Vítimas do fogo organizam-se para resistir, mas precisam de ajuda

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Incêndio de Aljezur, Vila do Bispo e Lagos deixou marcas na terra e nas pessoas. Há quem tenha perdido tudo, menos a esperança. Nova Associação Pedralva e Amigos vai organizar a ajuda às vítimas do fogo.

Era uma sexta-feira normal, pelo menos até à brisa começar a cheirar a fogo, ao longe. Wolfgang Mienert não estava preocupado e sentia-se até confiante. Tinha água na cisterna e o terreno limpo. Este alemão vive há 36 anos no Monte da Esteva, com a companheira Glenny, uma indonésia criada na Holanda.

Ali criaram a filha e agora o neto, que chamava aquele local, «o paraíso» das brincadeira. Homem de olhar gentil, durante a sua vida profissional foi guia turístico em 32 países, sobretudo no sudoeste asiático. Escolheu o oeste algarvio para viver.

Glenny esteve ligada à fundação da famosa ONG Greenpeace.

Procurou, procurou e diz que foi «amor à primeira vista» quando viu a vista ao redor do marco geodésico do Pardieiro, um dos locais mais elevados nesta zona, a 144 metros, já entre Lagos e Vila do Bispo. Ainda se lembra de apertar a mão ao agricultor que lhe vendeu a propriedade, ali mesmo. Havia uma ruína que fez dela uma casa. Agora, é de novo uma ruína.

A casa de Wolfgang Mienert era legal.

«Durante pelo menos duas horas, não pensei que isto poderia acontecer. De repente, vieram as chamas, em fúria, de três frentes ao mesmo tempo. Fiquei impressionado. Só tive tempo de fugir com a roupa que trazia no corpo», conta. Na verdade, este é o terceiro grande incêndio florestal na vida portuguesa de Wolfgang Mienert.

O primeiro aconteceu logo quando se instalou. Vieram os bombeiros e salvaram a casa. O segundo, em 2014, por sorte, talvez por milagre, ou ambos, passou ao lado. Este, contudo, destruiu-lhe tudo, as memórias das viagens, a biblioteca, «os meus tesouros».

Sobrou uma parte da capoeira e, por incrível que possa parecer, um equipamento do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Enterrado num alcapão, em rocha firme, está um sismógrafo, alimentado a energia solar, que transmite dados todos os dias para Lisboa, via satélite.

O sismógrafo do IPMA.

A antena ficou um pouco chamuscada, «mas eles ligaram-me a perguntar se eu estava bem e disseram-me que está tudo a funcionar». E agora? «Talvez vá viver para a capoeira, durante algum tempo», diz, enquanto Glenny apanha a louça de porcelana que sobreviveu nos escombros da pequena casa que era reservada às visitas.

Um piano em cinzas

Mais para sul, encosta abaixo, vive também há três décadas, o casal Tineke Smit, artista e professora, e Don Munzer, músico. A sexta-feira negra começou tranquila e Tineke estava a pintar uma porta, pequenos trabalhos para manter num brinco a casa que construiram ao longo dos anos.

Os vizinhos mandaram o primeiro alerta: «cheira a fumo», por volta das 13 horas. Vieram os aviões, os helicópteros. Don subiu ao monte para avaliar a situação. Onde está o fogo? Próximo, longe? Ligaram a mangueira, molharam o terreno, preveniram-se como puderam. Também aqui, não valeu de nada.

Tineke e Don junto ao que resta do piano de cauda.

De repente as chamas desciam em força por detrás da casa. Don só teve tempo para salvar os seus preciosos acordeões, um piano elétrico e o ukulele (cavaquinho) da esposa, alguns medicamentos e um álbum de fotografias. Arrancaram estrada fora, rumo a Budens.

Foi assim Dias depois, ainda fumega aqui e ali. Tineke não se conforma. «Já viu? Tantas pessoas que estiveram aqui connosco, tanta vida. Agora a nossa linda casa parece uma zona de guerra», pergunta e deixa escapar uma lágrima, que não vale a pena reprimir. Todos os dias havia aqui música. «Música nos montes», brinca Don, para afastar a tristeza.

Há pouco tempo alguém lhe tinha oferecido uma coleção de pautas, dezenas em cinzas no que resta do pequeno estúdio que tinham construído à volta de um piano de cauda.

«Pertenceu a um músico muito conhecido na Holanda. Tivemos de alugar um camião para o trazer de Amesterdão até aqui. Foi uma aventura», recorda Don, enquanto aponta para uma massa retorcida que já foi o seu orgulho.

O casal não entende o fogo. E explica. No que resta do pequeno estúdio, o calor foi tal, tão intenso e tão concentrado que fundiu o vidro das janelas. Como explicar, então, que a casa de banho química, toda em madeira sólida, ficou intacta?

Até uma dúzia de papel higiénico ficou incólume. Também algumas das coloridas esculturas de Tineke, feitas em papel machê, jornal e cola, sobreviveram, umas mais chamuscadas, outras menos. E também a tampa da cisterna, em madeira. A mesma pergunta: e agora?

«Agora temos de limpar tudo. Já não somos jovens, estamos nos setentas. A alegria que vivemos aqui ninguém nos pode tirar. Ao menos, sinto que toda a gente tem vontade de ajudar e isso é fantástico», diz Tineke, com esperança.

O casal está agora a viver, de forma provisória, num pequeno apartamento emprestado em Barão de São Miguel, que em circunstâncias ditas normais, estaria alugado a turistas…

Primeiro um soco no estômago, depois o know-out

O vale é diverso em culturas. Muitos estrangeiros, oriundos de vários países, têm-se fixado aqui, ao longo dos anos, apaixonados por esta parte do Algarve. Dave Hemmingway não é contudo, o arquétipo do tipo alternativo que se vem isolar numa comunidade à margem.

Tinha uma vida urbana e competitiva em Amsterdão, onde trabalhava como realizador de publicidade. Ganhava «bom dinheiro». Mas não estava satisfeito com o tempo chuvoso e frio, nem com os dias preenchidos pelo stress.

Dave Hemmingway inconsolável.

«Vi, por mero acaso, um terreno à venda nesta zona, num anúncio nas redes sociais», conta, e era mesmo isso que precisava para mudar de vida. Comprou-o e mudou-se com a família para Portugal com o propósito de fundar um ECO-Glamping, isto é, um parque de campismo ecológico, no meio da natureza, com 40 hectares e todas as condições de conforto. Um refúgio onde os hóspedes, na maioria pessoas com o seu perfil profissional, pudessem vir descansar e aproveitar várias atividades.

Chamou-lhe «Into the Wild Algarve», nome apropriado, projeto que tem sido construído com a ajuda de muitos voluntários. «Foi um grande investimento e este ano, pela primeira vez, estávamos a chegar ao ponto de equilíbrio nas contas.

Primeiro, aconteceu a pandemia da COVID-19 e para nós foi como levar um soco no estômago. Logo a seguir veio o know-out com o fogo» que destruiu tudo. De novo a pergunta: E agora? «Primeiro temos que ultrapassar o trauma. Sinceramente, ainda não sei».

Agradecimento e alerta

Harald Friedrich, morava numa casa pré-fabricada de madeira, também em Vale de Casa Velha. Ficou tão «abalado pelo inferno do incêndio, e ao mesmo tempo tão comovido com a solidariedade e generosidade das pessoas que nem tem palavras» para descrever.

Ou melhor: é-lhe difícil encontrar as palavras certas para se expressar, mesmo no seu idioma, o alemão. Mas o que ele quer dizer mesmo é obrigado, e qualquer idioma serve. «Agradeço do fundo do coração a todos os que tiveram uma atitude de humanidade para connosco, vítimas, e que nos disponibilizaram alojamento, roupa e comida.

Um agradecimento também aos bombeiros pelo seu exemplo de altruísmo», faz questão que saia no jornal. Uma pergunta: «ninguém pode esperar que se possa controlar um inferno destes. Mas, como é possível que desde o início do fogo às 12h55 até serem evacuados às 16h30, várias dezenas de habitantes do vale não tenham recebido qualquer informação, ou qualquer das autoridades? Talvez, se tivesse havido um aviso mais cedo, seria possível salvar mais do que apenas a roupa que trazíamos no corpo e as vidas».

Epílogo: a comunidade junta-se

Manhã de quarta-feira, dia 24 de junho. O helicóptero sobrevoa a aldeia de Pedralva. Leva água no balde que deixa um rasto de gotas por cima do terreno ferido. Um grupo de 25 pessoas, de todas as idades e origens diversas, juntam-se na Pizza Pazza.

Diz-se que certa noite, o príncipe William jantou aqui. O mexerico contrasta com os olhares tristes e pesados de quem acaba de perder tudo. Faz-se um esforço para comunicar em português, mas o inglês acaba por tomar conta da conversa.

Todos elogiam os bombeiros. «They are amazing!», concordam. Outra vez a pergunta: e agora? Para alguns dos presentes, este foi o batismo de fogo. Praticamente todos têm a residência legalizada (ou tinham, pois os documentos arderam).

A primeira urgência é a limpeza. «A Câmara Municipal ajuda, basta telefonar», diz. Uma informação simples, mas para muitos é novidade. E também é isso que Renata de Andrade, artista plástica que tem uma casa há três anos nesta zona, com a companheira Miriam, médica e ambientalista, trazem para partilhar.

Apesar de viverem na Holanda, ficaram presas devido ao Coronavírus. «Vamos fundar uma nova associação que nos permita organizar o que esta comunidade precisa. E neste momento, as pessoas precisam de tudo. Precisam de roupa, de comida, de apoio. Sabemos que há ajuda internacional e em vários países da Europa já estão a organizar fundos de ajuda», diz.

A Associação Pedralva e Amigos, que tinha sido pensada para atividades culturais, sobretudo ganha assim, um propósito social. Jonathan Neill, um sul-africano que mora nesta zona há oito anos, pede mais.

«Temos de aprender a viver com o fogo. Mas da próxima vez, teremos que estar preparados. Vamos pedir ajuda para que possamos reconstruir as nossas casas de forma resistente aos incêndios. Agora é o tempo de sermos resilientes e de não deixar que isto volte a acontecer». Para já, está disponível uma conta solidária (PT50 0045 71 50 4032 7124 2876 4).

Ministro elogiou combate às chamas

Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, durante a apresentação do programa «Algarve Seguro 2020», em Faro, na sexta-feira, dia 26 de junho, elogiou a forma como o combate às chamas decorreu.

Eduardo Cabrita.

«Num contexto climatérico particularmente hostil, pelo vento que marcou essa ocorrência que começou em Aljezur e que se estendeu a Vila do Bispo e Lagos, com 2300 hectares de área ardida, manteve-se a orientação estratégica na área da proteção civil. A vida está em primeiro lugar. A evacuação programada e atempada de pessoas, a garantia da segurança das populações é a prioridade. Isso permitiu, em poucas horas, ter 11 meios aéreos que deram uma resposta inicial que permitiu conter» o fogo.

«A proteção civil tem agora uma exigência dupla. Continuará a coordenar a plataforma de resposta à pandemia e estará atenta ao risco de ocorrência de incêndios rurais», disse.

«Terras do Infante» louvou atuação coordenada

Confirmando as piores previsões quanto ao risco de deflagração de fogos florestais, o território das «Terras do Infante» foi nos últimos dias fustigado por um fogo que teve o seu início às 12h55 horas do dia 19 de junho, em Vilarinha, concelho de Aljezur, e que rapidamente alastrou aos concelhos de Lagos e Vila do Bispo.

Lavrando durante o fim de semana, colocou à prova a capacidade de resposta do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) da região, o qual está operacional desde 15 de maio. Mais de 800 operacionais de 94 entidades presentes, apoiados por meios aéreos combateram o fogo.

Apesar da rápida atuação, que evitou um incêndio ainda de maiores proporções e prejuízos, o saldo desta ocorrência originou 2300 hectares de área ardida.

«Perdeu-se um grande património ambiental, mas, graças ao trabalho de equipa, colaboração e entreajuda, não há registo de qualquer vítima», elogia aquela associação que junta os três municípios.

Agricultores devem reportar prejuízos

A Câmara Municipal de Vila do Bispo informa que na sequência do incêndio que deflagrou na sexta-feira, 19 de junho, em Aljezur, e que se alastrou aos concelhos de Vila do Bispo e Lagos, está disponível no site da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, uma ficha de ocorrência de prejuízos agrícolas, de modo a que os agricultores afetados possam preencher e entregar por via eletrónica.