Um 25 de Abril «Improvável» no Teatro Lethes

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Luís Vicente encheu os olhos de lágrimas ao recordar os tempos da ditadura. Esteve em vias de ser preso político, mas devido a um erro do «bufo», a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) acabou por prender e torturar um amigo. «Foram buscá-lo a casa às seis da manhã. Quando ele estava a ser interrogado percebeu que as perguntas eram para mim. Ele calou-se», lembrou o ator, encenador e diretor artístico da ACTA, durante o ensaio aberto à imprensa de «Improvável», a 76ª produção da companhia algarvia. Um trabalho no qual partilha o palco com Pedro Monteiro, ex-professor de filosofia, ator, encenador e um dos fundadores do te-Atrito, coletivo de teatro experimental cuja génese remonta ao teatro estudantil, na Escola Secundária João de Deus, em Faro.

O texto original é do dramaturgo José Martins. «Vai ser publicado em breve. Tem 176 páginas e tive de fazer um trabalho de cenografia para reduzir o original a 40 páginas», revelou Luís Vicente. A peça é a «tentativa da ACTA celebrar o 25 de Abril, homenageando, de certa forma, os prisioneiros políticos e privilegiando a dramaturgia portuguesa contemporânea», disse aos jornalistas Luís Vicente, que acumula o papel de personagem e encenador.

A meio do espetáculo é projetado um vídeo com testemunhos reais de prisioneiros políticos da PIDE. Ao contrário do que acontece no palco, todos eles afirmam não querer voltar a encontrar-se com os seus torturadores. É pedido a uma antiga prisioneira que descreva os atos de que foram vítimas. A resposta é clara: «não vale a pena mencionar». Para Luís Vicente não é de admirar: «todas as pessoas torturadas, de um modo geral, não evidenciam grande mágoa em relação a isso». Exemplificou «o caso de José Pedro Soares, esteve 21 dias preso e só dormiu um. Ele fala disso com simplicidade, sem mágoa. Assim como a Maria Helena Tengarrinha. Há ainda o caso do professor Fernando Lopes Graça que diz que as pessoas que o prenderam lhe fizeram um favor, caso contrário seria um vulgar professor de liceu», contou.

Contudo, há o reverso da moeda. «No ano passado fiquei a saber que há um ex-PIDE que todos os anos telefona no Natal à pessoa que torturou, a desejar-lhe as boas festas». A premissa da narrativa joga com esta ideia de confronto e redenção. Luís Vicente e Pedro Monteiro são os únicos atores em palco. O primeiro interpreta um ex-agente da e o segundo, um prisioneiro político. Conheceram-se ainda jovens, na célebre Rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Um foi torturado. O outro foi o seu carcereiro.

No momento final, algures no meio de uma rua, poucos dias antes do 25 de Abril celebrar 45 anos, o antigo preso político depara-se com o seu torturador a fazer de estátua viva, mascarado de pirata. No reencontro «improvável» entre os homens, ambos recordam o dia em que um torturou o outro «numa sala sem janelas, divididos por uma secretária de tampo metálico». Descrevem como viveram a Revolução dos Cravos, dialogam, cantam e partilham cerejas.

O ex-PIDE afirma mesmo «podíamos ter sido amigos, estamos a falar como há 45 anos não falámos». O antigo prisioneiro remata rapidamente «há 45 anos não falei e obrigaste-me a estar três dias e três noites em pé, sem me mexer e sem dormir». O primeiro procura uma expiação de pecados, o segundo mostra-lhe que tal nunca será possível. Dinâmica que «José Martins, autor dos textos, pretende relatar», finalizou Luís Vicente.

A peça de teatro estreia hoje, quinta-feira, dia 25 de abril e fica em cena até dia 12 de maio, no Teatro Lethes, em Faro. Os bilhetes têm um custo de 10 euros e o espetáculo tem a duração de uma hora.

Fotografias – Maria Simiris @ Barlavento