Refúgio Aboim Ascensão recupera património classificado de Faro

  • Print Icon

Casa de Fresco da antiga Quinta do Cercado, edifício singular numa das principais artérias da capital, está a ser recuperada. O espaço será uma nova área de lazer para as crianças da instituição. Obras deverão estar prontas até ao Natal.

É um marco da cidade que não passa despercebido a quem sobe ou desce a Rua Aboim Ascenção, mesmo junto ao Refúgio, mas que tem sido votado ao abandono. «Aquele torreão datará do século XIX e terá sido deixado pelo engenheiro Aboim Sande Lemos, em testamento à sua nora Maria da Conceição e aos seus quatro filhos. Foram esses mesmos herdeiros que o entregaram aos cuidados do Refúgio, para poder ser recuperado. Estamos a falar de um monumento único em Faro, e porventura no Algarve, que está instalado numa área de património classificado. Vamos refazer o edifício, mantendo a mesma arquitetura histórica e cor, o rosa velho. O muro em volta ficará com a mesma configuração», revela ao «barlavento» Luís Villas Boas, diretor daquela Instituição Particular de Solidariedade (IPSS) que se dedica à Emergência Infantil.

O objetivo da intervenção, segundo explica o responsável, passa por várias vertentes. Entre muros, e junto à Casa de Fresco da antiga Quinta do Cercado, existe um espaço livre que será um novo recreio para as crianças que estão ao cuidado do Refúgio. Será também utilizado para acolher eventos da temática infantil.

«A ideia é tornar aquilo num grande pátio, onde os miúdos poderão brincar, em alternativa aos espaços suficientes que as instalações já têm». Além disso, com a requalificação, «estamos a recuperar uma imagem e uma obra ligada ao fundador da instituição, o coronel Manuel Aboim Ascensão de Sande e Lemos. Um edifício que se situa na rua em frente da estátua do seu tio, coronel Rodrigo Aboim Ascensão, que teve o rasgo de criar benemerência em Faro, cidade onde nasceu», conta Villas Boas.

Por fim, o diretor refere que, uma vez concluída a obra, «a cidade fica mais bonita e é algo que satisfaz. Vamos ter o torreão de uma forma que nenhum dos farenses vivos o conheceu. Vamos atualizar o património e embelezá-lo», sublinha.

Um trabalho que se prevê que esteja concluído antes do Natal, financiado com o apoio do mecenato e trabalho voluntário da arquiteta Teresa Valente, e do engenheiro Barata.

Em relação a uma eventual abertura ao público, Luís Villas Boas diz que não está prevista, uma vez que «o espaço não tem nada de visitável. O interior tem cerca de 15/20 metros quadrados, onde terá existido algo no passado. As casas de fresco eram lugares nas quintas, onde os proprietários descansavam ao final do dia».

A instituição, contudo, não fecha portas e está disponível em colaborar com «estudantes universitários que tenham interesse em estudar o edifício, em termos arquitetónicos».

Villas Boas considera que a estrutura irá atrair muitas atenções. «Já estou a ver os estrangeiros a tirarem-lhe fotografias. Muitos fotografam o Refúgio e fazem-nos perguntas interessantes. Há até quem vá ao café aqui da frente perguntar a que horas abre este Museu, porque não se apercebem que somos uma instituição que cuida de crianças».

Imóvel Classificado em outubro de 2006, recuperado em outubro de 2019

A Casa de Fresco da antiga Quinta do Cercado foi classificado como imóvel de IM – Interesse Municipal em outubro de 2006, por despacho camarário. Agora pretende-se que «tenha o mesmo aspeto que tem o próprio Refúgio e não o ar de abandono e degradação em que esteve, durante muitos anos, por razões variadas», explica Luís Villas Boas, diretor daquela instituição.

Segundo a ficha da Direção Geral do Património Cultural, «a pequena Casa de Fresco que, na sua origem, deveria integrar um projeto mais amplo mas que nunca chegou a ser concretizado, surge inserida no muro de uma propriedade que faz gaveto entre as ruas Aboim Ascenção, para a qual se encontra virada, e a Rua Ascensão Guimarães».

«Em termos urbanísticos destaca-se (…) a notória falta de enquadramento do prédio que foi construído do lado poente. Edificada possivelmente nos finais do século XIX, desconhecendo-se a autoria do projeto, esta pequena construção apresenta um modelo de gosto revivalista de inspiração mourisca, muito em voga na época, em que contrastam as cores dos panos murários em alvenaria pintada a rosa e os motivos decorativos dos arcos em pedra calcária e tijolo. De planta pentagonal centralizada, com um só piso e telhado de quatro águas em telha marselha, apresenta, no alçado que dá para o perímetro fechado da propriedade, um arco de volta perfeita precedido por patamar e escada que permitem o acesso ao interior».

«Em 1931 o engenheiro químico Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos, conhecido benemérito da cidade de Faro, encomenda um projeto de moradia para a antiga Quinta do Cercado prevendo-se que antiga Casa de Fresco fosse nele integrada servindo como sala de jantar, algo que nunca veio a acontecer».

Luís Villas Boas, diretor do Refúgio Aboim Ascensão em Faro.

«Tenho pena que a cidade de Faro conheça pouco o interior do Refúgio e a Emergência Infantil»

Luís Villas Boas é o diretor do Refúgio Aboim Ascensão, em Faro, desde 15 de janeiro de 1985. Foi eleito pelo próprio fundador da instituição e desde essa data que já recebeu dois prémios internacionais.

O primeiro, em março de 1992, quando foi elevado à condição de membro honorário do conselho da Sociedade Nacional Britânia Contra a Crueldade da Criança. O segundo, em maio de 1998, com o prémio Diana Princesa de Gales, uma das maiores distinções no âmbito das ações sociais e dos esforços humanitários.

Apesar de reconhecimento internacional, Luís Villas Boas diz ao «barlavento» que não sente que a «toda a cidade de Faro conheça o interior Refúgio e a Emergência Infantil. Tenho pena. Faro é uma cidade grande e moderna e gostava que mais pessoas conhecessem a instituição e o nosso trabalho».

Números que não se refletem nos apoios e nos donativos. «As crises que se passam fora destas paredes não têm afetado o Refúgio, porque tanto os governantes como os autarcas locais têm o bom senso de nos conhecerem. Temos tido muitos gestos de boa vontade, muitos apoios e muitas disponibilidades, até porque temos sempre as portas abertas para as pessoas. Registamos todos os donativos que recebemos numa plataforma informática e neste momento temos 19 mil nomes. Além disso, temos uma relação muito boa e aberta com todos no Algarve, a propósito do que quer que seja».

«Este trabalho continua intenso e sem alternativa»

O Refúgio Aboim Ascensão destaca-se a nível nacional por diversos motivos. A principal característica, segundo explica Luís Villas Boas, diretor da instituição, tem a ver com a sua tipologia. «A Emergência Infantil é o nosso trabalho. Foi o nome que demos a este formato de articulação com o Estado, tribunais, Segurança Social, Sistema Nacional de Saúde e Educação. O trabalho interno que realizamos é feito 24 horas por dia».


Apesar de não assumir os créditos, a tipologia foi criada em Faro pelo próprio. «Há quem me chame o pai da Emergência Infantil. Não sei se sou o pai ou não, só sei que ela não existia antes de eu a fazer. Estou convencido que Portugal precisa de 20 unidades como esta para que não haja as dificuldades que há pelo país inteiro. O Refúgio vai bem com o seu trabalho de acolher, enquadrar e devolver crianças às famílias. Este trabalho continua intenso e sem alternativa».