Sérgio Brito: Albufeira tem «vantagens que podem potenciar a retoma»

  • Print Icon

Sérgio Brito, presidente da Associação Comercial de Albufeira, revela o impacto da crise pandémica na cidade. Entre as preocupações do momento e as incertezas do futuro próximo, considera que há esperança para uma recuperação sustentável da capital do turismo algarvio.

barlavento: Assumiu a presidência da associação no final de janeiro. De repente, surge uma pandemia mundial. Que dizer desta situação?
Sérgio Brito:
Ninguém esperava um acontecimento desta dimensão, que chegou repentinamente e com os efeitos trágicos que levaram à tomada de todas as medidas de contenção sanitária a que assistimos, essenciais para a salvaguarda da saúde e da vida humana. Desde o primeiro momento estivemos sempre a acompanhar de perto as preocupações dos associados. Estamos em sintonia e numa relação de proximidade com a autarquia, autoridades e outras associações. Relevo, aqui, que os comerciantes de Albufeira tiveram um comportamento exemplar desde o início desta crise, no que se refere ao cumprimento das medidas, sobretudo na forma como foi efetuado o encerramento dos estabelecimentos. A maioria dos empresários encerraram de livre vontade e antes ainda das restrições decretadas. A população de Albufeira, em geral, tem tido um comportamento exemplar.

Uma pandemia que rebenta quando o comércio e a economia se preparavam para a época alta…
O modelo económico de Albufeira não é diferente dos demais destinos com as mesmas características de sol e praia associados ao turismo de diversão. Ou seja, estamos sempre dependentes de períodos sazonais. A maioria dos hotéis, restaurantes, bares e similares, encerram por um período de cerca de cinco meses por ano, quando realizam obras de renovação e investimentos, o que significa que adaptam as necessidades de tesouraria ao período de maior afluência turística. O que se verifica é que muitas empresas e empresários estavam sem ou com pouca liquidez, e de momento mantêm encargos fixos sem os conseguir suportar. Mas cada caso é um caso. As realidades são diferentes. Temos de tomar em conta que a maioria dos agentes económicos em Albufeira são microempresas e estas de âmbito familiar dependentes do ramo de negócio a que se dedicam, o que agrava ainda mais toda esta situação.

Estávamos numa fase de retoma. O facto de termos ultrapassado uma crise tão grave há menos de uma década potencia o choque de hoje?
É verdade… O ano de 2020 seria um ano de excelente ocupação turística em Albufeira. Mesmo no mês de fevereiro, a ocupação era bastante positiva. Muitos pequenos negócios já se encontravam a laborar. Era visível a concentração de pessoas nas principais zonas de fruição turística. Acompanhei bem o início da crise do subprime em 2008 e vivenciei os efeitos que teve na economia da cidade. É desolador observar empresas e famílias, que perderam a sua fonte de rendimentos e por sua vez o património que levou décadas a ser construído com muito trabalho. Foi um rude golpe na cadeia de valor económico que se tinha construído, e como consequência houve desvalorização nos serviços prestados. A partir de 2016/2017 essa cadeia de valor vinha a ser recuperada. Agora deparamo-nos, de novo, com o mesmo problema. Empresas e famílias que ainda estavam a resolver situações de alguma complexidade estão agora a braços com o dilema de enfrentar uma conjuntura que se prevê bastante difícil. É óbvio que irá fragilizar ainda mais quem já se encontrava fragilizado… e não é justo! Mas esta é e será uma crise diferente porque paralisa toda a economia. Por isso, as respostas têm de ser diferentes e as reações das pessoas são diferentes.

Já se podem contabilizar os prejuízos em Albufeira?
Pelo que temos vindo a observar e tendo em conta alguns números oficiais, o sector mais afetado é o da restauração e bebidas com perdas superiores a 75 por cento, o que se percebe pelas medidas administrativas que foram tomadas. Se alocarmos, contudo, os custos fixos que têm de ser suportados com a manutenção dos estabelecimentos e com serviços que têm de ser mantidos, o valor é muito superior. Neste momento, apenas cerca de 10 por cento dos estabelecimentos estão a laborar em take-away, o que em muitos casos permite apenas suportar alguns custos. Estima-se que cerca de 10 por cento dos empresários e empresas já tenham encerrado definitivamente e perto de 80 por cento consideram aguentar mais dois meses na situação atual. No alojamento e restauração cerca de 90 por cento das empresas recorreram ao layoff. Em 2018, Albufeira representou 40 por cento das empresas distinguidas como PME Líder e PME Excelência da região do Algarve. Estávamos em paridade com Lisboa no rating nacional de dinamismo económico. Estamos certos que o ano de 2020 não irá alcançar estas performances. Ainda em 2018, e tendo em consideração que Albufeira representa 50 por cento da ocupação turística da região e que esta produziu um valor acrescentado bruto de dois mil milhões de euros na atividade de alojamento, restauração e similares, não se antevê alcançar nem de perto estes números. Note-se, mesmo que algumas restrições sejam levantadas, colocar de novo os fluxos a funcionar demora algum tempo e quando houver alguma laboração que se justifique, já o inverno chegou. Se perspetivarmos que a «normalização» regressará em março de 2021, o que é incerto, a única certeza é que tivemos um longo inverno de 18 meses iniciado em outubro de 2019.

Neste momento, tem conhecimento de situações já dramáticas e de negócios em perigo de fechar?
Foi afirmado que se vive num período de guerra e que, à medida que o tempo passa, vamos sentindo os efeitos colaterais. Compreendo que ninguém estava à espera da chegada desta crise, nem ninguém consegue prever ainda os seus efeitos. O pior que pode acontecer a um agente económico é a incerteza, seja ela jurídica, ou de contexto. É esta a ansiedade que verifico nas pessoas. Uma grande maioria vive no dilema de continuar ou desistir. A decisão tem de ser tomada com urgência, para que não se venha a agravar ainda mais a sua situação. Infelizmente, alguns empresários têm encerrado a sua atividade. Não é apenas a atividade que termina. São experiências, conhecimentos, referências, em suma, o que se perde são anos de trabalho que ajudaram a contribuir para o crescimento turístico do concelho. Esta perda de valor é transversal, prejudica todos. Vamos perder estabelecimentos, grandes e pequenos, que são referência mundial. Alguns casos em concreto que têm surgido são os arrendatários do regime não habitacional, que convencionaram valores de rendas com os senhorios num período em que esse valor fazia sentido e que atualmente e face ao que se prevê, se tornaram insuportáveis. Perante a intransigência do senhorio em baixar o valor só lhes resta encerrar portas… é muito triste. Há medidas para estes casos como as moratórias, mas são insuficientes. Têm havido diversas propostas de forma a resolver este assunto e que sejam equilibradas para o arrendatário e para o senhorio. Temos acompanhado de perto toda a legiferação nascida desta crise, que é muita, e esclarecido os nossos associados quanto às dúvidas que surgem sobre determinadas medidas. Estamos em permanente contacto com outras associações empregadoras e temos contribuído com as nossas sugestões. Pessoalmente, recebo inúmeras chamadas telefónicas por dia, de pessoas preocupadas com a evolução desta crise, quer a nível sanitário, quer a nível financeiro. A economia não é um conceito indeterminado. A economia são pessoas, as suas vidas.

E ao nível dos apoios apresentados pelo governo para as empresas, ainda é possível fazer melhor?
Temos a consciência de que os fundos do Estado são limitados face à dívida pública que ainda temos. Têm vindo a ser tomadas diversas medidas legislativas no combate à crise que se vive, mas todas elas têm como princípio o endividamento e ou o diferimento de taxas e impostos assim como moratórias nos créditos atuais. Este diferimento vai aparecer um dia mais tarde, sob a forma de cobrança. Ninguém sabe como irá estar a economia por essa altura e como se poderá então cumprir estas obrigações. As linhas de crédito que foram anunciadas têm demorado bastante tempo a chegar às contas das empresas, pois as sociedades de garantia mútua estão atoladas de processos, o que agrava ainda mais a precária situação das empresas. O melhor teria sido apoiar o comércio com injeção de dinheiro a fundo perdido, pelo menos respeitante aos custos fixos com arrendamentos, créditos, e outros, de forma a colmatar as perdas correntes num período até que seja sustentável a atividade. O chamado Helicopter Money, método pouco convencional, mas eficiente face à urgência de liquidez e às características desta crise afigurava-se como ideal.

Na sua opinião, como avalia a posição do município?
O presidente da Câmara Municipal de Albufeira, José Carlos Rolo, tomou a iniciativa de juntar as principais associações sociais e empresariais do concelho e da região para fazer um levantamento da atual situação. Solicitou que sejam apresentadas propostas que possam vir a contribuir para uma resposta articulada e eficaz. As competências da câmara são limitadas, mas esperamos que as propostas que já apresentámos sejam analisadas e atendidas. A situação do desemprego já se agravou, muitos dos trabalhadores que iam iniciar a sua atividade não o fizeram e, se pensarmos que 90 por cento das empresas de momento estão em layoff, o efeito só poderá ser de uma dimensão enorme, o que vai exigir medidas de apoio muito significativas.

Esta crise poderá servir para se começar a trabalhar com maior foco no turista nacional e no residente?
O turismo internacional representa cerca de 70 por cento do total da região algarvia, e o turismo britânico representa 55 por cento do total. A par com esta crise temos ainda a indefinição do Brexit que não se encontra finalizada. Temos aqui uma tempestade perfeita, que nos deixa muitíssimo preocupados. O turismo nacional este ano poderá fazer a diferença, pois face às restrições atuais não se deverão deslocar para outros destinos. Assim, o Algarve terá um incremento superior a outros anos e, obviamente, Albufeira será dos destinos preferenciais, pois sabe receber turistas nacionais e estrangeiros sem os diferenciar, pois não me parece ser essa a génese dos albufeirenses.

Albufeira

Existem já preparativos para a reabertura de estabelecimentos?
Mesmo que as restrições sejam levantadas, haverão regras de contingência e de aplicação imediata que todos os estabelecimentos têm de adotar, e que deverão ser aprovadas em breve. Só as irei analisar após aprovação e publicação. A maioria dos estabelecimentos estão preparados para abrir, contudo, há que verificar se existem condições e viabilidade para isso acontecer. Colocar um restaurante a funcionar não é apenas abrir a porta e ligar a luz…

E esses restaurantes e bares têm salvação para 2020? Ou é um ano, à partida, perdido?
Este é o sector mais atingido. Ainda é cedo para verificar quais as maiores consequências nos próximos dois meses. Há muita incerteza, e esta indefinição não permite aos agentes económicos tomarem já decisões de imediato fazendo previsões futuras. Este sector comporta muitos riscos inerentes ao seu próprio funcionamento, ou seja, para a reabertura envolve um investimento avultado que muitos não conseguem fazer, principalmente na restauração. A maioria havia abastecido os stocks e neste momento muita da bebida e comida estão fora de validade…as coisas parecem fáceis, mas não são! Diariamente, e é justo que as pessoas coloquem a questão: vamos ou não trabalhar? Esta é a grande questão que está a limitar o futuro em todos os sectores. Há estabelecimentos em que será viável abrirem para laborar quatro meses. Outros em que só a preparação para a abertura pode potenciar problemas maiores. O sector da animação e restauração em Albufeira é reconhecido mundialmente, e é um dos que mais contribui para a promoção turística atendendo à proximidade com o cliente. Temos recebido centenas de contactos de turistas a questionar quando é que podem vir para Albufeira de férias… ao menos isso, é um bom sinal.

Pode esta crise pandémica ser, de alguma forma, um ponto de viragem positivo, a longo prazo, para o comércio de Albufeira, motivando uma reinvenção de vários espaços ou marcas?
Não creio. A haver será de alguma forma acessória. Todos os outros sectores económicos dependem diretamente do turismo, haverá de algum modo uma reinvenção de alguns sectores que importam e estão dependentes de produtos do estrangeiro e que poderão iniciar a fabricação desses produtos. Para isso acontecer é necessário quem queira investir, e nem todos estão disponíveis para aguardar por licenças administrativas que demoram anos. Gostaria de ver o Algarve mais industrializado, mas não há dinâmica nem mercado atualmente, na minha opinião.

Temos alguma vantagem em relação ao restante país numa futura recuperação?
O turismo de Albufeira tem grandes vantagens competitivas, o que irá também potenciar a retoma primeiro que noutras regiões. Abandonar esse modelo seria um erro e com consequências piores do que a que estamos a vivenciar. Albufeira possui infraestruturas modernas, praias de excelência, estabelecimentos de referência e, acima de tudo, uma população que desde há décadas sabe como atender quem nos visita e isso é altamente apreciado. Agora, se há muitos aspetos a melhorar? Há! E estão bem identificados. A reabilitação do espaço urbano é essencial e esperamos que este seja o ano de grande renovação das zonas de maior fruição turística. Para que os estabelecimentos possam abrir há que respeitar as regras de segurança que serão implementadas com cuidado pelos colaboradores e clientes, e não tenho dúvida que isso irá acontecer. O Algarve e Albufeira não foram das zonas mais atingidas por esta pandemia, o que permite assegurar uma vantagem diferenciadora a outras regiões do país e da Europa.