«Ti Mila» traz produtos do Algarve rural para Albufeira

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Nova mercearia «Ti Mila» dá sequência a legado familiar de 50 anos. Ideia de duas jovens empreendedoras surgiu e maturou nos tempos mais negros da pandemia, em pleno confinamento, que não lhes travou o desejo de abrir as portas deste espaço para toda (mesmo toda) a família, onde se respira o mais antigo e tradicional Algarve.

Na fração norte da Avenida Sá Carneiro, epicentro da outrora boémia zona do Montechoro, em Albufeira, há um novo espaço que chama a atenção dos transeuntes que por ali passam.

A decoração exterior da mercearia «Ti Mila», que abriu no dia 8 de agosto e funciona todos os dias, das 9h00 às 20h00, é sóbria, mas a banca de hortofrutícolas, colorida e cheirosa, não deixa ninguém indiferente.

Dentro de portas, a acompanhar as paletes repletas de produtos locais e as prateleiras com garrafas cheias de tradição, há fotografias de aspeto antigo que chamam a atenção.

São de Artur Pastor, retratos de um Algarve que já pouco existe na atualidade, onde, por exemplo, no local da Marina de Albufeira existia apenas um extenso campo.

«Selecionei as que existiam de Albufeira, que mostram a vida rural, chaminés típicas, amendoeiras e alguns locais emblemáticos como a zona da Marina e o moinho do Monte Novo, em Paderne, onde o nosso bisavô foi o último moleiro, ajudando na sua reconstrução. Com elas queremos mostrar a ruralidade algarvia, que é pouco falada e muitas vezes esquecida. É nela que está grande parte da nossa história. Muito do que existe hoje, vem de pessoas que cresceram nestes meios. E este espólio de fotos vai crescer!».

A explicação deu-a Marisa Sousa, uma jovem de 26 anos, licenciada em Arquitetura Paisagista, a tirar uma especialização em Jardins Botânicos. Ao seu lado no negócio está a irmã Raquel Sousa, com 22 anos, a terminar a sua licenciatura em Enfermagem na Cruz Vermelha, em Lisboa.

Ti Mila em Albufeira

As duas mantêm fortes laços com as suas raízes algarvias, pela mãe, e nortenhas, do Gerês, pelo pai, e abriram e tomam conta deste novo estabelecimento que pretende ser um tributo a essas origens, reforçadas ainda pela tradição algarvia da restante família, onde até se inclui o poeta Manuel André, tetravô das jovens e na sua altura vendedor
de quadras pelos mercados de todo o país.

O próprio nome é uma homenagem à mãe das empreendedoras: «chama-se Emília, mas em Albufeira todos a conhecem por Mila», dizem, orgulhosas, ao barlavento.

A ideia de negócio, essa, surgiu num tempo negro para muitos: o confinamento a que o novo Coronavírus obrigou. «Tivemos que tomar conta da mercearia da nossa avó, já idosa, em Paderne. Este interesse pelas frutas e legumes já andava cá há muito tempo, ela própria já tem aquele estabelecimento há 50 anos, e esta experiência só ajudou a aguçá-lo ainda mais», explica a irmã mais nova, que detalha: «comecei a perceber que a população albufeirense gosta de comprar estes produtos num local onde saibam que há qualidade. Havia tanta gente de Albufeira a ir de propósito a Paderne, então porque não, além de manter o espaço padernense, abrir numa área mais central da cidade, num horário conveniente a todos?».

A ideia maturou, com algumas conversas «com a minha mãe» pelo meio. Depois, veio a escolha do local, que terminou num grande trabalho de empreita: «tirando as paredes, isto foi construído por nós. Só as paletes é que foram executadas por um carpinteiro. Tivemos aqui uma semana de muito trabalho, entre pinturas e arranjos do espaço. Decorámos a loja com vários objetos que fomos encontrando no arquivo familiar. E a imagem da empresa também foi criada por nós», orgulham-se as irmãs.

Ti Mila em Albufeira

A pandemia não assustou as jovens albufeirenses, nem esfriou o desejo de abrir as portas da «Ti Mila»: «metemos na cabeça que tinha de ser, e foi. As pessoas precisam destes produtos, são bens essenciais. Até queríamos ter aberto mais cedo, mas a logística atrasou um bocadinho os planos», explicam.

Marisa até brinca com a «epopeia» que passaram para arranjar um dos produtos estrela da casa, os chás: «foi uma viagem de mais de duas horas, sem ar condicionado, por caminhos estreitos e bem sinuosos, até Martim Longo. Tinham-nos dito que havia um casal de idosos que produzia os chás lá. Fomos sem saber quem eram ou sequer se existiam. Quando os encontrámos, numa casinha típica algarvia, ficámos fascinadas. São um casal de 80 anos, que produz chás há mais de 40. Têm umas 30 variedades, apanham do meio selvagem e curam tudo em casa». Entre estas infusões, vendidas a granel na nova loja, está a de Mariolim, «rara e só encontrada nos confins da Serra do Caldeirão», referem as irmãs.

Junta-se o pão, cozido a forno de lenha perto de Messines, que há 42 anos começou a ser entregue à avó das jovens, «pelo mesmo fornecedor em canastras transportadas de bicicleta» como nos explicam. Hoje já é entregue de carrinha, mas a receita mantém-se a mesma e dá perfume à mercearia logo pela manhã, chegando ainda antes da abertura.

Depois, acrescenta Marisa, há «uvas de Tavira, batata e batata doce de Monchique e Aljezur, cebolas da zona de Faro, mamões algarvios, limas de Albufeira, laranja algarvia, melancia e tomate de Paderne e ainda tomate rosa de Messines», entre outras pérolas da natureza que vão aparecendo em certos dias, como figos da região.

Há ainda prateleiras dedicadas aos vinhos de Albufeira e do Algoz, à espera da companhia de outros néctares algarvios, e ao medronho, licores e compotas, estas últimas da Quinta do Mel e da Quinta do Freixo.

Ti Mila Albufeira

A fechar este plantel de luxo estão diversas variedades de mel vindo de São Brás de Alportel (flor de laranjeira, multiflora, rosmaninho e medronheiro), farinha de alfarroba e amêndoas de uma cooperativa de Boliqueime e molhos picantes artesanais e malaguetas frescas, que chegam diretamente da Algarve Peppers, em Paderne.

Tudo isto num local para toda a família (até para os animais de companhia, uma vez que a loja é pet friendly) e amigo do ambiente – não há sacos de plástico, só de papel, e também cestas de palma, que despertam a curiosidade dos clientes, que até as querem comprar.

Num espaço que desde a abertura só tem recebido «comentários positivos e encorajadores», segundo Raquel Sousa e Marisa Sousa, «todos são bem-vindos. Mas o nosso foco são as pessoas de Albufeira. Queremos fidelizar os clientes para que voltem cá muitas vezes e se sintam em casa».

E quanto a outros produtos de origem não vegetal, além do mel, «não vão existir. Queremos dar espaço a todos e focar o nosso negócio no vegetal. Há em Albufeira bons talhos e boas peixarias que merecem ser apoiados».

Procuram-se pequenos produtores locais

A dupla de empreendedoras Marisa Sousa e Raquel Sousa dá preferência aos produtores regionais. Nesse sentido, e ainda num rigoroso processo de seleção, procuram «aumentar a oferta no granel, vinho e compotas». Para isso, as proprietárias da «Ti Mila» encontram-se «a recolher mais informação, a procurar mais gente que queira ter os seus produtos aqui na loja». O objetivo é simples: «ajudar a produção local neste tempo em que não há feiras com componente gastronómica, onde normalmente divulgavam e vendiam» os seus afazeres.

Produtos a granel

Jovens empreendedoras serão empregadoras

Apesar do novo negócio, Marisa Sousa e Raquel Sousa continuam a ter os estudos em mente. As jovens terão de voltar a Lisboa para concluir as etapas que restam nos seus percursos académicos e admitem que «será necessário, provavelmente, contratar staff».  Haverá, no entanto, requisitos bem definidos: «têm de ser pessoas com os mesmos ideais e postura que nós. O atendimento aqui é muito personalizado e próximo. Temos clientes de idade, que dão muito valor a essa afinidade, um espírito bastante algarvio de brincadeira, no qual também fomos criadas», sublinham. Em relação a entregas ao domicílio, por enquanto não há planos. «Mas se vermos que faz falta, não teremos qualquer problema em implementar essa vertente», dizem as proprietárias ao barlavento.

«Too Good To Go» ajuda a combater desperdício

Além de amiga do ambiente, Raquel Sousa e Marisa Sousa quiseram levar o cunho sustentável da loja ainda mais além, e aderiram à app «Too Good To Go». Raquel explica que conheceu a aplicação «quando estava a estudar em Lisboa. Pensei que seria bom aderir. A fruta é perecível, tal como os legumes, e assim evitamos estar a jogar produto fora. Acabamos por vender mais barato, temos algum retorno e ajudamos pessoas, que acabam por ter acesso às frutas e legumes que estão ótimos para consumir, só menos apelativos aos olhos». Marisa acrescenta que «a aceitação nesta app tem sido grande. Queremos que esta loja seja educacional – além de ensinarmos a não usar plástico e a consumir produtos locais, queremos também ensinar a não desperdiçar».