Nova direção da Comissão Vitivinícola do Algarve quer mais controlo e fiscalização da vinha

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Sara Silva, 34 anos, eleita na última assembleia geral, na quarta-feira, 17 de abril, é a nova presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA). Tomou posse do cargo na quarta-feira, 24 de abril, após eleições para o triénio 2019-2021. A dirigente, natural do Porto, licenciada em Turismo e Gestão há 10 anos, é responsável pelo Sistema de Gestão da Qualidade da CVA. Tem uma grande experiência acumulada na coordenação de «auditorias e avaliações», pelo que conhece com profundidade a realidade da instituição que agora lidera.

Segundo avança ao «barlavento», uma das prioridades para o mandato, é aprofundar a «certificação e controlo» inerente a todo o processo da produção de vinho, bem como uma proposta de revisão do caderno de especificações das Denominações de Origem Protegida (DOP) das áreas de Lagoa, Lagos, Portimão e Tavira. O objetivo é «proceder à sua atualização, sobretudo, ao nível de encepamentos e rentabilidades permitidas», revela. A ideia desta medida é «potenciar o aumento da produção e certificação de vinhos DOP na região, cujos valores decresceram significativamente nos últimos 10 anos».

Por exemplo, na campanha 2009/2010 foram produzidos 275600 litros de vinhos certificados como DOP. No entanto, na última campanha de 2017/2018 a produção ficou muito aquém, com apenas 38050 litros.

Assim, uma das propostas a ser lançada pela nova direção, é a possibilidade de unir as quatro denominações de origem algarvias «numa única, a Denominação de Origem Algarvia».

Para tal, há que «flexibilizar a certificação, estimulando e incentivando a produção deste tipo de vinho», explica ao «barlavento».

Hoje, devido às regras e restrições do caderno de especificações que limita os métodos de produção, Sara Silva admite que para os vitivinicultores é pouco rentável produzir esta tipologia e muitos preferem a fazer vinhos IG (Indicação Geográfica).

No caso dos DOP, «em um hectare de vinha, só é permitido produzir 6000 litros de vinho, enquanto que para outro tipo de vinhos regionais, já é permitida a produção de 9000 litros. Com esta proposta de alteração, o nosso objetivo é aumentar a rentabilidade dos DOP, motivando assim mais produtores a dedicarem-se à sua produção», detalha.

Em paralelo, também a intensificação do controlo do cadastro vitícola será alvo de uma atualização profunda por parte da nova direção da CVA. Sara Silva considera fundamental que com esta documentação sejam «verificados os reais hectares de vinha com aptidão DOP ou IG» existentes no Algarve, para que se proceda ao «apuramento da rentabilidade de cada uma».

Para tal, a dirigente avança que será contratado um técnico que ajudará não só a atualizar o cadastro vitícola, como procederá a diversas ações de fiscalização e controlo, sobretudo, «durante a vindima» com o intuito de «garantir a rastreabilidade de todo o processo e assegurar a origem das uvas e genuinidade dos vinhos produzidos no Algarve».

Promoção reforçada

Em relação à promoção dos vinhos algarvios, a nova direção está a finalizar «um plano estratégico para o triénio, que passará pelo estabelecimento de protocolo com a ViniPortugal, no âmbito do mercado externo». Já a aposta no mercado nacional será intensificada «com ações divulgação dirigidas à restauração». Em 2019 «já estivemos presentes na Prowein e na Essência dos Vinhos, estando agora em análise a participação no Mercado de Vinhos no Campo Pequeno, em Lisboa», em outubro.

«Trabalhou-se muito ao longo dos últimos anos no reforço da marca e imagem dos vinhos do Algarve. São já reconhecidos como vinhos de grande qualidade, e que estão na moda. A sua procura já é significativa quer ao nível da crescente procura por parte dos consumidores na restauração, quer nas superfícies comerciais. Há que continuar a reforçar essa aposta», defende Sara Silva.

Sector em crescimento

Ao longo dos últimos 10 anos, a CVA passou de 16 para 41 agentes económicos inscritos. O volume de vinho comercializado triplicou, passando de 500 mil para 1,5 milhões de garrafas, isto é, 1 milhão de litros produzidos, de acordo com os dados apurados na última campanha, fixando assim um novo recorde da região.

«E a perspetiva é crescente, tendo em consideração as inscrições de novos agentes económicos nesta instituição, e também, as novas vinhas a serem plantadas na região», contabiliza Sara Silva. «Na campanha da colheita de 2018, o Algarve teve sorte por não ter sido afetado pelo escaldão que afetou todos os outros produtores um pouco por todo o país, e que fez com que em Portugal houvesse uma redução dos volumes das vindimas, exceto na região do Algarve. Para 2019, mantendo-se estas condições, o comentário que tenho ouvido dos produtores, é que iremos ter, de novo, um ano com boas produções», conclui.

Processo de eleição dos órgãos sociais da CVA

A cada triénio são eleitos novos órgãos sociais da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA). O conselho geral é composto por três representantes dos interesses profissionais da produção, e três representantes dos interesses profissionais do comércio.

A nova direção da CVA é agora composta por Sara Silva, no cargo de presidente da direção, e pelo vogal da parte da produção, Edite Alves (Essential Passion, Lda) e por Rui Virgínia (Quinta do Barranco Longo).

De acordo com a nova presidente, esta é «uma direção sólida com um projeto de trabalho rigoroso para o próximo triénio, que tem por objetivo melhorar os processos e salvaguardar os melhores interesses da região vitícola do Algarve».

Projetos na calha

Em 2019 a recém-eleita direção pretende reorganizar a equipa técnica da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), «com vista à manutenção da acreditação de produtos e produtores. Queremos atingir os objetivos de atualização do cadastro vitícola e apostar num acompanhamento rigoroso durante os períodos das vindimas», avança Sara Silva, a nova presidente da instituição.

Além disso, estão a ser pensadas «diversas ações de formação dirigidas aos agentes económicos» que fazem parte daquele coletivo. Por exemplo, «no âmbito do Sistema de Informação Vitícola do Algarve (SIVALG), bem como nos livros de registos de produtos vitivinícolas. Estas ações têm como objetivo auxiliar os agentes económicos no cumprimento das suas obrigações relacionados com o sector vitivinícola, bem como promover uma utilização mais abrangente e independente do nosso programa da certificação (SIVALG)», explica.

«Estaremos ainda presentes nas reuniões da Associação Nacional das Denominações de Origem Vitivinícolas (ANDOVI), na qual tomaremos o lugar de presidente da assembleia geral no triénio 2019-2021», acrescenta.

Por outro lado, a edição de 2019 do Concurso dos Vinhos do Algarve, ainda não tem data definida mas, segundo a dirigente, deverá ser organizado «no final do mês de maio ou início de junho», na cidade de Lagos. Outra novidade será o lançamento do livro «Vinhos do Algarve: o Renascer de uma Região», com assinatura de José Mendes e Teresa Colaço do Rosário.

O segredo da diferença

Sara Silva, recém-eleita presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve, explica com facilidade o que distingue os néctares desta região. «Creio que temos vinhos excelentes que podem ser colocados ao mesmo nível da qualidade, ou superior, de vinhos de outras regiões.

Os vinhos algarvios ainda se destacam pela produção em pequenos lotes, em que se procura atingir uma qualidade elevada, e um acompanhamento dedicado em cada processo. Além dos elementos relacionados com as castas autóctones e terroir, creio que o elemento diferenciador é a dedicação que cada produtor coloca no seu vinho», opina.

Forte aposta nas castas autóctones do Algarve

«O investimento em castas como a Negra Mole levado a cabo para anterior direção foi bastante intenso e com resultados muito positivos ao nível do reconhecimento desta casta pelo mercado, bem como pelo aumento da procura de vinhos», admite Sara Silva, a nova presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA). Agora, a estratégia deverá continuar este trabalho.

«Queremos apoiar a casta, pela sua história e autenticidade na região do Algarve, e, em simultâneo, fazer divulgação e promoção igualmente de outras castas igualmente significativas para a região». Na calha está também a recuperação da Crato Branco, casta que deixou de existir no inventário do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) no início dos anos 2000, sendo vulgarmente conhecida por Sírio/Roupeiro.

Por fim, no último conselho geral da CVA foi aprovada a adição das castas Moscatel-Galego-Branco, Sangiouvese, Verdejo e Pinot-Gris, «ainda que condicionada a apresentação de um parecer técnico que justifique a sua inclusão de castas aptas à produção de vinho apto a IG Algarve».