Pedro do Vale, jovem pintor realista vende obras para todo o mundo

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Já totalizou mais de 10 mil horas a desenhar e tem trabalhos que valem milhares de euros. Pedro do Vale, 29 anos, cresceu em Faro e o seu nome já chegou a países como Brasil, Estados Unidos da América e Holanda.

Até para os mais leigos em arte, os retratos de Pedro do Vale não passam despercebidos. O nível de detalhe que coloca em cada trabalho é tão intrincado que facilmente passam por fotografias. Mas não são.

«Sempre pensei na arte como algo paralelo na minha vida. Ponderei em tirar o curso de arquitetura, mas desenhar casas para o resto da minha vida não era opção. Quando terminei o secundário, sem nunca ter tido qualquer aula, fiz o exame de Desenho como externo e obtive acima de 18 valores. A nota motivou-me muito e acabei por entrar na Faculdade de Belas Artes, no curso de Desenho Artístico. Só no terceiro ano é que percebi que gostava mesmo muito de fazer retratos. Depois, fiz formações de pintura a óleo em Espanha», conta ao «barlavento», Pedro do Vale, 29 anos.

Começou no mundo da street art, com os grafitis, quando tinha apenas 12 anos e hoje, com 29, tem clientes por todo o mundo.

«Sou um pintor, um artista plástico. Não me considero um hiper-realista mesmo que trabalhe a partir de uma referência fotográfica. Os meus trabalhos no início eram muito mais duros. Tinham muito mais detalhes e havia todo um aglomerado de informação que, se calhar, do meu ponto de vista, neste momento, considero exagerada. Hoje em dia, há um processo seletivo muito diferente. Prefiro estar associado ao realismo porque quero que a perceção da luz seja natural, e não a que a fotografia pela qual trabalhei, me deu», diferencia.

Há obras que levam quase um mês a serem terminadas e mesmo assim, para o artista, o mais importante nunca é o produto final, mas sim todo o processo. «Antes de acabar algum trabalho estou sempre focado. Mesmo quando estou, por exemplo, num café, tenho sempre o telemóvel na mão para ver o que já tenho feito e o que ainda tenho de alterar no retrato. Na minha cabeça estou sempre a matutar naquilo que tenho em mãos. Quando estou a produzir, a minha vida é acordar, ir ao ginásio, desenhar durante seis horas e dormir. Mas todas essas horas fazem uma história muito maior, mais interessante e muito mais rica do que, por exemplo, uma fotografia. Para mim, todo esse processo é o mais importante», revela.

Pedro do Vale «não acredita» em inspiração. E explica porquê. «Comigo é difícil andar na rua e sentir-me inspirado com alguma coisa. A inspiração surge-me quando estou a trabalhar. Há momentos que me encho com algo que nem sei explicar, que depois me dá para fazer as coisas de determinada maneira. Inspiro-me com o meu próprio trabalho».

De uma forma geral, já fez retratos que podem começar em telas de um metro e alcançarem mais de dois metros de altura. «A maior que já fiz, demorou 24 dias a terminar e tinha 1,75m de largura por 2,08m de altura. O prazo é aquele que eu defino e não o do cliente. Há quem me peça tamanhos pequenos, mas limito sempre. Não faço retratos A4 ou A3. Os preços, em telas de dois metros podem alcançar os 8 mil euros», estima.

Em relação à carteira de clientes, «50 por cento não são portugueses. Normalmente são artistas, pessoas interessadas em arte e na arte do retrato. Os primeiros que tive eram colecionadores californianos. Depois tenho alguns holandeses, brasileiros e espanhóis». Também para a cidade que considera como sua casa, Faro, o artista já realizou trabalhos. Um deles foi o retrato de homenagem a Joaquim Guerreiro, requisitado pela Câmara Municipal.

Na opinião do jovem, apoio por parte das autarquias algarvias, é algo que nunca lhe faltou. «Todas as pessoas, incluindo presidentes e vice-presidentes, sempre foram cinco estrelas comigo. Reconhecem o meu valor e recorrem ao meu trabalho várias vezes. Não nasci aqui, mas grande parte da minha vida foi cá e considero Faro a minha casa, por isso sinto-me muito apoiado».

Para o futuro, ideias e projetos mesa não faltam. Além de uma exposição, em estilo de retrospetiva, que Pedro pretende fazer daqui a cinco anos, está em processo a criação de uma residência artística perto da Nazaré.

Segundo refere, «já tenho o espaço e será uma coisa imersa no campo. A minha ideia seria convidar pintores, escritores e músicos. Estou na fase de perceber como vou juntar tudo. O que sei é que gostava de partilhar o meu trabalho com outros artistas, porque uma das grandes riquezas na arte é a partilha. Acho que a experiência iria enriquecer-me a mim e a outros artistas».

A juntar a este objetivo, Vale está a desenvolver um projeto com a Associação Alzheimer Portugal, em parceria com o fotógrafo farense José Ferreira. «Durante ano e meio fomos a alguns domicílios visitar pessoas em vários estados da doença. É um projeto que une a fotografia com o desenho. Serão cinco obras, sendo que duas já estão concluídas. Espero que daqui a dois anos esteja finalizado», conclui.

Um trabalho que permite apenas «sobreviver»

Pedro do Vale é um jovem de 29 anos que se especializou em desenho artístico. Apesar de algumas das obras poderem alcançar valores elevados, este é um trabalho em que se consegue «sobreviver e com um grande jogo de cintura. A minha família apoia-me muito e isso é uma mais-valia para um artista. Posso até realizar uma encomenda grande, mas depois posso passar meses até receber uma nova. Quanto maior é o preço, maior é a exclusividade. É bom para alguns clientes, mas se és menos acessível também há menos pessoas a pedir o teu trabalho. Logo, é mais difícil». O seu sonho passa por «eternizar algo do ponto de vista artístico. Gostava de ser reconhecido em Portugal como artista plástico e não pela questão de ser famoso, mas por questões de sobrevivência. Seria mais fácil de encarar o dia a dia».

Pintor durante o dia e músico à noite

A arte, nas mais diferentes formas, sempre acompanhou o jovem desde a sua infância. Além de ser um pintor realista, Pedro do Vale dançou break dance na sua infância e percebeu desde cedo que tinha aptidões para a música. Começou a cantar ainda antes de entrar na escola primária, aprendeu a tocar guitarra, esteve três anos no Conservatório e gravou o seu primeiro CD com 14 anos. Na secundária entrou para uma banda e já participou em dois concursos musicais de televisão.

«Comecei a cantar muito cedo e sempre gostei, apesar de ser muito tímido. Sempre ponderei que a música fizesse parte do meu futuro, mas nunca como cantor, mais como formador ou até produtor. A música esteve sempre presente na minha vida e houve uma altura que percebi que tinha mesmo de o fazer. À noite tenho tocado em alguns hotéis do Algarve», conta ao «barlavento».

Questionado sobre se prefere o desenho ou a música, «ambas têm pontos fortes na minha vida. Antes, achava que não era possível porque vivia com a ideia de que para se ser bom numa coisa só se pode focar nisso. Hoje já parto do princípio que quem fizer várias coisas, potencia aquilo em que é melhor».