«Quando» ou a mais humana criação de Madalena Victorino

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Em tempos conturbados, Madalena Victorino, a coreógrafa mentora do projeto Lavrar o Mar e convidados, estreiam «Quando», um espetáculo de movimento, imagem e som no Lugar da Rocha, no coração de Marmelete.

É preciso estar em considerável forma física para assistir a «Quando». Chegar ao cenário, uma clareira cercada por medronheiros e carvalhos, onde corre uma ribeira, à sombra de uma imponente parede de rocha, implica uma caminhada de quatro quilómetros. Há que contar com o regresso e o anoitecer.

«Cada pessoa terá uma lanterna e haverá luzes baixas por entre a vegetação, de forma a iluminar os caminhos», explica ao barlavento a coreógrafa Madalena Victorino, como se de um bosque encantado se tratasse. A paisagem é idílica em contraste com os temas que «Quando» aborda.

«Há um filósofo camaronês que utiliza o termo brutalismo para precisar o que está a acontecer ao nosso planeta e ao que nós estamos a fazer ao mundo, onde não se olha a meios para se atingir os fins. Onde só a função importa, como na arquitetura. Achille Mbembe tem toda uma filosofia construída à volta do direito universal à respiração. É por isso que há tanto canto vocal no nosso espetáculo», revela.

«O nosso direito a respirar, mas também o dos animais, das plantas, até da própria terra. Há um outro tema que tem a ver com a reconfiguração da terra, é por isso que as sequências do espetáculo estão todas ligadas ao solo e às pedras que estão aqui nesta ribeira. A ribeira lembrou-nos também as minas onde o trabalho brutalizante e escravizante existe nalgumas partes do mundo como a Rússia, China, na África do Sul», acrescenta.

Remi Gallet e Joana Guerra.

Uma das sequências é sobre «os mineiros sul-africanos que são proibidos pelos seus capatazes de falar enquanto trabalham. Estão sempre deitados na mina, descansam muito pouco e não podem falar. O que acontece é que por serem africanos e terem um sentido rítmico maravilhoso desenvolvem uma forma de comunicação através das botas (gumboots) de borracha que precisam de usar porque as escorrências da mina são tóxicas. Este é um espetáculo tremendamente humano», detalha.

Embora tenha uma grande experiência a trabalhar com grupos maiores, desta vez, Victorino tem 19 pessoas no elenco que estão a trabalhar desde 7 de setembro.

«São seis semanas de trabalho. É pouco. Mas foi o possível do ponto de vista orçamental e da organização do nosso trabalho». Por outro lado, «temos menos pessoas da comunidade porque as pessoas têm medo da pandemia, nesta fase» até porque a música e a dança obrigam à proximidade.

Todo o texto são citações de ativistas, filósofos, artistas. Todo o movimento foi tirado de filmes sobre questões de trabalho, documentários sobre «trabalhos que matam a terra e o homem que a trabalha». Um aspeto interessante da cenografia num espaço tão isolado, e de certa forma delicado, são peças de mobiliário que se fundem com a floresta.

A construção dos «arquivos».

«Teremos salas a que chamamos arquivos» onde o público poderá ver o trabalho do fotógrafo João Tuna, que durante o verão do confinamento, andou por ali a recolher imagens de pessoas e animais, «como se fossem ficções».

Madalena Victorino destaca ainda a presença de Valentim Valentim, um pastor «que tem uma coleção de chocalhos incrível que nos permitiu montar um instrumental, uma peça sonora. Vai fazer um solo ao vivo acompanhado por traçado coreográfico», talvez um manifesto «se devolver a transumância aos animais».

E o regresso no final do espetáculo? Será oferecida uma merenda de pão para dar força à caminhada.

«A ideia da subida é tão importante como se ter estado aqui. Porque aqui as pessoas puderam refletir sobre o estado do mundo através desta instalação nómada que montámos. Mais do que um espetáculo, este é um grande conjunto de imagens que quero que sejam muito belas, fortes e muito tocantes. E que possam também perturbar um pouco, de alguma maneira, para que quem saia daqui vá mais rico para afrontar a realidade lá em cima. Vamos partir de um princípio que tudo isto é uma zona franca, para tratar o meu terceiro tema que tem a ver com as novas e as velhas fronteiras», acrescenta.

Numa era «em que muros se levantam com a extrema direita a ganhar voz a cada dia, e que me preocupa muito, e ao mesmo tempo temos as migrações de pessoas a circular pelo mundo em condições desumanas em que não podem passar de um país para o outro por razões de ordem política, enconómica e cultural».

De novo, e como é habitual no trabalho da coreógrafa, o elenco é muito heterógeneo e mistura amadores com profissionais. «O desafio é levar todos eles para dentro do meu mundo, em que eu tanto acredito. E aqui a ideia foi escolher um paraíso perdido para falar destas coisas tão dolorosas da vida com humor e com inteligência. Não sei se vou ser capaz, mas vou tentar», promete.

«Quando» tem exibição de 15 a 18 de outubro às 18 horas, no Lugar da Rocha (GPS: 37°18’16.6″N 8°41’56.5″W), em Marmelete. Os bilhetes custam 10 euros e estão à venda na plataforma BOL.

«Lavrar o Mira», um projeto para o pós-365 Algarve

Só em novembro haverá novidades acerca do futuro do programa 365 Algarve, mas a coreógrafa Madalena Victorino afirma que «o Lavrar o Mar não irá acabar. Durante este tempo fizemos várias candidaturas» para continuar a financiar o projeto. Uma delas é ao programa EEA Grants – Connecting Dots, da Direção-Geral das Artes, em parceria com a Islândia, o Liechtenstein e a Noruega.

«Fomos à Islândia e encontrámos artistas muito jovens, muito interessantes da área do novo circo que querem trabalhar connosco. Esse projeto é para acontecer nas Terras do Infante (Aljezur, Vila do Bispo e Lagos), na sua condição interior, e Monchique».

A resposta, contudo, só será conhecida em março de 2021.

Por outro lado, foi apresentada uma candidatura ao Programa PARTIS é uma iniciativa da Fundação Gulbenkian que apoia projetos com uma metodologia central assente nas práticas artísticas ao serviço para a inclusão social. Chama-se «Bowing» e terá a duração de dois anos se for aprovado.

«Será para trabalhar com os migrantes asiáticos que laboram nas estufas deste território», revela.

«Fizemos também uma candidatura à CCDR Alentejo» que poderá levar iniciativas até Odemira e Santiago do Cacém, no âmbito do projeto «Lavrar o Mira».

«Depois, continuamos a ter apoio da DGArtes e das autarquias de Aljezur e Monchique, para continuar a programação numa lógica mais pequena».

Em relação ao circo para a passagem de ano 2020/2021 em Monchique, uma companhia está há muito agendada, embora, dado o clima de incerteza, ainda não é possível confirmar nem a realização nem o cancelamento daquele que já um evento marcante do inverno algarvio.