UAlg é cada vez mais popular no Brasil, mas a realidade algarvia nem por isso…

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Nunca a Universidade do Algarve (UAlg) teve tantos alunos brasileiros como neste ano letivo 2018/2019. São mais de 1000, e representam um oitavo da totalidade do universo de estudantes, ou seja, a maioria entre a comunidade de alumni estrangeiros.

Roberto Chiodelli, 36 anos, de Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, chegou ao Algarve em setembro de 2017, para se doutorar em psicologia. Reparou então na representatividade dos conterrâneos na academia algarvia. Falou com o vice-reitor Saúl Jesus, e este desafiou-o a reativar um núcleo extinto há alguns anos. E assim renasceu o Núcleo de Estudantes Brasileiros da Associação Académica da Universidade do Algarve (BRAAUAlg), em setembro de 2018.

Na prática, este núcleo tem como principal objetivo ajudar os alunos a resolverem entraves burocráticos, além de organizar atividades lúdicas e de apoio à integração.

É neste âmbito que se destaca a publicação do «Manual de Sobrevivência para o Aluno Brasileiro na UAlg», que compila um conjunto de informações básicas, mas imprescindíveis.

Aliás, este é o ponto mais frágil da relação entre quem vem do outro lado do Atlântico e a academia. Queixam-se sobretudo da falta de habitação condigna, condição que não é apresentada com clareza antes da decisão de se matricularem no sul de Portugal.

Roberto Chiodelli sublinha que a UAlg tem feito o melhor que consegue, porém, não tem capacidade de resolver tudo. «A receção aos alunos estrangeiros é feita pelo Gabinete de Relações Internacionais, que é muito bom. Acontece é que não dispõe de funcionários suficientes para dar apoio a todos. É natural que assim aconteça, pois nós já somos muitos».

O dirigente associativo explica ainda que os brasileiros que vêm estudar para o Algarve são de classe média alta.

«Claro que todos têm algumas posses. É um perfil diferente de um imigrante. Até porque o bilhete de avião de lá para cá é caríssimo, custa, pelo menos, 1000 euros de ida e volta. Quem não tem condições não consegue sair do Brasil e vir para a Europa estudar», até porque o ensino superior público naquele país é gratuito. Ainda assim, «o prestígio de estudar numa universidade europeia» supera em muito essa regalia social. No reverso da moeda está o facto de uma universidade privada brasileira, cobrar propinas que rondam os 120 mil Reais (cerca de 40 mil euros).

A principal queixa tem a ver com o alojamento. «É um mal geral da região e estimamos que em setembro chegarão mais 500 alunos brasileiros. Vai ser um grande problema», antevê. Para quem como ele ingressa no último ciclo de ensino superior, ter onde dormir não é um problema sério, uma vez que tem direito a lugar na residência universitária.

Mas pergunte-se à doutoranda Luana Mello, de 24 anos, também de Porto Alegre, que viveu num hostel de Faro até os Serviços de Ação Social lhe terem arranjado um quarto, ao pé do Centro de Saúde de Faro. Paga 200 euros por mês. Ainda assim, considera que teve sorte, pois a maioria das colegas paga muito mais, quando consegue encontrar algo.

Mas como é que, de repente, uma universidade no sul de Portugal, que nem é das maiores do país, é tão popular no Brasil? Segundo o representante do núcleo, há uma política na academia algarvia de aceitar estudantes por via do Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM).

Além disso, o Gabinete de Relações Internacionais visita várias feiras apresentando a academia a todos os interessados. «Esta parceria já tem alguns anos e parece-me muito claro que a UAlg está a fazer um investimento nesse sentido. Há um grande interesse em trazer alunos brasileiros para cá e eles estão a gostar muito. É algo mútuo», afirma Roberto Chiodelli.

Além disso, há o boca a boca. «Conheci o Roberto no Brasil e o discurso dele cativou-me muito a colocar o Algarve como uma das minhas opções. Não conhecia nada desta parte de Portugal e não fazia ideia que existia este pedacinho do paraíso aqui. Deparei-me com um local muito acolhedor, com um clima maravilhoso e uma ótima segurança. A cidade de onde eu venho é muito perigosa, é inconcebível sair de noite sozinha. Nos primeiros dias, em que eu ia para as aulas à noite, estava cheia de medo, mas no fim das contas vi que este é um local muito bom para se viver e estudar», confidencia Luana Mello ao «barlavento».

Letícia Quiñonez, de 28 anos, natural de São Luís, cidade no nordeste brasileiro, a frequentar um Mestrado de Gestão Empresarial, também sentiu dificuldade em arranjar uma casa. «As pessoas ficam desesperadas e os senhorios ainda aumentam mais o valor do quarto», aponta.

Com vida profissional organizada desde 2012, a passagem pelo Algarve seria temporária, apenas para concluir o diploma e regressar de seguida. Porém, acabou por mudar de ideias. «Nunca tive intenção de ficar cá porque no Brasil tenho uma qualidade de vida muito boa. Trabalho em consultoria e acabei mesmo por abrir a minha própria empresa. Sempre ganhei bem». A vida em Portugal, contudo, é diferente, e esta brasileira considera que os salários em Portugal não são justos.

«Infelizmente o salário em Portugal é muito baixo. Eu tenho autorização de residência, tenho NIF e, mesmo na minha área sou mal remunerada. Pelo menos para mim, lá no Brasil, quanto mais eu estudo, mais eu recebo», compara. Exemplifica com casos que conhece. «Tenho amigos portugueses, com mestrado e licenciatura que ganham 800 euros por mês. Infelizmente aqui a situação é essa».

Apesar de ter todos os motivos para regressar à sua cidade natal, Letícia quer tentar singrar. «Dei uma nova perspetiva à minha vida. Devo ficar cá e atuar na minha área de formação. A minha ideia é abrir uma empresa de consultoria e crescimento de negócio, virado para os brasileiros».

Na verdade, em relação ao futuro, os três estudantes não ponderam mudar-se para outras cidades do país, nem regressar a casa. Roberto termina o doutoramento em psicologia em 2020 e «o meu objetivo é ficar. Quando tomei essa decisão, em Porto Alegre, larguei o meu trabalho, vendi o meu carro e mexi nas minhas economias para vir para cá definitivamente». As coisas estão a correr bem e já entrou na Ordem dos Psicólogos. «Estou a fazer um estágio profissional remunerado e para mim está tudo a correr bem. Sou particularmente feliz aqui», sublinha. A colega de doutoramento, Luana, é da mesma opinião. «Quando vim, o meu objetivo sempre foi o de ficar e estou a fazer todos os possíveis para isso».

Interculturalidade e Mindfulness

Roberto Chiodelli, doutorando em psicologia e coordenador do Núcleo de Estudantes Brasileiros da Associação Académica da Universidade do Algarve (BRAAUAlg), veio especializar-se numa disciplina da psicologia conhecida como mindfulness [treino mental que ensina as pessoas a lidarem com os pensamentos e emoções], e criou um novo programa de inserção para ajudar os colegas. Está em sintonia «com o SOS Abandono, têm a ver com isso mesmo. São para ajudar na adaptação e têm a ver com a preocupação que a Universidade tem em dar apoio aos alunos», diz.>