Só estreias nacionais na quinta edição do festival encontros do DeVIR

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barlavento: Como se faz a programação deste festival internacional?
José Laginha:
Programar um festival temático é o equivalente a fazer uma prova de orientação sem mapa, sem percurso predefinido. Sabemos que o objetivo é chegar à meta, mas para tal temos que estar abertos a todos os desvios e surpresas. É tão desafiante para quem o produz, como surpreendente para quem o consome, isto porque, à volta de um mesmo tema, são muitos os olhares e diversas as propostas. Na minha ótica, programar os encontros do DeVIR é um exercício criativo de coerência e de complementaridade, que começa na escolha do tema, passa pela gestão, organização e coordenação de muita informação, o que suscita novos caminhos e exige escolhas muitas vezes arriscadas, terminando por norma, muito longe daquilo do que foi o começo, a ideia inicial.

Qual o tema da quinta edição?
Esta quinta edição foi particularmente desafiante. Tal como aconteceu nas edições anteriores, em que nos focámos em temáticas como a desertificação humana da Serra do Caldeirão (2012), a descaracterização do litoral algarvio (2017) ou ainda a segregação (2018), quisemos voltar a pensar o nosso território, mas desta vez de forma mais completa e complexa, aliando a vertente social à cultural, a ecológica à científica e, sobretudo, a política à artística, fazendo pontes com outras realidades distantes do ponto de vista geográfico, tornando-as próximas e mais compreensíveis. Desta feita, começámos por inventar uma palavra dúbia, com duplo sentido: de(a)nunciar. Este mote, além de ser o tema, também nos aproximou da obra do poeta António Aleixo.

O programa acontecerá em dois momentos distintos, certo?
Sim. Tal como nas edições anteriores, mas desta vez de forma mais substancial, dividimos a programação em duas partes que são distintas, mas complementares. Ou seja, a programação preparatória e os espetáculos. Nada do que será apresentado já esteve em Portugal. São tudo estreias nacionais e algumas absolutas. Mas para explicar melhor esta questão, posso dizer que pelo facto de este ser um festival internacional e temático, há uma seleção de trabalhos que, de alguma forma, estão interligados. Por exemplo, alguns assuntos que apresento numa exposição que terá como ponto de partida a obra de António Aleixo, estão espelhados nalgumas das criações do programa do festival. Há uma série de questões transversais que se tocam. Por outro lado, este é um festival de artes do espetáculo que foca muito a dança, o que se justifica pelo trabalho que a Associação DeVIR faz desde há 25 anos. O corpo e o movimento é qualquer coisa que atira o espetador para um plano mais exigente. É por isso que há um preâmbulo com colóquios e exposições, que dão informação para fazer almofada àquilo que se vai ver nos espetáculos. Não é fácil, nem é perfeito, mas há essa vontade.

Não deixa de ser curioso o festival comemorar o aniversário do nascimento de um poeta popular algarvio…
Este ano comemoram-se os 120 anos do nascimento de António Aleixo. Em 1999, na altura do centenário desta efeméride, fiz uma exposição que apresentava uma leitura minha, pessoal, com o conhecimento que eu tinha do contexto em que algumas das suas quadras tinham sido criadas. Hoje, não faz sentido voltar a repetir essa receita. Por isso, revisito o que ele nos deixou, mas à luz dos nossos dias e do que neles acontece. Aleixo refletiu sobre o mundo para melhor o compreender. Muito do que disse ontem poderia ser escrito hoje. É um pensamento universalista e intemporal que colocou em muito do que escreveu, sobretudo, quando se tratava de denunciar através de quadras mais ou menos corrosivas. É isso que me permite hoje abordar problemas locais, questões prementes como as alterações climáticas, o desperdício, os migrantes ou mesmo a gestão dos recursos hídricos, mas enquadrados numa perspetiva internacional. Assim, agarrei em temas que considero relevantes e que eu tenho a liberdade de imaginar que o Aleixo, se fosse vivo, iria abordar. O resultado são 10 instalações a apresentar na Galeria de Arte do Convento Espírito Santo, em Loulé. Uma, por exemplo, terá informações sobre estudantes e ativistas da Palestina e da Cisjordânia, e também de jornalistas que foram assassinados. Portanto, falar de Aleixo e da sua obra é refletir sobre nós. Como a ele, (também a nós) não nos chega entreter e animar. Queremos promover olhares contemporâneos sobre temas pertinentes que contribuam para melhor compreendermos a nossa realidade.

Quando será o arranque?
O festival inicia-se no dia 1 de fevereiro, com a inauguração da exposição «Le dessin de presse dans tous ses États» (parte 1), nos Antigos Paços do Concelho, em Lagos. Trata-se de um conjunto muito significativo de desenhos feitos por 21 cartoonistas do coletivo internacional Cartooning for Peace. Esta mostra foi uma encomenda da Câmara Municipal de Paris onde esteve patente, na altura, a propósito de um colóquio sobre liberdade de expressão, no final de 2016. Portugal será o primeiro país a recebê-la. Esta exposição será também apresentada em Faro, no Teatro das Figuras e terá uma extensão (parte 2) em Quarteira. Por outro lado, encomendámos ao ilustrador português Vasco Gargalo um mapa mundo com cartoons dos principais acontecimentos e personagens de 2018. Fará parte do jornal programa do festival.

Que mais pode o público esperar?
Na programação deste ano, destaco a presença da coreógrafa e intérprete islandesa Erna Ómarsdóttir, e também da criação «We Love Arabs» de Hillel Kogan (Israel). Já tinha havido uma tentativa de trazer este espetáculo no ano passado, mas não foi possível devido à indisponibilidade de agenda. Há dois anos que está a rodar pelo mundo inteiro. Teremos também os DOT504 da Republica Checa e três espetáculos do francês Samuel Lefeuvre, que é um dos grandes nomes da dança contemporânea europeia atual. Uma das criações que irá apresentar tem a ver com a problemática dos sem-abrigo.

«We love Arabs» do coreógrafo isrealita Hillel Kogan.

Já que refere os 25 anos da DeVIR, que balanço faz do percurso?
Sinto que há 25 anos não imaginava estar onde estou. Mas hoje que estou aqui, gostaria de estar noutra situação. O que quero dizer é que o trabalho da DeVIR foi sempre no sentido de contribuir para o que o Algarve seja, a nível cultural, o que ainda hoje não é. Para mim é um pouco frustrante, porque com o contributo de mais pessoas, a realidade poderia ser diferente daquilo que é. Não há criação no Algarve e não há justificação para isto. A única justificação é porque também não existe formação.

Luaty Beirão, Marisa Matias e um astrofísico palestiniano (ex-NASA) juntos em Loulé

Suleiman Baraka nasceu em 1965, em Gaza e é astrofísico. Após uma posição notória na NASA, funda, em 2010, o Centro Palestino para Astronomia e Ciências Espaciais. Atualmente é professor na Universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos da América. É um dos convidados para o colóquio «Denunciar o presente, discutir o futuro», marcado para sábado, dia 23 de fevereiro, no Auditório do Solar da Música Nova, em Loulé. «Ele tem uma história marcante para partilhar, pois perdeu um filho e um irmão na faixa de Gaza. Por uma questão moral, regressou ao território para montar um centro de astronomia pela paz reconhecido pela UNESCO», explica José Laginha, diretor artístico do festival encontros do DeVIR. Também «Vítor Aleixo surge como convidado, não tanto como autarca, mas mais como neto do poeta António Aleixo. Junta-se a Suleiman Baraka, ao ativista angolano Luaty Beirão, à eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias, a Amaria Hakem linguista árabe da Argélia e a Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CNADS)». Às 18h30 será inaugurada a exposição «de(a)nunciar, AleixoHOJE» na Galeria de Arte do Convento Espírito Santo. O dia termina com o concerto IKOQUE que junta o rapper e ativista Ikonoclasta (Luaty Beirão) e com Batida (Pedro Coquenão), no Cine-Teatro Louletano, às 21h30.

IKOQUE junta em palco o rapper e ativista Ikonoclasta (Luaty Beirão) com Batida (Pedro Coquenão).

Vanguarda islandesa no Teatro da Figuras

O espetáculo «IBM 1401 – a user’s manual (in memoriam)», a apresentar no dia 30 de março no Teatro das Figuras, traz ao Algarve «um solo icónico da dança contemporânea islandesa por uma das mais destacadas bailarinas da cena europeia, Erna Ómarsdóttir». Outro ponto de interesse é o facto de a música ter sido composta pelo compositor Jóhann Jóhannsson, autor da banda sonora do filme «A teoria de tudo», baseado na história do astrofísico Stephen Hawking. Criado em 2002, este espetáculo é agora reposto em homenagem ao compositor, falecido em fevereiro de 2018.

Erna Ómarsdótti e Jóhann Jóhannsson.

Lídia Jorge e Marika Bret do «Charlie Hebdo»

Outro destaque no programa da quinta edição do festival encontros do DeVIR é o colóquio «Humor e denúncia», marcado para sábado, 23 de março, em local ainda a anunciar. Terá como convidados a escritora algarvia Lídia Jorge, Marika Bret como representante do jornal satírico francês «Charlie Hebdo», e um representante do «Cartooning for Peace» juntamente com os cartoonistas Kichka, de Israel, e o português Vasco Gargalo. À noite, o Cine-Teatro Louletano acolhe a peça «Material Men Redux» do coletivo Shobana Jeyasingh Dance (Índia/Reino Unido). Segundo o diretor artístico José Lagina, «é um espetáculo que, entre dança clássica indiana e hip-hop, denuncia a violência da perda e a criação de novas formas de pertença e integração».

CAPa sopra as velas à DeVIR

O Centro de Artes Performativas do Algarve (CAPa), em Faro, celebra o 25º aniversário da associação que lhe dá vida, em dose tripla. Primeiro com o espetáculo «Collective loss of memory» do coletivo checo DOT504, dia 20 de abril, e depois com uma estreia absoluta, a 27 de abril.

Projeto «Collective Loss of Memory» do coletivo checo DOT504.

«Neste dia, a dupla Sofia Dias e Vítor Roriz apresentarão o resultado de uma encomenda de criação deste festival. Nessa noite ainda se fará a leitura de um texto de Luaty Beirão com ilustração em tempo real de Miguel Mendonça», revela José Laginha.

No dia 4 de maio, será a celebração dos 25 anos de atividade da DeVIR, com «monoLOG» de Samuel Lefeuvre e «It moves me » de Aristide Rontini, ainda «event» de Samuel Lefeuvre e Florencia Demestri (Bélgica). «monoLOG» é inspirado na personagem Log Lady da série «Twin Peaks» de David Lynch. «It moves me» inspira-se no elemento água como purificação, energia, fluxo, morte e renascimento. «Event» é um dueto que trata a figura de um sem-abrigo «para questionar o lugar que cada um de nós ocupa na sociedade e a relação que temos com pessoas marginais, que não seguem as mesmas regras que nós».

«monoLOG » de Samuel Lefeuvre.

A organização da quinta edição do festival encontros do DeVIR é da responsabilidade da DeVIR/CAPa estrutura financiada por Ministério da Cultura/Direção-Geral das Artes. É uma iniciativa co-financiada pelo programa de animação turística e cultural em época baixa «365 Algarve», Turismo de Portugal, Câmara Municipal de Faro, Câmara Municipal de Lagos e Câmara Municipal de Loulé. Tem como Parceiros media o semanário «barlavento» e a Rádio Universitária do Algarve (RUA FM).