Rocha Rescue: um novo modelo de vigilância para a Praia da Rocha

  • Print Icon

Onze dos 12 concessionários juntaram-se e formaram a Rocha Rescue, uma associação de nadadores-salvadores, num plano integrado que lhes permite melhor e mais rápida atuação, otimizando o número de operacionais.

Está sempre presente um dos dois coordenadores, homens experientes que fazem da praia o seu modo de vida e ganha-pão. Possuem um bom sistema de comunicações, uma mota de água equipada para socorros no mar e com base na zona do Buraco da Avó, a mais perigosa, quanto há vento sueste.

Este ano, conseguiram uma carrinha pick-up, que não faz parte do plano integrado, mas foi homologada pelo Instituto de Socorros a Náufragos (ISN).

Na ausência dos meios da Polícia Marítima, esta carrinha permite evacuar os acidentados aos dois pontos de acesso das ambulâncias do INEM: um, no extremo nascente, junto à Marina de Portimão; e o outro, numa zona mais ou menos central, frente ao Hotel da Rocha, onde existe também um posto de enfermagem, da responsabilidade da Cruz Vermelha.

Um dos coordenadores, Nuno Fernandes, 42 anos, um concessionário que é nadador-salvador desde os 18, considera que «a vigilância não deveria ser responsabilidade dos concessionários, mas providenciada pelas entidades oficiais, sendo cobrada uma taxa pelo serviço.

Aliás, a ideia por detrás da criação da associação foi desvincular os nadadores-salvadores dos concessionários».

A época oficial, quando as concessões têm de estar a funcionar, é de 1 de junho a 30 de setembro. A extra-balnear, usada na Praia da Rocha, vai de 1 de maio a 15 de outubro. «O resto do ano, não há vigilância nas praias, embora haja muitos banhistas nos fins de semana e feriados, quando o tempo está bom, o que acontece com frequência», alerta.

A Câmara Municipal de Portimão é uma das primeiras autarquias a aceitar a transferência da competência dos salvamentos marítimos.

Contudo, este verão, manteve a prática de transferi-las para os concessionários dos apoios balneares.

Ouvido pelo «barlavento», o vice-presidente Filipe Vital considera a segurança nas praias «uma questão fulcral, porque um destino turístico que não seja seguro não é um bom destino».

O autarca frisa que se torna mais difícil recrutar nadadores-salvadores, de ano para ano, porque muitos são estudantes a trabalhar em férias e as aulas terminam cada vez mais tarde.

E aponta o dedo a práticas ilegais, como a sua utilização noutras tarefas, «quando deveriam estar focados na missão única de salvamento em meio aquático na praia».

Para Filipe Vital, «o caminho será criar um núcleo profissional ou profissionalizado de nadadores-salvadores. Não definimos ainda como irão operar, mas podem, por exemplo, estar ligados ao corpo de bombeiros, através de protocolo entre a Câmara e a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Portimão».

Assim, a estrutura de salvamento teria uma base profissional, embora tivessem de recorrer a reforços durante a época balnear, porque não há trabalho para uma estrutura completa de nadadores-salvadores, durante o inverno. Como tal, seria difícil encontrar uma ocupação compatível para justificar a sua remuneração.

Segundo o Capitão do Porto de Portimão, comandante Ricardo Arrabaça, a legislação sofreu alterações em 2018, responsabilizando os apoios de praia pela segurança, durante a época balnear, se não existir apoio.

«Houve uma mudança na legislação há cerca de quatro anos. Os concessionários dos apoios de praia podem abrir, fora da época balnear, sem a obrigatoriedade de assegurar a vigilância. Mas alguns já estão a operar com outro espírito e optam por tê-la, mesmo sem a obrigatoriedade, para oferecer um melhor serviço aos clientes. Principalmente os hotéis, porque têm maior capacidade financeira para assumir os custos, uma vez que os toldos e as cadeiras não dão rendimento, em abril e maio. E alguns concessionários que acumulam outras valências, conseguem encaixar esse prejuízo financeiro, que acaba por se transformar num ganho», diz ao «barlavento».

O comandante Ricardo Arrabaça considera que a Rocha, «apesar de ser uma praia urbana e talvez a que recebe mais pessoas, em todo o Algarve, não é problemática. Toda a areia resultante das intervenções na Marina e no Rio Arade criou uma extensão de areal que acabou por ser estabilizado pelo molhe a nascente e as rochas e enrocamento a poente. Existe pressão, mas as pessoas, se quiserem, andam 100 metros para o lado e encontram espaço para as toalhas. Só ficam juntinhas, se o desejarem».

A passagem de competências para a autarquia já operou uma mudança que se impunha: a colocação de uma estação de nadadores-salvadores na zona B12, junto ao molhe oeste, comparticipada pela autarquia e pelos concessionários. Esta é uma frente de mar com cerca de 100 metros, não concessionada, mas muito usada, sobretudo pelas crianças e jovens das férias desportivas.

Segundo os nadadores-salvadores com quem o «barlavento» falou, já ali intervieram em duas situações distintas.

Praia da rocha em julho de 2019

Afinal, quem será quem, nas praias?

O policiamento continuará a ser competência da Polícia Marítima, que viu o serviço aumentar ao longo dos anos, mas não o quadro de efetivos.

«Surgiram marinas e infraestruturas portuárias. Houve um incremento das empresas marítimo-turísticas, da náutica de recreio e pesca, a juntar às praias. Depois, deixou de atuar um só agente, sendo obrigatórias equipas de dois homens. Mas Portugal é um país sem criminalidade e temos a colaboração dos nadadores-salvadores no terreno, que consideramos grandes parceiros. Os desacatos são poucos e os problemas mais frequentes prendem-se com a venda ilegal», foi-nos dizendo o comandante Arrabaça.

«Contudo, mantemos em circulação permanente, entre Alvor e Albufeira, uma embarcação na água e duas equipas em terra. Claro que, como qualquer entidade ligada à proteção e socorro, gostaríamos de ter mais gente. Mas o efetivo está equilibrado e os números mostram-no».

A Polícia Marítima continuará a coordenar os salvamentos com os nadadores-salvadores e a fiscalizar o seu desempenho.

As autarquias serão responsáveis pela vigilância, garantindo o número necessário de nadadores-salvadores (em moldes ainda em estudo), e pela fiscalização de todas as atividades económicas, sejam comerciais, recreativas ou de venda ambulante.

Os custos, ainda não definidos, deverão ser pagos por todos os agentes económicos sem exceção, porque todos irão beneficiar dessas ações de vigilância e fiscalização. Em suma, deverá diminuir o ónus da vigilância nas concessões de apoio balnear, mas aumentar nas outras atividades.

Transferência de competências

O governo está a transferir as competências da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e da Autoridade dos Portos de Sines e Algarve (APS) para os municípios, deixando uma situação melindrosa nas mãos das autarquias que já as aceitaram, ou as aceitem antes de 2021: a renovação dos contratos dos apoios de praia, nas mãos de pequenas empresas familiares, em que todos tiram dali o seu ganha-pão e têm passado de pais para filhos.

Começa a haver uma certa apetência por parte de alguns grandes grupos económicos, que têm o poder do dinheiro e poderão avançar com propostas que dificultem aos atuais concessionários exercer o direito de opção, num concurso público.

O legislador deverá levar em linha de conta que foram alguns desses concessionários quem atraiu os chamados «clientes de qualidade» a essas zonas balneares e os manteve ao longo dos anos.

Acesso à profissão de nadador-salvador

Quem quiser ingressar na profissão pode frequentar um curso básico para nadador-salvador. Ao fim de três anos, ou 2000 horas, é possível entrar num curso para coordenador, desde que tenham frequentado com aproveitamento os quatro módulos suplementares: operador de mota de água, operador de pequeno barco, condutor de carrinhas pick-up para assistência a banhistas e condutor de moto quatro.

No passado, existiam torres de vigia altas, de onde os nadadores-salvadores tinham uma vista privilegiada e eram vistos à distância. Tudo muda e o patrocinador atual prefere colocar o número do telemóvel dos socorristas nas boias, a metro e meio de altura. E os operacionais estão ao nível do mar. Contudo, todas as pessoas com quem falámos gostariam de ver, pelo menos, três torres na Praia da Rocha.

Praia nem sempre foi para todos…

Segundo o Capitão do Porto de Portimão Ricardo Arrabaça, «começa a haver outras abordagens dos novos empresários e eles próprios começam a colocá-las».

Hoje em dia, ir à praia tornou-se tão banal que esquisito é quem não vai. Mas nem sempre foi assim e só as pessoas com posses e/ou algumas maleitas a frequentavam, à procura do iodo (embora o Vau fosse mais procurado para esse fim).

Surgiram os apoios balneares, com toldos, barracas, duches e cadeiras de lona articuladas.

O concessionário ou um seu empregado era o banheiro, responsável por montar e desmontar diariamente o material, ensinar as senhoras e as crianças a nadar e fazer a vigilância e os salvamentos (poucos), na sua zona concessionada.

Os menos abonados ficavam nos locais não vigiados, à sombra dos rochedos e das falésias, dependendo o seu salvamento no mar da boa vontade do banheiro, que não tinha qualquer obrigação, além da moral, de atuar fora da sua zona.

A Praia da Rocha, que se estende do molhe oeste da barra de Portimão até ao Miradouro dos Três Castelos, numa extensão de 1200 metros, já era um extenso areal, na baixa-mar, mas dividia-se em pequenas praias, na maré alta, com o mar a beijar os toldos e, nas marés vivas, a própria falésia e a Fortaleza de Santa Catarina.

A partir da década de 60 do século passado, assistiu-se à democratização da prática balnear, que nunca mais desacelerou.

No verão, muitas praias estão superlotadas, quase sem espaço para estender as toalhas, sendo uma minoria os que alugam os toldos e as camas. Felizmente, a Rocha, graças aos enchimentos, tem espaço com fartura.

Floresceram os apoios de praia, denominação oficial dos restaurantes, a laborar durante todo o ano, aonde se chega, nos dias que correm, sem ter de descalçar os sapatos ou tocar na areia.

A vigilância tornou-se mais difícil, mas continua a ser responsabilidade dos concessionários dos apoios balneares, aqueles que alugam os toldos e as camas, sazonais.