Produção biológica de microvegetais em São Brás de Alportel é simbiose entre o cultivo de plantas e a criação de peixes.
No Sítio do João Cavaleiro, a poucos minutos do centro de São Brás de Alportel, há uma pequena estufa com dois metros de altura e 25 metros quadrados de área, que revela uma produção inovadora de características únicas e pioneiras no Algarve.
Tratam-se de mais de 30 espécies de microvegetais que, além de serem cultivados em aquaponia – uma forma de agricultura sustentável que combina a criação de peixes em tanques com a cultura de plantas sem solo (hidroponia) – são 100 por cento biológicos. Por de trás deste projeto, que nasceu pouco antes da pandemia começar, está o são-brasense Nuno Clara, de 32 anos, especialista em informática, que conta ao barlavento como lhe surgiu a ideia.
«Andava com vontade de fazer algo por conta própria, até que um amigo me apresentou ao mundo dos microvegetais, porque não era necessário muito espaço, nem uma grande produção para obter algo rentável. No início, em 2019, o meu objetivo era apenas o de conseguir um rendimento extra, mas à medida que fui ganhando conhecimento, percebi que podia fazer a diferença. Foi aí que comecei por pesquisar novas formas de produzir e de ter materiais mais sustentáveis, A ideia era conseguir apresentar um produto diferente».
Nasceu, assim, a marca Nuno Clara – Microvegetais. «Comecei por produzir em hidroponia [onde as raízes se alimentam através de uma solução à base de água e nutrientes] e com tapetes à base de fibra de coco, que são naturais e biodegradáveis, de origem italiana. Os microvegetais cresciam limpos e de forma mais saudável, mas o resultado ainda não era o desejado. Queria uma cultura que usasse o mínimo de água possível e foi aí que descobri a aquaponia».
E o que distingue este sistema de produção? «Utiliza um tanque com água e peixes. Como a água é rica em nutrientes, devido aos peixes, fornece um fertilizante natural para as plantas e são elas as próprias que purificam e limpam a água para garantir o bem-estar dos peixes. Explicado de forma muito sucinta, é como se fosse um lago», esclarece Nuno Clara.
Um processo simples, que faz com que se trate de uma cultura com um uso muito reduzido de água, «porque é sempre a mesma, em constante circulação devido aos peixes e às plantas que acabam por filtrá-la e mantê-la limpa», acrescenta ainda.
No tanque da estufa de Nuno Clara, residem quatro peixes golden fish. «Há vários que se adaptam bem, mas estes têm a vantagem de ser bastante resistentes. Não me posso esquecer que com este sistema passo a ser responsável não só pelas plantas, como também pelos peixes. Não podia estar a criar mais porque o tamanho do depósito não permite e podia não estar assegurado o bem-estar dos animais. Todo o ambiente tem de ser bom tanto para as plantas como para os peixes. É todo um equilíbrio que tem de ser respeitado, porque se não existirem também plantas suficientes para a limpeza da água, os animais acabam por morrer», explica o empreendedor.
Esse é outro dos motivos que impede o uso de conservantes, pesticidas ou herbicidas nesta cultura. «Primeiro porque quero seguir a génese de serem microvegetais biológicos e naturais e, depois, porque se entrarem no sistema, podem matar os peixes», refere.
Além disso, também a rega está pensada para ser o mais sustentável possível. «É toda automatizada e apenas utiliza a quantidade exata de água que as plantas precisam. Até porque cada microvegetal tem a sua necessidade e não pode receber nem demasiada água nem a menos», justifica. O que facilita esta tarefa, enquanto ao mesmo tempo aproveita ao máximo todo o espaço da estufa, são as estantes criadas pelo responsável. Nas suas palavras, «como produzo em estantes, rentabilizo a área e consigo produzir em maior quantidade».
Outro dos segredos desta produção está nas sementes utilizadas. Segundo revela Nuno Clara, «são de qualidade muito elevada, próprias para microvegetais e de produção local. São sementes com uma taxa de germinação entre 90 a 100 por cento, ao contrário do que acontece com as comuns, em que mais de metade não germina. Isso está tudo relacionado com a qualidade e com o preço que se paga. A mais cara que compro é a de sorrel, em que o quilo custa quase 300 euros. As mais baratas são as de rabanete roxo, mizuna [mostarda], girassol e trigo, que rondam os 30/40 euros» por quilo.
Outra das vantagens desta técnica tem a ver com as o tempo de crescimento das plantas que, apesar de variar, acaba por ser muito curto, seja qual for a estação do ano. No verão pode demorar cerca de três a quatro dias e no inverno são perto de 10. Isto faz com que o empreendedor não tenha tido, até ao momento, qualquer tipo de problema associado a pragas. «O tempo de crescimento destas plantas é tão curto que não há sequer oportunidade para pragas», garante.
Das ervilhas até ao trevo vermelho
Com cores vibrantes e bastante nutritivos, os microvegetais têm utilizações muito versáteis. De acordo com o empreendedor Nuno Clara, podem ser utilizados em sandes, saladas, sopas, batidos, ou até mesmo para decoração de pratos. Da sua estufa, são já cerca de 30 as variedades produzidas: ervilha, coentros, couve, mizuna, rabanete roxo, sorrel, alho francês, salsa, girassol, agrão, rúcula, manjericão, amaranto, nastúrcio, chia, trevo vermelho, trigo, alfafa, borragem, lentilhas, feijão mungo, shisho vermelho, entre outras. As mais procuradas são a ervilha, os coentros e o nastúrcio, seguido do sorrel, rabanete roxo, mizuna, salsa e bróculos.
Ainda segundo o responsável, os clientes que procuram por estes produtos são vários, sendo que no passado ano, o aumento das vendas foi substancial. «Chefs de cozinha, restaurantes, hotéis e privados, sobretudo vegans e vegetarianos, muitos portugueses, mas também estrangeiros», afirma.
Com a pandemia, as vendas estiveram mais estagnadas, até porque as feiras destinadas a estas produções foram todas canceladas, mas no Mercado de São Brás de Alportel, onde às vezes marca presença, e noutros certames que já se vão realizando, «vou mostrando a minha marca e aquilo que produzo de uma forma tão diferente», aponta.
Aliás, as preocupações ambientais são tantas que até as próprias caixas individuais, usadas para transportar a planta, com o custo de 3,50 euros, são de cartão reciclado e reutilizáveis.
Quanto aos cuidados que se devem ter após a compra de um microvetal, Nuno Clara explicita: «é muito fácil e existem duas maneiras. A primeira é guardar no frigorífico, numa parte onde não apanhem o frio direto, e colocar água uma vez por dia diretamente na caixa. Outra hipótese é deixar na cozinha, num local onde não apanhe luz direta do sol e regar duas ou três vezes por dia, dependendo da época do ano».
Quem quiser conhecer melhor este projeto ou até comprar, basta procurar pela marca Nuno Clara-Microvegetais nas redes sociais, enviar um email ([email protected]), ou contactar por telefone (918294787).
O que são, afinal, microvegetais?
O responsável pela marca Nuno Clara-Microvegetais explica que são «rebentos de sementes de plantas germinadas e colhidas na sua fase inicial de crescimento. É a fase mais nutritiva da planta, sendo que contém entre quatro a 40 vezes mais nutrientes do que na fase adulta. São ricas em vitaminas E, C e K, aminoácidos, enzimas, clorofila e antioxidanres. Ou seja, ajudam a manter a imunidade, a diminuir o colesterol e a pressão arterial. Como produzo de forma biológica e sustentável, os benefícios ainda são maiores», assegura.
Um futuro que passa pelas escolas
A Câmara Municipal de São Brás de Alportel, ao reconhecer a qualidade dos microvegetais de Nuno Clara, encontra-se já em conversações com o empreendedor, de forma a conseguirem uma infraestrura maior. «A ideia é ter uma estufa, com 72 metros quadrados, num terreno da autarquia destinado a projetos inovadores. Vamos criar uma instalação com uma estufa solar, com materiais diferentes do comum. Vai permitir que a estufa não dependa tanto de ares condicionados ou de outros sistemas de aquecimento e refrigeração. Está pensada para ser uma produção o mais sustentável possível, que é a génese do meu projeto», conta ao barlavento Nuno Clara.
Com o novo espaço, o objetivo é estar em contacto mais direto com a população. «Vou introduzir novos produtos, como flores e mini legumes, em que muitos deles não se encontram facilmente, muito menos com esta forma de produção. Vou permitir que a comunidade possa conhecer o espaço, escolha o produto que quer, que chefs de cozinha façam workshops e que as escolas possam vir em visita de estudo», antevê.
«Quero ainda conseguir produzir as minhas próprias caixas de transporte e ter também algumas das plantas em fase adulta, como será o caso das flores. Para esses casos, vai ser necessário mais espaço para as raízes crescerem, com um tabuleiro com água e outro com sistema de água profunda», conclui.






