Sérgio Vieira: «queremos privilegiar o espetáculo e honrar a camisola»

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Com 37 anos, treinador do Farense é um dos mais jovens da Primeira Liga e, em entrevista ao barlavento, assume-se preparado para o desafio de orientar o histórico algarvio neste regresso à ribalta do futebol nacional, depois de um hiato de 18 anos e após uma época em que a equipa «superou as expetativas».

barlavento: É um treinador jovem, que agarra pela segunda vez uma aventura na Primeira Liga. Sente-se mais preparado que há dois anos, quando deixou o Moreirense?
Sérgio Vieira: Naturalmente que sim. É uma lógica evolutiva, presente em qualquer ser humano. Já me sentia preparado quando entrei no Moreirense, com o campeonato a decorrer. Recuperei o clube a todos os níveis, em termos de resultados, pontos conquistados e método de trabalho. Está provado pelos números. Estatisticamente, fui o treinador que mais contribuiu para a permanência do Moreirense nesse campeonato. E no Famalicão, aconteceu o mesmo. Os objetivos que nos tinham proposto no início não eram concretamente a subida, mas sim andar lá em cima e superar as dificuldades estruturais do clube. Conseguimos. Sei bem o quanto dei de mim ao projeto. Depois, o Farense. As expetativas iniciais eram de lutar pela subida, com as três equipas que tinham descido da Primeira Liga, e com as quatro ou cinco equipas que lutam todos os anos pela subida. E nós estivemos sempre na zona de subida, muitas vezes na liderança. Superámos as expetativas.

Chegou a Faro depois de uma época muito complicada, na qual a manutenção foi alcançada apenas na última jornada, numa época com trocas de treinador e alguns casos de indisciplina. Que Farense encontrou?
Quando cheguei a Faro encontrei um presidente e uma estrutura com muita ambição e história. O Manuel Balela representa essa história fantástica que o clube escreveu no passado. E o presidente é apaixonado pelo DNA do Farense. Havia um projeto ambicioso, mas que precisava de alicerces, estacas, valores humanos, emocionais e ideias audazes. Tentei criar isso, quis conhecer muito bem todos os jogadores que transitaram da época passada, criando um conjunto de atletas que tivessem como objetivo abraçar a causa nobre que é recolocar um histórico, muitos anos depois, entre os melhores. Durante a época superámos os melhores do nosso campeonato, estivemos sempre acima deles. Também tive conhecimento dessas situações de indisciplina na época anterior, de divisões de balneário. Da minha parte, fui intransigente no caráter do grupo: tinha de existir união, frontalidade, superação e espírito de entreajuda, entre muitos outros aspetos que fazem parte das famílias estruturadas. Depois, o trabalho extremamente metódico no dia a dia, de forma a que em todos os jogos tivéssemos a sensação que podíamos ganhar.

A equipa arrancou a todo o gás e cimentou cedo a sua posição nos lugares de subida. Em janeiro, depois da lesão do Cássio e do Fabrício, as coisas tremeram, com alguns resultados menos bons…
Acredito que essas lesões possam ter abalado a confiança dos jogadores, das pessoas do clube e dos adeptos. Quando se vem de muitos anos de sofrimento, num ambiente onde perdemos mais vezes do que ganhamos, em que estamos em divisões que não são condizentes com a ambição do clube ou nos mantemos depois de muito sofrimento, os traumas podem avivar-se com as contrariedades nos momentos positivos. É normal. Nesse momento, os homens de caráter aparecem, conseguem manter o equilíbrio na vitória e na derrota. Há que entender muito bem porque ganhamos e porque perdemos, e continuar o trabalho de forma tranquila e serena. Sempre acreditámos no valor e potencial do nosso plantel. Sabíamos que havia circunstâncias a condicionar o nosso rendimento, nessa altura perdemos logo os dois melhores jogadores da equipa até dezembro. Qualquer equipa sofreria alguma instabilidade. E houve outros fatores, para os quais tinha preparado o plantel: dezembro e janeiro são meses com muitos jogos, com um clima mais chuvoso, com o Natal e com a abertura do mercado. Tudo isso pode levar a alguma perda de performance, que aconteceu, mas conseguimos inverter esse rumo e continuar no topo.

Depois veio a pandemia. Como se lidera um grupo de jogadores que não pode entrar em campo?
Foi um período muito complicado. Acima de tudo, queríamos dar sequência ao que vínhamos fazendo, numa trajetória ascendente que ia culminar na conquista do título da Segunda Liga. Tínhamos empatado em Matosinhos num jogo atípico, onde tivemos oportunidades para ganhar. Recebíamos o Nacional em nossa casa, e estávamos a dois pontos deles. Foi frustrante não poder conquistar o primeiro lugar, em que tanto acreditávamos. O resto, não posso dizer que tenha sido muito complicado. Os atletas tiveram uma grande capacidade de se entregar ao trabalho. O clube, a estrutura, fez um grande esforço para proporcionar todo o método de trabalho em casa. Depois, quando se falou em reatar o campeonato, foi fácil voltar ao trabalho, dentro das limitações. Os jogadores foram muito determinados e agarraram bem a preparação à distância.

Sérgio Vieira - Estádio de São Luís
Foto: Nelson Ferreira

E em que está a preparação para este regresso à Primeira Liga? O que falta no plantel?
Nesta etapa, pelo que é público, faltam chegar dois ou três jogadores. Depois temos de os desenvolver, preparar, para que exista uma hegemonia em termos físicos. Este é um grupo de risco quanto à possibilidade de lesões, nesta fase, onde os índices ainda não estão em dia. Mas temos gerido bem e todo o grupo evolui favoravelmente no aspeto físico, que é o que mais me preocupa nesta altura. Só estando bem fisicamente é que um jogador pode tomar as melhores decisões táticas que o jogo pede, bem como ter a estabilidade emocional e a capacidade de decidir rápido. Na etapa seguinte, continuaremos a trabalhar para que todos os jogadores fiquem em igual estado de forma e depois, nas duas semanas que restarão até começar o campeonato, vamos focar no rigor tático, na eficácia técnica e num maior equilíbrio mental.

As equipas têm investido forte na constituição dos plantéis, neste defeso, com algumas contratações «sonantes». Será um campeonato duro?
Sim, vai ser um campeonato muito competitivo e difícil. Só um clube preparado a nível desportivo e estrutural pode fazer um percurso ao encontro dos seus objetivos.

Mas continuam a surgir situações polémicas, com o exemplo recente do Vitória Futebol Clube…
Acho que todas as ações que possibilitem atrair investimento económico no futebol são muito positivas. Este é um meio com muita interferência, onde é muito difícil trabalhar. Está sujeito a diversas opiniões da sociedade. Claro que a parte económica é bem-vinda, possibilita o desenvolvimento dos clubes e jogadores. Mas esse investimento tem de ser bem realizado, bem pensado. Não é gastar por gastar. Tem de trazer retorno. O mérito tem de ser transversal a todas as áreas. O clube não se pode preocupar apenas em montar uma boa equipa e depois não honrar os seus compromissos financeiros. Quem falha salários e acumula dívidas não é responsável. Nesses casos, a lei tem de prevalecer e ser justa e as equipas devem ser penalizadas. Nós queremos fazer uma boa gestão e trazer retorno ao Farense.

Que Farense vamos ver neste regresso aos grandes palcos?
Acima de tudo, vamos ver um Farense ambicioso, que terá de entrar para todos os jogos com a sensação que pode conquistar os três pontos. Sempre de forma responsável, tentando praticar um futebol de qualidade e organizado em todos os momentos do jogo. Queremos privilegiar o espetáculo e honrar a camisola que vestimos, ajudando ao crescimento do clube. É com esse sentimento que estamos a trabalhar.

Sérgio Vieira Farense
Foto: Nelson Ferreira

A ideia que passa para o exterior é de uma grande evolução em várias áreas do clube…
Sim, neste último ano o Farense cresceu muito em diversas áreas. Deram-se passos muito importantes na melhoria de algumas estruturas de trabalho, e agora continuamos esse processo, que vai ser constante até se chegar a um nível ótimo. Pelas informações que tenho recolhido, existiu um grande crescimento desde a entrada do presidente João Rodrigues. O processo evolutivo, de melhorar aquilo que se tem, tem de ser constante.

Veio do Famalicão, clube com massa adepta fiel e dedicada, para o Farense, com adeptos também conhecidos pela enorme entrega e uma paixão incomum fora dos ditos «grandes». Sentiu essa proximidade?
Temos, de facto, uma claque especial, pela energia que nos transmite, do primeiro ao último segundo dos jogos. E os adeptos, igual. Sinto um amor e carinho muito grande pelo clube e, ao ouvir as histórias dos episódios recentes deste emblema, nos últimos anos, sinto muita tristeza, principalmente pelas pessoas que viveram o passado glorioso do clube e agora passaram por momentos muito maus. Mas sinto que o orgulho e o amor pelo grande, pelo histórico Farense, está a renascer, pelo mítico «inferno» de São Luís, pelas páginas belas que o clube escreveu no futebol português. O clube está a voltar ao lugar que merece e o futebol português precisa do Farense, precisa destes adeptos que são fantásticos e sempre me acarinharam.

E não o preocupa a incerteza quanto à possibilidade de ter adeptos nos estádios?
Claro que sim, preocupa-me um pouco. Mas essa preocupação é substituída pela responsabilidade da conquista dos objetivos. Não posso ficar agarrado à preocupação de não ter o apoio dos adeptos. Tenho de tentar outras estratégias para impulsionar a parte emocional dos nossos atletas, dentro de campo. Sabemos que os adeptos, dentro ou fora do estádio, nas suas casas, estarão sempre connosco, envolvidos emocionalmente naquela missão. Só não existirá o ruído, que é muito importante, mas vamos ter de o substituir por uma energia mental muito grande, imaginando que eles estão ali perto de nós.

Mas com tantos eventos a receber público, poderia haver abertura para o futebol…
Fazer o estudo da pandemia não é a minha área. As entidades regulamentam e nós temos de tentar compreender. Se as coisas são decididas de alguma forma, devem existir motivos. Eu não sofro da doença do achismo, onde toda a gente acha tudo. Há áreas onde eu não consigo achar, porque não reflito sobre elas. Temos de viver com o que temos. Se fossem penalizadoras de forma muito grave para nós, tínhamos de mergulhar nelas. Mas estas decisões são difíceis, não penalizadoras. Temos de nos ajustar. Penalizador foi não nos deixarem vencer o campeonato da Segunda Liga. Mas os prejuízos minimizaram-se com a subida de divisão.

Sérgio Vieira, técnico do Farense
Foto: Nelson Ferreira

O Farense é um projeto onde se vê por muitos anos?
Sim, imagino-me por cá vários anos. Claro que vai depender sempre das pessoas envolvidas, dos valores humanos e da ambição. Mas eu sinto que isso vai estar presente durante muitos anos e, dessa forma, claro que gostaria de fazer parte do futuro. Mas o futebol é muito dinâmico e, se não for comigo, que estes ideais prossigam com pessoas que privilegiem também esta postura de dar o máximo pelos outros, pelo clube, atletas e direção. Dar o máximo que temos dentro de nós, a nível humano e profissional, para fazer uma instituição crescer.

Campeonato de Portugal teve desfecho «injusto»

O líder técnico do Farense, Sérgio Vieira, não se escusa a comentar a decisão de dar como concluídos alguns campeonatos, prosseguindo com a Primeira Liga: «as entidades devem saber melhor que nós os valores envolvidos, e permitiram a conclusão. Acho justo. Quanto à nossa situação, achei que as coisas foram bem decididas, na impossibilidade de terminar. Premiou-se o mérito». Já quanto à situação do Campeonato de Portugal, onde o Olhanense se viu afastado da luta pela subida, Vieira sentencia: «penso que as coisas podiam ter sido diferentes. Podia, pelo menos, ter existido a oportunidade de disputarem a subida, através de um play-off, acabando com esta polémica. Há pessoas que passam dias a estudar estas questões, a minha opinião é muito subjetiva, pois não é a minha área. Acho que foi injusto, mas deixo em aberto todos os argumentos colocados pela Federação».

Farense 1910 é projeto que dará frutos

O Farense inscreveu, para a época passada, a equipa Farense 1910 na Segunda Distrital da Associação de Futebol no Algarve. A equipa, orientada por Fernando Pires (Fanã), contou por vitórias todos os jogos realizados e subiu de divisão. Para o técnico do conjunto principal, Sérgio Vieira, este é um projeto «que a médio e longo prazo vai dar frutos». No entanto, o treinador alerta: «são dois mundos completamente diferentes, a todos os níveis: no ambiente de treino, de jogo, nas questões técnicas e táticas, e claro, na exigência. É muito importante ter essa noção». Nesta pré-época, alguns jogadores da equipa satélite foram chamados aos trabalhos da equipa principal «para nos ajudar e se exporem ao nosso processo de trabalho. Foram evoluindo de forma gradual». Mas para o mister do Farense, «a sua formação tem de passar pela habituação a níveis competitivos muito elevados, como acontece nas equipas B que jogam na Segunda Liga e no Campeonato de Portugal. A motivação pode superar outras capacidades, mas para jogar ao nível de Primeira Liga é necessário um grande processo de adaptação», diz Sérgio Vieira. Há exemplos de jogadores a fazer o percurso: «neste momento temos a questão do Ângelo Taveira, que é um jovem com muito talento e o destaque neste intercâmbio entre formação e equipa principal», aponta o treinador, concluindo que, no futuro, «outros podem vir. A equipa foi bem pensada, é um projeto interessante e vai ter um futuro risonho. Mas o Farense tem um bom caminho a percorrer ainda, no sentido de desenvolver a formação e a equipa satélite, de forma a colocar jogadores com capacidade para jogar na Primeira Liga e para serem ativos financeiros importantes para o clube».

Treinador do Farense
Foto: Nelson Ferreira

Fácil adaptação ao Algarve, «região fantástica»

Sérgio Vieira, treinador do Farense, mudou-se de Famalicão para Faro em 2019. Para o técnico, a adaptação ao Algarve, em concreto à capital, «foi muito fácil. Esta é uma região fantástica, com pessoas excecionais, que sempre se mostraram disponíveis para ajudar a todos os níveis». Quanto ao ambiente que encontrou no clube, não destoou desta impressão. Segundo o timoneiro dos Leões de Faro, «sempre tivemos, ao nível interno, um trabalho em equipa muito produtivo e harmonioso. Felizmente, esta relação tem laços cada vez mais fortalecidos e isso é o mais importante. Para mim, não há relações profissionais sem estarmos humanamente envolvidos com as pessoas. Temos de nos envolver na causa, na história, no coração e na mente das pessoas».