Tavira vai ter planetário digital em 2017

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A instalação de um planetário fazia parte do plano original, quando em 2003, o casal Clive e Glória Jackson ganharam o concurso de ideias para dar vida ao velho depósito de água de Santa Maria, perto do Castelo de Tavira, e ali instalaram uma camera obscura. A ideia que faz este mês 12 anos, provou ser um sucesso, pois continua a atrair a curiosidade de milhares de turistas. Contudo, chegou a altura de dar um passo em frente.

planetário-digital-tavira-projeto«Hoje estão disponíveis equipamentos digitais relativamente acessíveis. Há uns anos, estas máquinas custavam milhares», explica Clive Jackson. «O nosso planetário será um espaço multi-funcional. Além da astronomia, vamos ter uma vertente de entretenimento. Por exemplo, queremos mostrar um filme sobre Tavira. Uma vantagem da cúpula é que vai permitir mostrar imagens em 360 graus. Agora, imagine uma viagem virtual por cima da cidade filmada por um drone ou um passeio virtual pelo planeta Marte».

Jackson refere-se a uma tecnologia chamada «realidade imersiva». Consiste na sensação de inclusão experimentada pelo utilizador de um ambiente virtual, ou seja, o espectador sente-se dentro do ambiente que está a ver. «Num planetário digital, o céu não é o limite», brinca.

«Lá em cima, na camera obscura, as pessoas visitam a cidade como está hoje, mas nada nos impede de mostrar como era através de um conteúdo audiovisual», diz Glória.

Também ao nível do design há evoluções que este ex-antigo engenheiro naval e astrónomo amador quer implementar. O planetário será construído na base do depósito de água, de forma a ter um melhor isolamento térmico e acústico. A cúpula será suspensa e ligeiramente inclinada, como o eixo da Terra, o que otimiza as capacidades da tecnologia digital, mas também o tornará num anfiteatro versátil. Ficará por debaixo da atual camera obscura. No piso intermédio vai surgir um pequeno espaço de restauração.

«Queremos ter um espaço resguardado para que, quando está mau tempo, as pessoas possam estar mais confortáveis. Temos muitos visitantes no inverno, quando não há muito para fazer em Tavira. A vista na camera obscura não é tão nítida como em dias de sol, mas interior-planetarium
funciona. O planetário vai ser um bom complemento», diz Clive Jackson.

O projeto de arquitetura já está aprovado pela edilidade tavirense e a intenção é começarem as obras em setembro. Glória Jackson sublinha que «a Câmara Municipal de Tavira tem vindo a ser um importante parceiro no apoio necessário à execução deste importante investimento, cujo orçamento ultrapassa os 300 mil euros.

O resultado final trará à cidade um destaque nacional e internacional único no Algarve, com uma nova aposta dirigida a um turismo sustentável e de qualidade». O projeto está a concorrer a financiamentos do quadro «Portugal 2020» e o prazo para a conclusão das obras é o final do primeiro trimestre de 2017.

Espaço VIP

As novidades não ficam apenas pela instalação no novo planetário. Está prevista a instalação de um espaço VIP (Visitors Information Point). «Servirá para colmatar uma deficiência que sentimos aqui em Tavira. Apesar de termos um posto de turismo, este fecha para o almoço, às vezes está encerrado. A nossa intenção é abrir todos os dias, de julho a outubro», diz Glória Jackson.

Clive-e-gloria-jacksonCom a experiência de lidarem todos os dias com os estrangeiros que visitam a cidade, aprenderam que, muitas vezes, os turistas têm dificuldade em encontrar respostas para as perguntas mais simples. Por exemplo, «quero visitar Santa Luzia, como chego até lá? Às vezes perco muito tempo a explicar estas coisas. No espaço VIP vamos ter um quiosque virtual, com um software a correr num ecrã táctil, com informação complementar e abrangente».

«Este é um projeto nosso, porque depois de 12 anos a trabalhar com o turismo, sentimos que o turista continua a ter dificuldades. Ponha-se no lugar de um turista e tente encontrar as coisas. Nós vivemos do turismo, é essencial para Tavira, para o Algarve, para qualquer espaço em Portugal hoje em dia. Mas nada está sinalizado em inglês. Não há esse pensamento, para facilitar a vida ao turista», lamenta Glória Jackson. «Às vezes o turista chega aqui e reclama. Se ninguém faz, nós vamos fazer. É serviço público».

«Temos de considerar a perspetiva da sustentabilidade. Queremos que esta iniciativa tenha longevidade. Vemos muitas coisas no Algarve que começam, gastam-se milhões e depois desaparecem. Na verdade, o nosso projeto, no global é uma coisa pequena, mas que terá grande impacto. Acho que Tavira é a melhor cidade do Algarve, especialmente hoje, em que as pessoas querem umas férias seguras e sossegadas. Temos isso aqui. Claro que no outro lado há mais vida noturna, mas nem toda a gente quer isso. Temos uma ilha que é um segredo. Tavira é na nossa opinião, a melhor no Algarve», concluem.

Trabalhar com as escolas

O casal possuiu durante algum tempo o Centro de Astronomia de Tavira, mas gerir ambos os espaços, ao mesmo tempo, revelou-se demasiado trabalho. Optaram por vender a propriedade e focarem-se apenas na camera obscura.

«Por um lado é pena, porque no centro trabalhávamos muito com as escolas. Fizemos o space camp, com a Agência Espacial Europeia, e theateroperatorconvidámos um astronauta. Ainda temos contacto com vários cientistas e astrónomos portugueses, alguns com uma carreira internacional que podemos voltar a convidar. Isso é algo que queremos retomar neste novo projeto do planetário», garante Clive Jackson.

«Só temos um planetário com condições em Lisboa. Noutros países, há muitos mais. Portugal acha que é uma coisa para a investigação. Na verdade, hoje em dia, a astronomia está na moda. Todos os dias há algo de novo, um asteroide, um planeta, uma viagem espacial, uma sonda», sublinha a esposa. A pensar no público em idade escolar, o planetário vai ter uma antecâmara.

«Imagine que temos 50 crianças no inverno, molhadas pela chuva. Precisamos de um espaço para deixarem mochilas, casacos e sossegarem um pouco antes de entrar. O mesmo para os turistas»…

Falta de vontade política matou camera obscura em Faro

Quando José Vitorino era o presidente da Câmara Municipal de Faro, o casal Clive e Glória Jackson apresentou um plano para instalar uma camera obscura no hoje desativado miradouro da Ermida de Santo António do Alto. «Investimos 10 mil euros num projeto de arquitetura que deu entrada na autarquia. Mas quando chegou a hora de arrancar, houve eleições».

Ganhou José Apolinário e perdeu a ideia, segundo o casal, talvez por ter sido associada ao edil derrotado. Ao exemplo do que fizeram em 2004 num antigo depósito de água de Tavira, o casal queria dar uma nova vida ao miradouro farense. «A vista é absolutamente fantástica. Conseguimos ver os aviões a aterrar no aeroporto, a Ria Formosa, as ilhas-barreira, as salinas e tudo ao redor» de Faro num raio de 360 graus. Devido à posição privilegiada, o miradouro não tem qualquer obstáculo que tape a vista panorâmica.

«Seria apenas necessário construir uma estrutura para o elevador exterior» capaz de levar as pessoas ao observatório a instalar num velho tanque de água de 1920, adjacente à igreja e sem uso. «O depósito é um quadrado de 10 por 10 metros. O acesso é difícil, tem uma escada no interior, mas isso não seria problemático. Iríamos beneficiar a ermida, pois, na altura, sabíamos que tinha problemas de humidade. Faríamos a reabitação necessária» e a instalação da infraestrutura, sem alterar o património.

O sistema óptico já está na posse do casal. E como trazer os turistas? «Falámos com a empresa que opera o comboio turístico em Faro e estavam interessados em passar no local para deixar e recolher as pessoas», dizem. «Mas com aquela confusão política na altura, o projeto caiu. É pena porque ali, a vista é uma coisa única, sem paralelo em mais nenhum local do mundo». Hoje, «basta que haja interesse político para avançarmos», sendo que o casal quer reunir com o atual autarca, Rogério Bacalhau.

O que é uma camera obscura?

camera-obscura-taviraÉ um aparelho muito simples. Um espelho montando numa caixa de madeira no topo de um edifício reflete a luz que é ampliada, através de uma lente, para uma superfície côncava colocada no centro de uma sala completamente escura. A imagem projetada é uma espécie de «cinema» da realidade que mostra toda a envolvente em tempo real. A lente pode ser focada para mostrar vários aspetos da paisagem, desde pormenores próximos a objetos distantes no horizonte.

O primeiro estudo abrangente e ilustrado sobre o funcionamento da camera obscura aparece nos manuscritos de Leonardo da Vinci (1452-1519), mas, só na segunda metade do século XVII, foi inventada uma caixa portátil, utilizada a partir de então por vários pintores. No filme «Girl with a Pearl Earring» de 2003, realizado por Peter Webber, há uma cena que mostra a utilização de uma camera obscura, tal como se acredita ter sido usada pelo artista holandês Johannes Vermeer (1632-1675).

Hoje existem para fins turísticos um pouco por todo o mundo, em cidades como Pretória (África do Sul), Havana (Cuba), Los Angeles e São Francisco (EUA), Brighton e Greenwich (Reino Unido), Cadiz e Sevilha (Espanha). O projeto Torre de Tavira / camera obscura existe desde 24 de junho de 2004, completando 12 anos este mês. Em 2015 recebeu um numero recorde de aproximadamente 35 mil visitantes. E pelo quarto ano consecutivo ostenta o prémio «Certificado de Excelência» do website TripAdvisor, atribuido com base nas avaliações e opiniões dos visitantes.