«O Algarve tal como o destruímos»: um case-study para uma terra maltratada

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«Como é que em 40 anos, se dá uma alteração da fisionomia do Algarve, tão grande e tão brutal? Eu achei que estava na altura, ou melhor, que havia material para se poder contar isto. A História recente do Algarve tem de ser reescrita. Porque aquilo que tem sido dito é um grande embuste. A história de sucesso do Algarve é uma mentira. Houve um genocídio cultural do Algarve, como referia frequentemente o historiador António Rosa Mendes. A questão do lucro ultra-rápido tem sempre consequências a longo prazo. Não é por acaso que o Algarve é a zona de Portugal com maior desemprego. E a mais vulnerável em termos económicos. Há vários estudos acerca disso», considera Fernando Silva Grade.

Inicialmente, a ideia deste autor era compilar todos os artigos e as 23 entrevistas que publicou no agora inativo blogue «a defesa de Faro», o qual «durante cerca de 6/7 anos foi uma tribuna de discussão extremamente importante sobre os problemas da cidade».

«Entretanto, comecei a refletir e percebi que o Algarve é de facto um assunto nacional. Parte da população de Portugal vem ao Algarve passar férias, ou tem cá uma segunda casa. Portanto o interesse pela região está muito para lá das nossas fronteiras», considera. «Em função disso, o livro teve de ser redefinido para se adequar a uma audiência nacional. Isso implicou uma seleção do conteúdo inicial que era muito extenso, ao qual juntei alguns textos inéditos», explica.

«O livro pode-se descrever da seguinte forma: há uma cidade-laboratório que é Faro. A partir daí, parto para o resto do Algarve. Faço uma descrição crítica relativamente aquilo que aconteceu, às mentalidades que vigoravam a nível quer da população, quer dos autarcas, quer do poder central, e que permitiram esta descaracterização. É claro que também aponto alternativas. Isto é, aquilo que deveria ter sido feito e o que ainda se poderá fazer».

«Ainda temos uma herança cultural, e temos de a fazer renascer. O caso mais simples é o exemplo da cal, que era um ícone da cultura e da paisagem algarvia. Isso praticamente extinguiu-se. Portanto, tentar novamente o renascimento da cal é um desígnio que pode ter consequências muito positivas».

«Aliás, há hoje um grande interesse pelos materiais de construção tradicionais e vernáculos», diz. E não tem medo de ser criticado ao colocar os dedos nas feridas?

«É evidente que há muita gente que só vê a realidade de forma muito restrita. E para quem só vê números, só vê dinheiro, só vê a curto prazo, não há dúvida que houve muita gente que enriqueceu. Mas isso não pode justificar a devastação de um território com a consequente perda de qualidade de vida que a generalidade da população sofreu», considera.

«A destruição perpetrada durante estes anos todos, e a consciência dos erros relativamente a essa dinâmica de construção desenfreada, parece que ainda não foi reconhecida. Mas eu não me admiro, porque isto não se passa apenas a nível local. Em função da crise económica, as preocupações ambientais que ainda há 20 anos começaram a ter um peso considerável na política mundial, foram relegadas para segundo plano, em nome da retoma. Não me admiro nada que a questão da economia, mais do que nunca, neste momento tenha mãos livres para tudo»…

Mas em última análise, a mensagem do livro é positiva: «isto não pode voltar a acontecer. É um alerta para uma situação insustentável. Infelizmente, as próximas gerações já não vão ter a possibilidade de se encantarem com a beleza que o Algarve tinha, a qual eu, em função da minha idade, ainda experienciei. Neste momento, só podemos apontar caminhos para reverter esta situação, mas com a consciência que só daqui a 200 ou 300 anos é que, eventualmente, se poderá restabelecer o encanto que esta terra teve».