Praia da Rocha prepara-se para o verão a pensar no pós-época alta

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Pandemia da COVID-19 traz preocupações acrescidas com a segurança nos areais.

Em julho do ano passado, a autarquia de Portimão pretendia efetuar algumas mudanças na gestão das praias, uma vez que aceitara a transferência das competências da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e da Autoridade dos Portos de Sines e Algarve (APS) para o município.

Na altura, foi abordada a questão da falta de nadadores-salvadores nas praias, fora da época balnear, embora haja períodos com grande afluência de pessoas.

Filipe Vital, vice-presidente da Câmara Municipal de Portimão, considerou a segurança «uma questão fulcral, porque um destino turístico que não seja seguro não é um bom destino».

Foi mais longe, acrescentando que «o caminho será criar um núcleo profissional ou profissionalizado de nadadores-salvadores, para operar durante todo o ano».

Assim, estava em cima da mesa a criação de uma estrutura de salvamento com uma base profissional, embora com recursos humanos mínimos durante o inverno, e capaz de receber os necessários reforços no verão.

Este ano, com a pandemia da COVID-19 e o confinamento do estado de Emergência, não foi feito tudo o que estava previsto.

As praias foram encerradas, a seguir foram abertas, mas sem autorização para banhos. E quase de repente, sem qualquer aviso prévio, foram abertas em pleno, as entradas na água legais, sem que se tivesse dado tempo aos concessionários para se organizarem e montarem as suas equipas. E sem ter sido aberta a época balnear. Aconteceu a nível nacional, houve danos e, infelizmente, foram contabilizadas duas mortes no concelho de Portimão.

Ouvido pelo barlavento, Filipe Vital, diz que «a implementação de um sistema de assistência aos banhistas passa por criar uma estrutura e dotá-la dos meios necessários para fazer o seu trabalho como deve ser. Demos o primeiro grande passo nesse sentido, com a aquisição de uma embarcação semirrígida, que é operada atualmente pela Associação dos Bombeiros Voluntários de Portimão. Foi usada para tentar encontrar e resgatar o corpo do cidadão que desapareceu e que, infelizmente, se veio a confirmar ter falecido».

Ainda segundo o autarca, tal estrutura profissionalizada fará sentido, à medida que as licenças das concessões venham a ser renovadas.

«Assim que as licenças forem caducando e forem lançados novos concursos, nós passamos a assumir, em cada uma dessas concessões, a assistência a banhistas. Nas licenças ainda em vigor, essa responsabilidade é dos concessionários».

«O novo modelo assentará numa estrutura profissional, com um pequeno grupo de operacionais na área do salvamento, que coordenem todas as operações e toda a contratação que será necessária fazer durante a época alta. E que permita também, nos fins de semana prolongados e feriados fora da época balnear, assegurar algum nível de assistência. Para nós é fundamental, para evitar situações como as que ocorreram este ano».

Segundo Nuno Fernandes, concessionário, nadador-salvador e presidente da Associação de Nadadores-Salvadores da Praia da Rocha, a autarquia solicitou-lhes, logo que a tragédia ocorreu, 10 operacionais, que entraram imediatamente ao serviço, com uma mota de água equipada para salvamentos.

A partir de 6 de junho, quando abre oficialmente a época balnear, passarão a ser 18 os nadadores-salvadores que vão atuar nos 1200 metros de extensão da Praia da Rocha. Todos pagos pelos concessionários, porque, devido à pandemia, os concursos que deveriam ter sido feitos, não foram.

Assim, os 12 concessionários voltaram a juntar-se num plano integrado que lhes permite uma melhor e mais rápida atuação, em caso de acidentes, diminuindo o número de operacionais necessários.

Está sempre presente um dos dois coordenadores, homens experientes que fazem da praia o seu modo de vida e ganha-pão. Já têm um bom sistema de comunicações, uma mota de água equipada para socorros no mar e com base na zona do Buraco da Avó, a mais perigosa, quando está sueste.

Contudo, como resultado da crise económica, ainda estão a negociar uma carrinha todo o terreno, como tiveram no passado ano, cedida pela Mercedes, o que permite a evacuação rápida de acidentados para o posto de enfermagem ou para as ambulâncias.

Num ano em que o número de pessoas nas praias tende a ser menor, o número de nadadores-salvadores mantém-se. Logo, o custo é igual para uma receita que se prevê reduzida.

Nuno Fernandes revela que «na videoconferência com representantes da autarquia, colocámos essa questão e perguntámos se poderíamos contar com alguma ajuda, para o pagamento do pessoal, durante o mês de junho. Vamos ver o resultado».

Por sua vez, Filipe Vital garante que a situação será avaliada. «Percebemos que esta é uma época especial, que vivemos um período de grande instabilidade e não sabemos muito bem como é que o verão irá decorrer. No entanto, os sinais que nos estão a chegar, por via dos concessionários, são muito positivos. Embora estejam previstas menos concentrações nas praias, as pessoas estão a precaver-se contra os riscos do Coronavírus e estão desde já a reservar o seu espaço dentro das concessões. Esse movimento está em crescendo e é superior aos anos anteriores. Logo, o facto de haver menos pessoas nas praias não significa menos utilizadores das concessões».

O vice-presidente portimonense pede calma, uma vez que «a gestão dos dinheiros públicos impõe rigor nos apoios que possamos dar. Vamos avaliar muito bem a situação e, se for necessário ajudar, cá estaremos».

Em relação os riscos acrescidos a que os nadadores-salvadores irão estar sujeitos, uma vez que terão contactos com o público, não só fora de água, como no mar, em que as máscaras e as luvas estão fora de questão.

Nuno Fernandes explica que «em terra, isso não nos preocupa muito, porque conseguimos colocar as proteções. Dentro de água, preocupa-nos muito, porque poderemos ter de colocar no mar vários nadadores, sem proteções. E, se forem vítimas inconscientes, temos de agarrar nelas, que poderão ter ferimentos, vómitos e tudo o mais. Imaginemos que três, quatro ou cinco nadadores-salvadores são infetados. Em plena época balnear, onde arranjamos pessoas para os substituir? Fazemos o quê? Fechamos a praia, porque não temos o número requerido de operacionais?».

Filipe Vital responde à questão: «em primeiro lugar, vamos esperar que tal não suceda. Mas, se suceder, continua a ser obrigação dos concessionários arranjar substitutos. Em princípio, deverão ter essa capacidade. Se não for possível, teremos de substituir esses homens por meios suplementares de salvamento que permitam à concessão continuar a trabalhar. Caso contrário, teríamos um problema relativamente grave, mas significaria que a situação epidemiológica no país estava descontrolada e aí teriam de ser tomadas medidas mais drásticas, como o fecho das praias. Porque, se tal acontecesse, significaria que tínhamos uma situação de contágio comunitário a nível das praias, que seriam um foco» pandémico.

«Esperemos que Portugal continue com o baixo nível de propagação da pandemia e que as pessoas não deixem de ser cuidadosas, só porque estão em férias».

O Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) já emitiu algumas recomendações gerais e o barlavento sabe que será realizada uma reunião entre as associações de nadadores-salvadores, a Proteção Civil, Autoridade Marítima, ISN e Delegado de Saúde, para a definição de procedimentos.

Para já, está excluída a respiração boca-a-boca. Serão usados a máscara facial para oxigénio ou o insuflador manual de balão.

«Mas, pelas novas regras, só se pode usar o insuflador manual de balão com dois operacionais.

No que respeita ao oxigénio, as garrafas não são obrigatórias nos postos de praia. Por acaso, tenho, mas não deverá haver mais do que um ou dois, em toda a praia», diz Nuno Fernandes.

«Seria uma grande ajuda, se uma entidade nos ajudasse a arranjar mais garrafas de oxigénio», apela.