Planeta precisa de «uma mudança sem precedentes» diz Thelma Krug

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Pergunte-se a Thelma Krug, 69 anos, vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), se os governantes do mundo estão a ouvir os alertas dos cientistas para a emergência climática.

«O nosso compromisso é comunicar a ciência da forma mais clara possível, para que ninguém diga que não está a conseguir entender. E o que nós comunicamos é muito claro. O tempo para a ação é agora, se realmente quisermos limitar o aquecimento global para termos os menores impactes possíveis amanhã. Porque na verdade, impactes vão mesmo acontecer», respondeu ao barlavento.

Segundo a especialista na área de ambiente e florestas, «todos os países estão a fazer alguma coisa. E com isso, vai-se percebendo que é possível fazer mais. É assim que construímos a mensagem. O único problema é que não temos muito tempo. Não dá para ficar pensando demais. Senão agirmos rápido, piores e maiores serão as implicações no futuro».

Krug considera urgente limitar o aquecimento global a 1,5º C (graus celsius) no final do século, e que neste momento, o clima já aqueceu 1º.

«Temos de tentar manter o aquecimento num ponto mais baixo, a 1,5º. Hoje estamos a 1º. Portanto, 1,5º está ao virar da esquina. Não temos a visão catastrófica que o mundo vai acabar. Mas dizemos que quanto mais demorarmos a agir, mais complicado será o dia de amanhã».

A vice-presidente do IPCC considera que «ainda não é tarde demais» para minorar as consequências das alterações climáticas, «mas isso vai requerer transformações que não têm precedentes na história. Isso é um facto. Mas é possível? É. Existe uma janela aberta para a ação? Existe. Mas terão que se fazer transformações enormes no sector da energia, na agricultura, no tratamento de resíduos. Não existe nada que fique de fora. Nem nós mesmos. Ou seja, a nossa contribuição individual, enquanto seres humanos, acaba por ser extremamente importante. Porque podemos atentar à nossa dieta, podemos melhorar uma série de aspetos» do quotidiano para contribuir.

«Estamos a falar de uma revolução, ou pelo menos, de uma transformação muito grande. Como é sem precedentes, é fácil imaginar que vamos ter que repensar tudo», disse.

Também sem precedentes é a presença dos 260 cientistas do IPCC em Portugal, já que esta é a primeira que reúnem no nosso país.

No IPCC há três grupos de trabalho. Em Faro está reunido o grupo II, que analisa os impactes das alterações climáticas nos ecossistemas e nas atividades humanas. O grupo I trabalha com a parte física da mudança do clima, e o grupo III, que trata a adaptação, o que pode ser feito para reduzir a emissão de gases com efeitos de estufa.

A cientista não tem dúvidas que será uma jornada produtiva. «Será, sem dúvida. Esta reunião vai tratar os 16 mil comentários de especialistas que já viram uma primeira minuta do relatório. Cada comentário terá que ser tratado individualmente. Este grupo vai contribuir com 18 capítulos» para o 6º Relatório do IPCC que deverá estar concluído em 2022.

Antes, todas as contribuições dos três grupos de trabalho do IPCC serão submetidas para aprovação dos governos em 2021 (grupo I em abril, grupo III em setembro e grupo II em outubro), que darão origem a um resumo para formuladores de políticas (summary for policymakers).

Durante a reunião em Faro, «há uma pessoa que fica atenta para ver se cada comentário está a ser acompanhado de uma forma não tendenciosa. Caso não venha a ser assimilado na segunda minuta, haverá uma justificação. Isso é interessante porque é um processo que tenta considerar todos os contributos» de forma científica e transparente.

Desafiada a comentar as declarações de Ricardo Serrão Santos, ministro do Mar português, Thelma Krug elogiou o governante, já que a vontade política não pode ser medida à escala mundial.

«Bem, se defendemos que cada ser humano pode dar uma contribuição, que dizer de um país? Não importa o tamanho. Esta mudança que estamos a precisar não escolhe grandes nações ou grandes países. Diz respeito a todos nós. Toda a ação importa», rematou.