Plataforma internacional contra desperdício alimentar já está no Algarve

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«Too Good To Go» contabiliza 150 mil utilizadores desde o início da operação em Portugal, em outubro. Excedentes diários podem agora ser adquiridos em 63 estabelecimentos da região algarvia através de uma aplicação móvel.

Nasceu na Dinamarca, em 2016, depois de um grupo de empreendedores se aperceber da quantidade de comida, em ótimo estado, que era jogada fora, diariamente, em cada estabelecimento. Pensaram em criar uma solução simples, que permitisse reduzir o desperdício, adquirir comida de qualidade e apoiar empresas locais. Surge assim a aplicação móvel (app) «Too Good To Go», hoje já presente em 15 países e com cerca de 22 milhões de utilizadores.

Em Portugal, o projeto iniciou há oito meses, sendo que no Algarve instalou-se em fevereiro.

Mas o que é ao certo esta plataforma? Responde ao barlavento, a responsável nacional Madalena Rugeroni.

«Somos uma empresa de impacto social que tem como missão combater o desperdício alimentar, reduzir as consequências ambientais que este causa, incentivar uma nova forma de consumo e sensibilizar as pessoas para consumos mais conscientes e sustentáveis», explica.

Madalena Rugeroni.

Tudo isto é feito de forma simples, através do telemóvel. A aplicação desenvolvida pela empresa permite que os estabelecimentos (restaurantes, hotéis, supermercados, padarias, pastelarias) que aderem a esta rede possam vender os excedentes alimentares de cada turno, ou de cada dia, a potenciais interessados.

No fundo, quer os utilizadores da plataforma, quer os estabelecimentos parceiros, «têm nas suas mãos o poder de salvar refeições com qualidade, através de alguns cliques».

Na opinião da country manager, trata-se de um projeto que fazia falta ao país, uma vez que «milhões de toneladas de alimentos são desperdiçados todos os anos em Portugal. Cerca de 50 mil refeições por dia ficam por consumir. Estes dados justificam a necessidade de levarmos a cabo a missão de combater estas perdas e de procurar otimizar o consumo dos portugueses».

A pergunta é como? A aplicação propõe aos utilizadores a compra daquilo a que a empresa chama «caixas mágicas» (Magic Boxes). «A pessoa só tem de selecionar o estabelecimento pretendido, reservar uma caixa e dirigir-se ao espaço para fazer a recolha. No local, será surpreendida com uma seleção vasta de produtos, que poderá ser diferente todos os dias», simplifica.

O facto de o conteúdo ser uma incógnita prende-se com a questão fundamental que motivou esta ideia. «É impossível prever o desperdício de forma detalhada. No entanto, este é um elemento que contribui para uma dinâmica e experiência única porque causa sempre entusiasmo e curiosidade. Ou seja, a Magic Box é uma caixa surpresa criada pelo próprio estabelecimento com a comida que não foi vendida. Mesmo que os utilizadores não saibam o que contém cada encomenda, podem filtrar as suas escolhas através do menu geral e habitual de cada espaço. As opções são diversas e variam entre comida chinesa, japonesa, italiana, portuguesa, vegetariana, vegan, padaria, pastelaria, entre outras», acrescenta.

O pagamento é feito também através da app. A fatura fica guardada e basta levantar a encomenda no horário de recolha acordado.

No Algarve há já 63 estabelecimentos parceiros que permitem a compra de Magic Boxes. Cinco em Albufeira, 26 em Faro, dois em Lagoa, sete em Lagos, cinco em Loulé, 13 em Portimão, um em Silves e quatro em Tavira.

A entrada deste projeto na região algarvia coincidiu com o início da pandemia do novo Coronavírus, e portanto, teve algumas consequências. «Tivemos que recuar um pouco nos planos de expansão, mas pretendemos agora retomá-los, acompanhando o ritmo de recuperação do próprio mercado e aumentar o leque de alternativas», assume a gestora nacional.

Um dos pioneiros na região a associar-se à «Too Good To Go» foi a Padaria e Pastelaria Delícias, com dois espaços em Portimão e um em Lagos, do proprietário Orlando Duarte.

Orlando Duarte.

Segundo explicou ao barlavento, «aderi de forma imediata porque percebi que se enquadrava na filosofia que imponho dentro da minha empresa, a de ter responsabilidade, preocupação e consciência social e ambiental. Não faz sentido desperdiçar».

Todos os dias, dos três estabelecimentos saem caixas que podem conter entre oito a 12 produtos, com o custo de 3,99 euros. «Tentamos sempre diversificar e colocar várias opções que vão desde rissóis, pão de água, pão integral, pão de cereais, pasteis de nata, palmiers, croissants de brioche, entre outros. Depende do que estiver disponível na montra. Mas colocamos sempre um leque completo de todos os nossos produtos, que são confecionados diariamente. Talvez por isso as nossas caixas sejam tão procuradas» na app.

Uma procura que ficou logo evidente no primeiro dia. «Achei que iria demorar até que as pessoas se aperceberem desta opção, mas esgotámos logo as caixas. Não estávamos à espera de uma aceitação tão rápida. Mesmo na altura da pandemia, quando reduzimos a produção e o número de caixas disponíveis, estas foram sempre encomendadas. Temos esgotado as Magic Boxes sistematicamente e temos até maior procura do que produto disponível».

«O engraçado é que no início eram mais os estrangeiros que nos procuravam. Ingleses, alemães e muitos espanhóis que nos descobriam a partir da plataforma. Hoje em dia, direi que já há muitos portugueses. São pessoas que utilizam mais as redes sociais, as apps e que têm consciência ambiental. A verdade é que todos provam, gostam e voltam. Sinto que cada vez mais as pessoas aderem e para o futuro prevejo um aumento grande no número de parceiros aqui da zona», antevê o empresário, que em família também encomenda refeições através da app a alguns restaurantes.

Para o futuro, os planos da «Too Good To Go» estão já bem definidos e alguns estavam mesmo prestes a arrancar, não fosse a pandemia.

«Queremos manter o foco no comércio local. Mais do que nunca estamos focados no equilíbrio de três pilares: pessoas, planeta e alimentação. Prevemos ser uma marca reconhecida como autoridade nas temáticas de desperdício alimentar, focada em criar outras dinâmicas de prevenção e desperdício e não apenas de contenção. Em 2020 tínhamos a intenção de lançar, ao nível global, programas educativos em 500 escolas e trabalhar, a par com os governos, de pelo menos, cinco países, para alterar a legislação e continuar a construir um planeta sem desperdício. Essa intenção não mudou, apenas se prolongou um pouco na linha temporal», conclui a country manager.

Desperdício alimentar também é problema ambiental

Madalena Rugeroni, contry manager em Portugal da «Too Good To Go», uma empresa focada em combater o desperdício alimentar, acredita que «já começa a ser mais consensual», a necessidade imperativa de diminuir ao máximo esta problemática.

«Ainda assim, muitas pessoas não sabem ainda que o desperdício alimentar é também um problema ambiental, sendo responsável por cerca de oito por cento das emissões mundiais de gases com efeito de estufa. Se toda a comida desperdiçada fosse um país, seria o terceiro maior emissor de dióxido de carbono do planeta, atrás da China e dos Estados Unidos da América».

Ainda de acordo com Rugeroni, cerca de um terço de tudo o que se produz, é jogado fora, ou seja, um em cada três alimentos acaba no lixo. «Já para não falar que 28 por cento da terra agrícola é usada para produzir alimentos que não chegam sequer a ser consumidos», acrescenta.

Através da plataforma, até à data, evitou-se que 96 mil toneladas de dióxido de carbono fossem emitidas no meio ambiente, através das já 38 milhões de refeições salvas.

Auchan adere em todas as lojas

A parceria da Auchan Retail Portugal com a «Too Good To Go», já chegou às lojas de Faro, Faro Mercado, Olhão, Portimão e Lagoa, segundo anunciou a empresa hoje, dia 22 de junho.

Também no contexto do combate ao desperdício alimentar, a Auchan estabeleceu parcerias com diferentes empresas e associações, a quem oferece os seus excedentes alimentares.

Serão disponibilizadas Magic Boxes, com o valor unitário de 3,99 euros. Estas caixas surpresa contêm produtos alimentares cujo prazo de validade está perto do fim, como iogurtes, queijos, fiambre, pão, salgados, refeições frias, sandes e sumos do dia, e podem ser recolhidas nos balcões de atendimento, perto do horário de fecho da loja.

Objetivo também é promover a chamada economia circular.

A parceria com a «Too Good To Go» foi lançada em janeiro, com um projeto piloto na Auchan Almada, com o qual foi possível salvar aproximadamente 1000 refeições, chegar a 450 clientes, obter 25 mil visualizações e evitar a emissão de aproximadamente 2,5 toneladas de CO2 (entre dezembro 2019 e maio 2020).

O sucesso da iniciativa permite agora estender esta opção a todo o país. Também no contexto do combate ao desperdício alimentar, a Auchan estabeleceu parcerias com diferentes empresas e associações, a quem oferece os excedentes alimentares. Em 2019, a marca doou 2,4 mil toneladas de produtos alimentares, num total de mais de 2,5 milhões de euros.