Teatro das Figuras abre o «caminho certo» nos bairros sociais de Faro

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As tardes de segunda-feira, no Gabinete de Bairro da Atalaia, em Faro, estão diferentes, e assim vão continuar até junho. Numa iniciativa pensada pelo Teatro das Figuras, em parceria com a divisão de Ação Social da Câmara Municipal de Faro e com o Grupo de Ajuda a Toxicodependentes (GATO), está em marcha uma oficina de produção criativa, que incorpora a música e a escrita. A iniciativa denomina-se «Ritmos & Poesias», numa alusão ao género musical rap/ Hip hop, mas o que por ali se vai fazendo, nestes meses, vai muito além da música.

Élton Mota, 34 anos, conhecido no universo da música rap como Perigo Público, crescido nos bairros de Quarteira e com uma infância complicada e desafiante, é o formador e organizador da iniciativa. A ele, o rap «salvou» a vida. Uma tábua que faltou a 70 a 80 por cento dos seus amigos de infância, que «estão presos, ou têm problemas com drogas e álcool». Por isso, aceitou de imediato o desafio do Teatro das Figuras. «Colocar estes rapazes e raparigas no caminho certo é essencial, bem como fazê-los perceber o seu talento», avisou o músico, e um dos responsáveis pelo interesse demonstrado pelos jovens que participam neste projeto.

O relógio marcava as 19h00 de segunda-feira, dia 1 de abril. Cinco jovens chegaram e entraram no Gabinete de Bairro da Atalaia. Ali juntam-se também outros da Horta da Areia, da Ala 10 e da Carreira de Tiro.

Rui Gonçalves, da equipa de programação do Teatro das Figuras, não esconde o carinho «especial» por esta iniciativa, que faz parte de um conjunto de três formações de cariz social. «Esta é a primeira do ano», justificou. Sendo um dos responsáveis por esta criação, inserida na temática «Cultura e Intervenção Social», que norteia a programação de 2019 daquele equipamento cultural, revela que a ideia «estava incubada há cerca de um ano».

Élton Mota, 34 anos, conhecido no universo da música rap como Perigo Público, crescido nos bairros de Quarteira e com uma infância complicada e desafiante, é o formador e organizador da iniciativa.

Neste final de tarde, o entusiasmo tomou conta dos mais novos – afinal de contas, foi a primeira aula de canto. Todos eles foram selecionados e encaminhados pelo GATO, instituição envolvida nesta iniciativa pela autarquia, após as reuniões exploratórias com a divisão social de ação social, que também cedeu o Gabinete de Bairro para os trabalhos.

Os aplausos constantes e os risos refletem a atitude do rapper Perigo Público. «Quando trabalhamos com estas comunidades, percebemos que não damos nada, mas recebemos muito, como a espontaneidade, a honestidade e a humildade, já que os adultos as perdem por obedecer a tantas regras sociais. Eu vou ser a pessoa que mais ganha com isto».

Rui Gonçalves destacou que «para montar esta oficina tínhamos a necessidade de uma pessoa que tivesse experiência a trabalhar com adolescentes, e que tivesse nascido num contexto de bairro».
Apareceu assim o nome de Élton Mota, enaltecido como alguém com «elevada capacidade de trabalho, excelência de escrita e fácil empatia» para com os mais novos. Sentindo «um enorme agradecimento por ter esta oportunidade», o rapper confidenciou que se identifica «com a vida destes jovens, semelhante à minha na idade deles, na dificuldade de arranjar caminhos alternativos aos que a realidade em que vivem lhes oferece», e também por ser «uma oportunidade que eu não tive na altura. E eu gosto de dar aos outros oportunidades que nunca tive».

Élton Mota admitiu que, ao longo do seu percurso artístico, tentou arranjar «ferramentas de emancipação para aqueles que pertencem a camadas menos favorecidas», de forma a que percebam «que este estado não tem de ser crónico», sublinhou.

«Eles não têm de crescer e morrer dentro de um bairro social. A arte pode ser a chave para darem o salto». Licenciado em Estudos Artísticos pela Universidade do Algarve, o músico relembrou que, na sua infância, o rap lhe mostrou «que existia uma outra forma de ter atenção, que não fosse o crime ou os caminhos menos corretos» do quotidiano em contexto desfavorecido.
Aliás, este estilo musical fez com que Perigo Público, na juventude, fosse à procura «da poesia, da escrita». Com isso melhorou o desempenho escolar, pois «queria fazer cada vez mais e melhor. Queria estar sempre apto a fazer coisas diferentes. A música foi um apoio, e acabei por estudar mais».

Agora, o objetivo é replicar a sua experiência pessoal no «Ritmos & Poesias». De que forma? «Desenvolvendo a autoestima e o pensamento próprio destes jovens, para que percebam que podem ter uma atenção positiva», explicou o rapper, esclarecendo, no entanto, que nem sempre é fácil. «Quando lhes tentamos ensinar coisas mais técnicas, um pouco como acontece na escola, eles ficam mais retraídos».

Qual é, então, o segredo para captar a atenção quando aborda a teoria? «Dar-lhes liberdade criativa, permitir que passem para o papel e para a voz aquilo que são, respeitar a sua essência», atirou de imediato Élton Mota.

«É fundamental que haja aqui uma relação de dignidade. Estamos todos no mesmo patamar, e trilhamos este caminho juntos». Perigo Público foi responsável pela criação da equipa de trabalho. Além de Luís Rocha, formador na ETIC_Algarve, na área da edição e captação de áudio, convidou Rafael Correia, DJ e produtor, também ele formador naquela escola técnica, e ainda a cantora Teresa Aleixo. Um «plantel de luxo» para esta atividade, enalteceu Rui Gonçalves.

Rafael Correia trabalha «há 15 anos» com Élton Mota na música. O produtor revelou que este grupo de jovens tem mostrado «muito interesse», descobrindo aos poucos «que o que aqui fazemos não está assim tão distante deles».

«Ando muito de patins pelas ruas, é um hobby, e quando estudei em Lisboa envolvi-me num projeto chamado Agarra a Vida, que ia às escolas mostrar opções alternativas aos alunos. Hoje, encontro pessoas a andar de skate e de patins, que me dizem ter tomado esse caminho devido às nossas palavras na altura», recordou ao «barlavento».

Por isso, considera que estas iniciativas «funcionam, e mostram caminhos que por vezes só precisam disso mesmo – ser mostrados». A cantora Teresa Aleixo, que apresentou o seu primeiro disco no dia 30 de março, partilha da mesma opinião.

«Há sempre uma luz ao fundo do túnel, e queremos que eles percebam isso», explica a jovem, que teve, neste dia, o primeiro contacto com esta juventude. E quais as primeiras impressões? «Bem, são jovens a quem já foi dita muitas vezes a palavra Não, o que lhes retirou muita autoestima», sintetizou.

Mas «têm muito potencial. Identifico-me bastante com as preocupações e os receios que eles passam cá para fora», explicou a cantora e responsável por dar aulas de técnicas e projeção de voz, e de respiração. «Isto que estamos a fazer, é altamente!». Mas deixou um reparo às escolas: «é lá que as crianças e jovens passam grande parte do seu tempo, e seria importante começarem a proporcionar este tipo de atividades, para lhes mostrarem o caminho correto a seguir. A escola não tem de ser aquela estrada em linha reta e sem alternativas, tem de cativar o interesse de todos».
Com a timidez natural da idade, e com alguma relutância em expor a sua vida pessoal a um jornalista, alguns deles soltaram algumas palavras de alegria e de entusiasmo. É o exemplo do Paulo, com 16 anos, que aqui já aprendeu «bué cenas». Contou-nos que adora «cantar rap e escrever, mas quando cá cheguei só fazia rimas com o mesmo fim de sílaba, e agora já sei fazer rimas cruzadas». Com esta competência, «escrevo músicas mais rapidamente». Já Maria, com 15 anos, confessa um enorme gosto por «escrever textos». Mas, no «Ritmos & Poesias», já descobriu uma vocação: «o Élton mostrou-me que adoro escrever músicas rap e poesia, algo que eu desconhecia por completo. Sempre pensei que detestava isso».

De Fabiana e Diana, tivemos sorrisos apenas. E, no fundo, esse é o mote deste projeto. Como diz Élton Mota, «se eu puder ajudar a que eles se olhem como seres humanos, já fico grato».
O músico fica ainda feliz por sentir que o grupo se tornou «uma família, pois quando eles cá chegaram, não tinham o cuidado uns com os outros que têm agora». A visão, é partilhada por Rui Gonçalves, alertando que aqueles jovens, «nem sempre têm as mesmas oportunidades que outros». O «Ritmos & Poesias» quer levar essas oportunidades a todos, «e todas as instituições deviam ter a obrigação de fazer projetos do género», concluiu o programador cultural e educativo do Teatro das Figuras.

«Nada me deixaria mais feliz que, um dia, cruzar-me com um deles num palco», deixou escapar, com um sorriso de esperança, Élton Mota, que gostaria de poder levar «algum trabalho criado por todos os participantes» a várias cidades do país. Por agora, e até junho, ficam os cruzamentos no Gabinete de Bairro da Atalaia, onde Élton Mota «volta a sentir a alegria e a liberdade de ser criança».

Uma ajuda no presente e no futuro

Apesar do «Ritmos & Poesias» findar em junho, Gil Silva, diretor do Teatro das Figuras, prevê a continuidade deste projeto. «É importante que estes miúdos e outros que queiram encetar este caminho sintam o nosso apoio. A ideia é que o Teatro saia da sua zona de conforto e se confronte com outras realidades e, acima de tudo, consiga chegar a pessoas e a espaços onde normalmente não chega», disse. Exemplo disso são as atividades como as formações em teatro no Estabelecimento Prisional de Faro, com o grupo da Casa de Apoio à Rapariga e a residência da Julie Byrne que aconteceu na Culatra. Por isso, findo o projeto, «a ideia é facultar os contactos das pessoas do Teatro e dos formadores, estando sempre disponíveis para quando eles precisarem de nós». Já Élton Mota espera que «tudo isto transforme a visão dos jovens. No futuro, quero encontrá-los e ver que seguiram os estudos, ou que artisticamente são bem sucedidos, que conseguiram criar uma alternativa à realidade que agora conhecem. O esforço traz recompensa».

ETIC_Algarve dá ajuda preciosa

A Escola de Tecnologias, Inovação e Criação do Algarve tem um papel preponderante neste projeto. Tirando partido do envolvimento neste projeto por parte de Rafael Correia e Luís Rocha, formadores nas áreas de produção musical e gravação em estúdio, respetivamente, os jovens vão até aos estúdios da instituição de ensino numa altura em que os alunos estarão a gravar, no âmbito dos seus cursos. Sob a supervisão de Luís Rocha, «os formandos da ETIC_Algarve vão ajudar e ensinar estes jovens quando forem aos estúdios».

GATO fez o casting

Catarina Correia, da Equipa Técnica do Gabinete de Apoio Psicossocial do Grupo de Ajuda a Toxicodependentes (GATO), explicou ao «barlavento» que estes jovens «já estavam referenciados por nós, conhecemos o seu percurso há algum tempo». A seleção dos participantes foi feita com as vontades individuais e das famílias, que «confiam muito em nós, e sabem que só queremos o bem dos mais novos». O objetivo de tudo isto é «incutir competências pessoais e sociais nestes meninos e meninas, para que não entrem por caminhos que os deixem expostos aos fatores de risco».

Iniciativa não é um concurso de talentos

A oficina criativa «Ritmos & Poesias» não é um concurso de novos talentos. Élton Mota, o principal instrutor do projeto, afirma que «a preocupação é despertar a curiosidade» dos miúdos em «aprender mais, e de mergulharem de forma mais profunda na arte», dando-lhes «novas ferramentas para a vida». Uma linha de pensamento que é seguida por Rafael Correia, formador na ETIC_Algarve na área da produção musical. «O objetivo é mostrar um caminho para o futuro, que está mais perto do que eles julgam», concluiu.

Fotos: Bruno Filipe Pires