. Mas a minha avó, que foi a pessoa que sempre seguiu comigo nesta caminhada, nunca me fez pressão. Sempre me disse que os estudos deveriam estar em primeiro lugar, mas nunca me pressionou para seguir um caminho ou o outro.
Embora tivesses o sonho de ser uma grande fadista, foste sempre construindo uma carreira paralela, que te desse segurança futura? Era essa a ideia?
Recordo-me de você me ter dito, tinha eu cerca de 13 anos, «tu agora tens piada, porque és uma gaiata e tens uma bonita voz. Mais tarde, tens de ter mais qualquer coisa que faça a diferença». No início, estava no encantamento do fado, mas vim a descobrir que isto era muito efémero. E a acreditar nas palavras dos meus colegas, que diziam que isto não era vida para ninguém, que hoje dava muito dinheiro, amanhã não dava. O ser criada pelos meus avós, que são pessoas de raízes muito humildes, também me fez acreditar que tinha de ser mais terra-a-terra e aproveitar os estudos. E nunca deixei os fados, porque eram o meu sustento para os estudos.
Abandonou as competições de fado, porque começou a ouvir comentários desagradáveis, como «papa-concursos». Um dia, o fadista Luís Manita disse-lhe para vir cantar a Portimão, a um lar de idosos. Quando chegou ao Tempo, de gangas e ténis, começou a ver todos os outros muito bem vestidos e estranhou. Quando a chamaram e entrou na sala, ficou muito surpresa por ver o Filipe la Féria, a Alexandra e todos os outros membros de um júri.
«Eu não queria acreditar. Passei aí e nos castings, mas os concorrentes não se ouviram uns aos outros, até ao dia da primeira atuação. Mas iam-me perguntando o que é que uma menina do Algarve ia para ali fazer, porque os competidores de Lisboa já tinham vozes castiças e eu cantava como a minha avó me tinha ensinado. Aceitei todas as críticas construtivas que me foram fazendo. No início, tinha sido operada, tinha uma dicção incorreta e respirava mal. Entrei na terapia da fala e fui escutando os mais experientes. Quando ganhei, não queria acreditar. Sobretudo, porque foi uma escolha do Filipe e não do público. Logo no ano a seguir, o Paulo Valentim levou-me a Roma, o que prolongou esse marco. Mas, logo de seguida, viu-se que não era o caminho que eu queria seguir. E sempre tive a consciência de que só ia até onde me sentisse feliz. No espetáculo, não me sentia bem, porque fazia play-back total. Só abria a boca, mas não cantava».
Sara Gonçalves não consegue viver longe da família. Quando a saudade se tornou insuportável,
disse a La Féria que ia regressar ao Algarve, ao seio dos seus e aos estudos, para acabar o curso. Não avisou ninguém, fez as malas e trocou o Estoril pelo Algarve. Toda a família ficou feliz com a decisão.
«Se calhar, o que eu queria era vencer; não era lá ficar. Eu sei que é um bocado injusto o que vou dizer, mas ainda vejo isto como um hobby e não levo muito a sério esta brincadeira do fado. Isso, por vezes, cria algumas limitações em algumas atuações. Talvez seja o conforto de ter uma vida a par do fado, uma opção B, que me permite ter liberdade de escolha».
Maria Eugénia: companheira de viagem
Aos 39 anos, a idade em que muitas mulheres ainda dão à luz, Maria Eugénia tornou-se avó. Doméstica, começou a olhar pela neta a tempo inteiro, deleitava-se e sentia-se orgulhosa com as suas habilidades vocais. Foi esta senhora quem meteu a neta no fado, por brincadeira, porque a catraia tinha jeito e gostava de cantar, não lhe passando pela cabeça que iria tomar tão grandes dimensões. Só mais tarde se apercebeu de que «isto é uma vida muito ingrata. A gente pensa que é um mar de rosas, mas não é. É um caminho de espinhos a vários níveis».
Nunca pensou que a Sara chegasse ao patamar aonde chegou?
Maria Eugénia – Nunca. Mas enganei-me. Isto criou pernas e foi andando de uma tal forma, que chegou onde está hoje. Mas sempre com a ideia dela fixada no curso. Dizia-me sempre que cantar era um hobby e o que prevalecia era tirar o curso. Tivemos uma vida de luta e de sacrifícios, em conjunto, com algumas lágrimas, dela pegar nas coisas da escola e termos de ir para o estrangeiro, porque íamos por três ou quatro dias e ela tinha de estudar para os testes. Para ela, não podia ficar nada da escola para trás. Recusava contratos, até no estrangeiro, se prejudicassem os estudos. Disse-lhe tantas vezes que não podia ir cumprir contratos com os livros e o computador, mas não me escutava. E eu sentia-me mal…
Vocês não conseguem viver uma sem a outra?
Hoje, é uma senhora com 25 anos. Mas para nós são sempre crianças, necessitam de ter algum apoio por trás e de ter alguém que os encaminhe. Embora ela tenha sabido sempre escolher os seus caminhos e os amigos, nunca foi de grandes noitadas, nem se ligou a más companhias. Estive sempre descansada. Para mim foi um grande orgulho ter criado a Sara e não me arrependo de a ter metido na música.
Mas o seu grande triunfo, ser escolhida pelo Filipe la Féria, acabou por ser rejeitado?
Vir-se embora foi a melhor coisa que ela fez. Ela é muito ligada à família e ainda não se conseguiu adaptar a uma vida sozinha, sem nos ter por perto, numa ligação diária.
Isso não é maravilhoso, numa época em que as relações familiares são tão escassas?
É muito importante mas, por vezes, fá-los crescer menos rapidamente, porque a vida é que os vai ensinando. E eu protegi demasiado a Sara. Mas sabe cuidar das suas coisas e, quando não sabe, alguém a ajuda. Tem sido bom para mim possuir esta mais-valia na minha vida. Tenho dois filhos, gosto muito deles, mas nutro pela Sara um carinho muito especial. A nossa relação foi sempre muito forte. Até o meu marido não se metia nos assuntos da neta, porque eu me antecipava e ele acabava por dizer: «Em coisas de mulheres eu não me meto».
A nossa interlocutora, com um caráter tão grande e tão forte que nos questionamos como consegue contê-lo na sua pequena estatura, disse-nos que cada dia é uma lição de vida e que até pode ter prejudicado a neta, no modo como a educou. Mas que é humano, porque foi a maneira como pensou que a podia proteger melhor dos perigos.
Pedimos a esta avó, que foi também mãe e pai, mentora, companheira e protetora, que se sente feliz e orgulhosa por ver a sua netinha singrar nas carreiras profissional e artística, que nos definisse a sua neta. Maria Eugénia, comovida, disse-nos: «Ela tem um coração do tamanho do mundo, é capaz de dar tudo para ver os outros bem, gosta de ajudar as crianças e os desprotegidos. E mantém a humildade que lhe transmitimos desde o berço. E eu sinto-me feliz e orgulhosa».