Depois de ter exposto os seus trabalhos no convento de São José, em Lagoa, a artista algarvia ruma agora à capital. «O poder do Sublime», um conjunto de fotos com temas de mar, falésias e ondas, onde a natureza criou formas e cores maravilhosas, estará em exposição, de 13 de outubro até ao final do ano, no Panteão Nacional, em Lisboa. Por outro lado, o Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha, recebe a exposição «Fénix», a partir de 7 de outubro. Apresenta um conjunto de esculturas que, literalmente, renasceram das cinzas. A quase totalidade das raízes e dos troncos de zimbro, aroeira ou tojo usados são matéria ardida durante os últimos incêndios. Dina Salvador ainda inaugurará outra exposição itinerante, com obras de mais de dois metros, executadas com mata-pau, na cidade de Salvador, no Brasil. Está a preparar outra exposição para o próximo ano e tem mais projetos para o futuro, estando a transformar uma propriedade com 27 hectares, em Bensafrim. Será a sua habitação e vai contar com um núcleo museológico para expor a sua coleção de arte.
barlavento – A arte despontou, repentinamente, agora?
Dina Salvador – Fotografo há mais de 30 anos, como hobby, tendo entre 60 a 70 mil fotos sobre vários temas. Aliás, raramente saio sem levar a máquina fotográfica. No que respeita à escultura, desde pequena que tenho o gosto pelas artes plásticas. Como não tinha tempo para fazer, colecionava. Tenho um acervo de 125 artistas plásticos. Mas ia colecionando troncos e raízes com formas inusitadas, até que comecei mesmo a trabalhar, no início do ano passado. É paixão mesmo! E estou cada vez mais seletiva. Trabalho apenas com madeiras mortas ou ardidas. Quando faço uma saída para recolha de material, vejo milhares de peças, mas só trago duas ou três, porque são realmente diferentes.
Onde é que faz a recolha da sua matéria-prima?
Na costa oeste, a qual, por ter um clima mais agressivo, fornece material com melhores formas e mais irregularidades. O zimbro adquire formas interessantes, irregulares e de cor espetacular, em zonas fustigadas pelo vento. E como o meu trabalho é essencialmente manual, isso ajuda-me. Sou uma mera operária da natureza. Apenas dispo a madeira das partes que estão mortas ou podres. A obra já lá está. A artista é a natureza. Raramente consigo olhar para uma madeira, no campo, e dizer que vai dar isto ou aquilo. Tenho de tirar o podre e o ardido, em casa, antes de começar a ver as formas.
Trabalho árduo, a procura?
Adoro a natureza, aquela região… para mim, é ir à caça, mas uma caça pacífica. Só recolho o que a natureza descartou. Logo, estamos em paz. Não há crise nenhuma. Temos uma relação perfeita e harmoniosa.
Começa logo a trabalhar a madeira?
A primeira coisa que faço, mal chego a casa, é fotografar, para ter o antes e o depois, o que é muito interessante. As minhas obras carregam uma mensagem: «Até do que a natureza descarta se podem fazer coisas interessantes».
Falemos sobre «O poder do Sublime». São fotos maioritariamente da costa sudoeste?
Na primeira exposição de fotografia tinha de ser uma homenagem à zona onde me sinto mais confortável. Em suma, é uma zona de interface, onde acaba a terra e começa o mar. No fundo, é a zona mais rica e mais diversa. Temos o mar, falésias, flora, fauna. A conjugação desses elementos, para mim, é espetacular. E tudo muda. Posso lá ir 50 mil vezes e vejo sempre coisas diferentes. Tem neblina, não tem neblina, a luz é diferente, conforme a hora do dia e a estação do ano.
Em suma, a bióloga não abandona a artista?
Antes pelo contrário. É uma simbiose muito harmoniosa. Eu encontro coisas, porque tenho esta formação e, durante anos, habituei-me a olhar com outros olhos para a natureza. Faço passeios com pessoas de outras áreas e, geralmente, descubro coisas mais interessantes do que elas. Simplesmente porque tenho outro olhar e um conhecimento mais específico.