Novo festival afirma Monchique como palco natural de ações culturais

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VilaPalco acontece de 23 a 25 de agosto produzido por um grupo informal de quatro jovens ligados às artes contemporâneas. Ideia é envolver a comunidade e evoluir para um calendário pontual de eventos.

Centenas de sobras de lençóis antigos, de várias cores e tecidos, estão a ser transformados em sacolas, por um grupo de 19 voluntárias no Centro de Artes e Ofícios da Junta de Freguesia de Monchique.

Serão o «bilhete voluntário» e também a identidade do novo festival VilaPalco, que surge de um desejo comum e antigo de quatro jovens de Monchique – Alice Duarte, Joana Cordeiro, Mara Reis e José Nunes.

«É um projeto que nasce da vontade de trazer cultura a Monchique. Fazer com que a vila abane com música, artes plásticas e performance. Decidimos juntar-nos os quatro, cada um com as suas qualidades e experiência profissional para fazer acontecer», sintetiza Alice Duarte.

«Diria mesmo que é um festival que pretende olhar para Monchique como um palco natural de ações culturais», descreve Joana Cordeiro.

A lembrança do fogo de há um ano ainda está fresca, o que para este coletivo, reforça a vontade. «Não queremos sublinhar o dramático, nem o periférico. Queremos aproveitar uma altura turística em que o comércio local pode ser potenciado e mostrar que agosto também pode ser feliz. Neste momento, é muito importante celebrar um encontro», na comunidade.

Mara Reis corrobora. «Claro que nós sendo de cá, temos esse desafio. Está inerente a todas as nossas forças motrizes a vontade de cativar».

O grupo aponta o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo projeto «Lavrar o Mar – As Artes no Alto da Serra e na Costa Vicentina» de Madalena Victorino e Giacomo Scalisi, como uma referência.

«Sim, é uma grande inspiração. Acho que veio legitimar e tornar ainda mais pertinentes as nossas iniciativas, que, talvez por sermos jovens, não têm tido mediatismo», diz Joana Cordeiro.

A produtora refere-se, por exemplo, à segunda edição das «Pegadas de Utopia», um projeto cultural e educativo que cruza as artes e o ambiente, destinado a crianças e jovens de Monchique, e que está neste momento a decorrer.

«A imprensa nacional não vem, não escreve. Por isso, este ano, estamos a dar um salto e este festival traz outra responsabilidade», acrescenta.

Aliás, os mais novos estão a criar uma performance que marcará a abertura do festival, na sexta-feira, dia 23 de agosto.

Além dessa apresentação ao público, serão também estimulados a ajudar a equipa do VilaPalco.

A família materna de Joana Cordeiro é de Monchique, embora viva em Lisboa desde os 16 anos.

«Temos um sentido de pertença muito grande. Queremos devolver um pouco daquilo que aprendemos à comunidade», diz.

Questionada sobre a continuidade do VilaPalco, o jovem coletivo mostra-se confiante. «Sim. A nossa ideia é que venha a acontecer em vários formatos ao longo do ano. Pode ser uma mostra, ou apenas um concerto. Tudo é possível. Ainda não começamos este festival, e já temos muita vontade e tópicos de futuro».

O eventual lucro desta primeira edição, «no nosso entender, irá para algumas das associações locais que têm colaborado connosco e também para a recuperação de espaços patrimoniais. É uma ideia que queremos estudar. As periferias são filosóficas e achamos que Monchique pode vir a ser um novo polo de cultura», diz Joana Cordeiro.

A produtora ambiciona que «daqui a cinco anos, possamos ter um centro cultural aberto, com programação regular, que cruze a contemporaneidade com um oferta» acessível à população monchiquense.

«Queremos trabalhar para esse objetivo. Faz muita falta um espaço, uma sala, onde possamos ver uma peça de teatro, um concerto, e sobretudo, onde as pessoas se possam encontrar. O desenhar deste festival nasce muito da vontade de mostrar que existe essa necessidade», conclui.

Destaques do VilaPalco

Não é fácil, cruzar uma programação contemporânea que também seja apelativa à população de um concelho interior e envelhecido.

«A equipa tem um conhecimento profundo do território. Vamos ter programação local e regional. Queremos chegar ao máximo de corações possível. Contamos com a nossa designer, a Beatriz Varela. Acredito que através da sua arte, seja capaz de atrair, pois não vem com ideias de fora da Serra de Monchique», diz Joana Cordeiro.

No início da noite de sexta-feira, dia 23 de agosto, às 21h00, o Jardim da Vila será iluminado com a apresentação da criação artística de crianças e jovens participantes no projeto «Pegadas de Utopia».

O cabeça de cartaz, na área da música, contudo, será um concerto exclusivo de abertura, dos OCDM – Os Cantores De Monchique, uma banda que já não existe, de originais, com um álbum gravado (1998), música que vai beber às tradições algarvias.

«É uma banda que se renova. Não será nostalgia, pois haverá novidades», avança Joana Cordeiro.

O concerto conta com a colaboração do saxofonista Rogério Lima Duque, um reencontro há muito esperado que apela à memória e homenageia Luís Lima Duque, mentor dos OCDM.

Além disso, «temos uma encomenda de criação, ao músico André Duarte da banda Terrakota, que será maestro e agregador das ideias. Propõe uma orquestra de fim de semana, aberta a músicos profissionais e amadores. Durante o festival haverá uma chamada para as pessoas interessadas se inscreverem, quer a nível instrumental ou canto. Haverá ensaios e no final, um concerto», marcado para domingo, 25 de agosto, às 21h00, no Jardim da Vila.

Alice Duarte considera que a ideia «tem tudo para correr bem. Por exemplo, para chamar antigos membros de filarmónicas que não pegam na tuba ou no saxofone, e que agora têm uma oportunidade engraçada. Pretende-se que toda a gente fique feliz».

Mas o momento mais especial será a atuação intimista de Tiago Saga, um músico com origem britânica, libanesa e espanhola, criado no sul de Portugal. Traz o projeto Time for T a solo na Fonte da Mata Porcas, «um local com uma vista deslumbrante», na tarde de sábado, 24 de agosto, às 18h00.

Outro ponto alto do programa acontece no domingo, às 14h00. «Queremos que a vila receba uma serenata. Trata-se de um projeto de criação. Desafiamos duas artistas – Ana Root e Ana Raquel – a dar conforto e a celebrar de alguma forma, a nossa ruralidade», descreve.

«Não é um cântico apenas para as pessoas, mas também para este território que ainda precisa de muita atenção», e que promete ecoar pelos vales.

As cantoras estarão vestidas de obras da artista plástica Zé Ventura, que aliás, terá um papel a dizer na programação.

Após o concerto, o público será guiado à casa-atelier de Zé Ventura, que abrirá portas pela primeira vez para mostrar a sua coleção de obras, no nº 1 da Praça Alexandre Herculano.

«Será um momento único. E a partir daí começará uma visita guiada pela fontes, azulejos, escadas, ruas e travessas em cotovelo, portas, janelas, beirados e chaminés, pelo historiador José Gonçalo Duarte, que olha para Monchique como um livro e propõe contar episódios da vila», diz Alice Duarte.

A viagem terminará às 18h00, com um concerto de guitarra portuguesa pelo músico algarvio Ricardo J. Martins, na conspícua Ermida de São Sebastião.

Além disto, ao longo dos três dias, a vila acolhe atuações de bandas locais, DJ sets, que resultam de muitas parcerias locais, «para que as pessoas de Monchique estejam envolvidas e percebam que isto é mesmo para elas».

O festival VilaPalco tem a organização do município de Monchique e de O Monchiqueiro – Grupo de Dinamização Cultural. Conta com os apoios da Junta de Freguesia de Monchique, Direção Regional de Cultura do Algarve, Turismo do Algarve, Bombeiros de Monchique, Intermarché Monchique, Villa Termal das Caldas de Monchique, Monchique Resort & Spa, Águas de Monchique, Café da Vila, Associação Espiral de Vontades e Paixão Bartender Bar Catering Algarve.