Teatro das Figuras ensina reclusos a representar e a sorrir «Entre Muros»

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«Quero tentar ser feliz, ter uma casa, uma família, sem que me apontem o dedo. Porque, infelizmente, apontam», diz Manuel, recluso no Estabelecimento Prisional de Faro e participante no projeto «Entre Muros», do Teatro das Figuras. Preso, mas, acima de tudo, ser humano.

A Manuel, juntam-se o Ricardo, o Muxagata e o Pelé. Todos eles cumprem de pena na cadeia de Faro. Têm entre os 30 e os 50 anos. Estão a pagar pelos seus crimes, mas, como disseram ao «barlavento», isso agora não é importante.

Teresa da Silva com dois participantes do projeto «Entre Muros».

Esperamos por eles numa sala de recreio, no interior do Estabelecimento Prisional. Algumas mesas, cadeiras e uma Nossa Senhora de Fátima na parede. Uma sirene soa alto. O guarda prisional faz a chamada dos participantes. Começa assim mais uma sessão do projeto «Entre Muros».

Teresa da Silva, a formadora, da Associação Ar Quente, revelou aos jornalistas que ao início «havia alguma vergonha por ser uma atividade nova». No entanto, estabeleceu-se uma ligação que ajudou a «quebrar o preconceito» e a envolver os reclusos na experiência performativa.

O ensaio começa e o à vontade entre todos é bem visível. Os jogos arrancam sorrisos e gargalhadas, retirando muito do peso simbólico que reveste aquelas paredes e cercas forradas a arame farpado. Mostrando ainda que, dentro daquele espaço, estão acima de tudo, seres humanos, como outros quaisquer.

Um dos mais extrovertidos é Muxagata. Fala com um sotaque e vocabulário espanhol. Nasceu no país vizinho, mas os pais são portugueses. Diz-nos que gosta de teatro, por ser uma área que exige «responsabilidade», bem como «disponibilidade física e mental, pois tudo tem de ser bem coordenado».

Quando soube que ia haver aulas de teatro na cadeia, «quis logo vir. Quis aprender e sentir este companheirismo». Este português de costela castelhana considera esta uma boa forma de «sair de lá de dentro», «de poder expressar sentimentos e aprender algo novo».

Uma das atividades feitas pela formadora do «Entre Muros».

Pode até ter feito muitas coisas na vida, mas teatro nem se imaginou a fazê-lo. «Apenas vi duas peças em Huelva», admite. Mas no que toca ao projeto, tem uma opinião formada. «As pessoas que nos trazem esta oportunidade são muito interessantes, apoiam-nos e ajudam-nos», diz aos jornalistas. Afinal de contas, estão presos. «Um dia estamos bem, no outro estamos mal, mas neste grupo fazem-nos sentir carinho e superamos isto mais facilmente. Gostamos que nos ensinem aquilo que não sabemos», diz.

Já para Ricardo, o «Entre Muros» tem sido «um balão de oxigénio» que permitiu «aprender novas competências e ter alguma diversão». Confidencia que, ao início, era «super complicado fazer as apresentações à frente de três ou quatro pessoas». Agora? «É muito mais simples», responde, acrescentando que esta é uma forma de «expandir a consciência, que ali dentro fica muito comprimida».

Ricardo defende que «deviam existir mais formas de reinserção» deste género. Até porque, na parte que lhe toca, a experiência já plantou uma semente. «Eu vejo-me a fazer isto no futuro, e nunca tinha olhado para o teatro antes de entrar aqui».

O ensaio termina e o momento de convívio acaba também. Durou cerca de uma hora que, para estes homens, faz toda a diferença, considera Gil Silva, diretor do Teatro das Figuras que admite o aparecimento de alguma «saudade de cá vir, devido à sinergia de grupo que aqui criámos e aos momentos únicos partilhados».

O diretor do Teatro das Figuras espera que o projeto «Entre Muros» possa sair deles para fora, em liberdade, com as devidas autorizações. O objetivo é apresentar o trabalho final ao público, numa iniciativa que pode ajudar a «quebrar e combater o estigma e mostrar outra faceta deles».

Até lá, as aulas continuam até junho, mas Gil Silva não descarta a organização de outras oportunidades para os reclusos que estão disponíveis.

Essa possibilidade é abraçada de forma entusiástica por Alexandre Gonçalves, diretor do Estabelecimento Prisional de Faro. «Espero bem que isto se repita, que existam mais projetos, porque este foi algo maravilhoso», enaltece.

E diz mais: «vi pessoas com muita dificuldade de relacionamento a conseguirem transmitir sentimentos, frustrações e conhecimentos».

Alexandre Gonçalves explica aos jornalistas que «quando as pessoas estão junto a cadeias ou cemitérios, passam ao largo, mas que hoje em dia, dentro daqueles muros, já não se punem indivíduos».

Agora dão-se sobretudo «oportunidades de reintegração», e é isso que deve «ser divulgado, não apenas o que de negativo acontece, e que pode acontecer em qualquer local, não apenas na cadeia».

O diretor assume que, em conjunto com a sua equipa, «nunca baixamos os braços, apesar das muitas frustrações que esta vida nos traz».

Manuel, que só quer tentar ser feliz, admite que a «experiência agradável» do teatro o faz «pensar de outra forma». Além de desejar ter uma casa e uma família, cá fora, tem outro desejo para o tempo que lhe resta «Entre Muros»: «Gostava de ter mais atividades destas».

Depois de ter acompanhado a iniciativa Ritmos & Poesias, que estimula o contacto dos jovens de bairros carenciados de Faro com a música hip hop, de forma a seguirem o «caminho certo», o «barlavento» assistiu na terça-feira, 14 de maio, a um dos ensaios do projeto inclusivo «Entre Muros», que faz parte da programação para 2019 daquele equipamento cultural do município.

A equipa do Teatro das Figuras, liderada por Gil Silva, tem vindo a apostar forte na intervenção social.