Ordem dos Médicos «solidária» com os cirurgiões do Hospital de Faro

  • Print Icon

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, esteve na manhã de hoje, dia 5 de dezembro, na unidade de Faro do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), no seguimento da decisão dos cirurgiões se recusarem em fazer mais horas extraordinárias na urgência.

Aos jornalistas, Miguel Guimarães voltou frisar a «falta enorme de recursos humanos» e sublinhou que «mesmo com os que há», as instalações do Hospital de Faro já não têm capacidade útil para aquele serviço.

«Não há espaço sufiente para que os serviços de urgência de cirurgia tenham, pelo menos, duas salas de bloco operatório. Há só uma equipa e um bloco. Os doentes têm de esperar à vez para poderem entrar. Numa urgência polivalente, o mínimo seria haver duas salas e uma terceira para ser aberta no caso de terem mais casos graves ao mesmo tempo. A limitação de espaço está há muito identificada, não estou a dizer nada de novo».

«Este é provavelmente o caso mais urgente do país em termos de um hospital novo», disse.

O bastonário notou também a obsolência dos meios disponíveis. «Nesta reunião falei com alguns dos médicos mais jovem. Disseram-me: eu aqui não consigo fazer aquilo que estive a aprender, sobretudo em áreas altamente tecnológicas. Algumas que nem existem cá. O acesso à nova tecnologia é absolutamente essencial. Penso que intervenções ao nível de equipamento não têm havido ao longo dos últimos cinco anos. Se não temos espaço para as pessoas poderem trabalhar bem, se não motivamos os profissionais para ficarem cá, é evidente que não conseguimos resolver o problema do Algarve»

Miguel Guimarães voltou de novo a frisar que a população flutuante da região, condicionada pela sazonalidade continua a não ser considerada pela tutela. «Chegamos a ter aqui perto de dois milhões de pessoas e temos de facto condições que não se adequam à capacidade de resposta que esta população necessita. E o Algarve é a imagem externa do país em termos de turismo».

Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos.

«Neste momento, provavelmente, a maior prioridade para um hospital novo é no Algarve. Aliás, isto já foi dito há muitos anos».

Referindo-se ao projeto do Parque das Cidades, para onde foi pensado o novo Hospital Central do Algarve, o bastonário desconfia que terá havido alguma tensão regional que terá contribuido para a não concretização do projeto.

«Não sei se é uma guerra entre Faro e Loulé. Estive a ler a história toda e já me foi dito muitas vezes que na altura (em que teve para avançar o novo hospital), houve alguma problemática entre câmaras municipais. Acho que isto tem de ser ultrapassado. Tem de se pensar naquilo que é o bem comum, que é a causa pública e portanto, o espaço que for mais adequado é onde deve ficar o novo hospital. Penso que é o passo mais importante para podermos cativar mais pessoas para trabalhar aqui no Algarve. O governo tem de ultrapassar estas disputas entre câmaras municipais porque isso pode não servir os interesses do Algarve. Servir os interesses do Algarve é servir os interesses da população, fique o hospital onde fique».

Nesta visita, Guimarães tomou «mais de 50 notas sobre coisas que não estão bem. Há uma coisa que nunca foi falada e que é preocupante. Mesmo no serviço de estabilização existem problemas graves. Não existem autoclaves suficientes. Significa que para esterilizar material cirúrgico, com este sistema, atrasa tudo. Há cirurgias na urgência que não se fazem porque não há espaço, nem material adequado. Os doentes acabam por ficar à espera de ser operados. Este estado de coisas, que pode acontecer pontualmente, tem de se resolver rapidamente».

Em declarações ao «barlavento», o diretor do serviço de cirurgia, Martins dos Santos, lembrou que Faro tem «o hospital mais diferenciado da região». Como tal «tem de ter condições para tratar a maioria dos doentes. Não é isso que acontece. As condições de trabalho são péssimas e têm-se vindo a degradar nos últimos tempos».

Martins dos Santos.

«A urgência da cirurgia, devido a uma falta imensa de condições, levou a uma exaustão dos médicos que não têm condições para continuar a trabalhar. Há mais de um ano que os médicos vêm referindo esta situação, foram prometidas alterações que não se concretizaram. Foram nulas. E portanto, o cansaço atinge todo o serviço. Há uma tomada de posição dos cirurgiões no sentido de não continuar a prestar mais do que o trabalho normal no serviço, prescindido de qualquer trabalho extraordinário porque não há condições para fazer isso», disse.

Martins dos Santos sublinhou que «os médicos não estão a abandonar os serviços, mantém-se apenas a trabalhar o número de horas que a lei prevê. Não se responsabilizam por fazer trabalho extraordinário sem condições. Estão cansados. Estão exaustos de remar contra a maré, pois é isso que temos estado a fazer».

O responsável refuta também a solução encontrada pelo conselho de administração do CHUA em assegurar a escala com médicos prestadores de serviços.

«Lamentamos que assim seja, porque os médicos tarefeiros não são a solução para este problema. Por um lado, o conselho de administração está a tomar uma posição que pode ser muito perigosa para os doentes. Esses médicos tarefeiros são cirurgiões, vêm cá, operam os doentes e têm de os seguir. Acontece que não seguem os doentes. Assim que acabam o seu turno das 24 horas, vão para onde vieram, para os seus locais de origem. Portanto, o doente fica abandonado. E isso tem implicações legais. Daí que os cirurgiões tenham feito um documento a declinar qualquer responsabilidade no seguimento de doentes que não tenham sido operado por nós, e que tenham sido operadas por pessoas estranhas ao serviço».

«Se assim, for essas pessoas têm deontologicamente e legalmente a obrigação de seguir esses doentes. Convém perguntar ao conselho de administração como é que vai resolver esse problema».

Martins dos Santos disse ainda que a carta divulgada pelo jornal «Expresso» na edição de sábado foi endereçada a 31 de outubro, e que ainda não teve resposta «como é habitual».

«Nós esperámos todo o mês de novembro e só nos últimos dias do mês, sem qualquer resposta de resolução por parte do conselho de administração é que as estruturas que nos representam acharam por bem divulgar essa carta. Há aqui alguma despreocupação, porque na última segunda-feira só houve um cirurgião (de serviço). Felizmente, não foi necessário operar doentes. Se fosse, a situação era muito delicada porque um cirurgião não pode operar sozinho».

«Do nosso ponto de vista, não se vislumbra qualquer solução. Mas gostávamos de ver algum preocupação porque se trata de um problema grave».

Agora, os cirurgiões vão aguardar até 1 de janeiro, data em vão deixar de fazer qualquer serviço de urgência.

Miguel Guimarães mostrou-se solidário com os profissionais do CHUA. «Não conseguem aguentar mais. Têm a total solidariedade da Ordem dos médicos. Estão muitas vezes a trabalhar sem a total segurança clínica adequada, algo que não é nada aconselhado. Quando nós sentimos que nos está a fugir o tapete por debaixo dos pés e começamos a ter muitas dificuldades, temos de dar um grito de alerta. É o que estes médicos estão a fazer».

«É sinal que tem de se fazer alguma coisa. E estão a dar um prazo. Algo tem de ser feito. Claro que isto depende do conselho de administração, mas depende sobretudo do Ministério da Saúde que tem de olhar de outra forma para esta situação. Até porque há coisas que a tutela pode fazer, estão perfeitamente ao alcance e são rápidas, e que administração não pode», disse o bastonário.

Um exemplo é que os médicos «vestem a camisola todos os dias, quando estão a fazer serviço de urgência em horas extraordinárias, sejam pagos da mesma forma que são os tarefeiros contratados à hora. Os médicos terefeiros podem ganhar 50 euros à hora e os do hospital quando fazem as mesmas horas são capazes de ganhar 12 ou 17 euros. Há uma diferença muito grande».