No Algarve, os alunos surdos também têm direito à música

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Escola Básica de 2º e 3º Ciclos Santo António de Faro tem aulas de Educação Musical para crianças surdas, vindas de todas as partes do Algarve. Projeto nasceu há uma década, mas continua a ser necessário. No estrangeiro é considerado um caso de estudo a replicar.

João Rafael é de São Bartolomeu de Messines e tem 12 anos. Não nasceu surdo. Mas ficou devido a uma doença na primeira infância. Isso, no entanto, não o impede de se sentir apaixonado.

«Adoro cantar músicas românticas para a minha namorada que também é surda e aluna do 5º ano do professor Paulo», diz. Quando crescer quer trabalhar numa caixa de supermercado.

Para já, são as aulas de Educação Musical para crianças sem audição que lhe estimulam os sentidos.

João Rafael Junta-se a um pequeno grupo de alunos que nas manhãs de quarta-feira aguarda Paulo Cunha, professor que começou a dar aulas de música à comunidade surda, na Escola Básica de 2º e 3º ciclo Santo António, em Faro, há cerca de 20 anos.

Com o tempo e com a experiência, percebeu que seria possível e uma mais-valia, ensinar os seus alunos a cantar.

«O objetivo é desmistificar o conceito de que os surdos não cantam ou não falam. Podem não ser perceptíveis a 100 por cento, mas eles emitem sons. Se nos habituarmos a tentar perceber, chegamos lá. Não vão ser cantores e provavelmente nunca cantarão em público, mas vão sentir o prazer de emitir sons e de usufruir da música, sem vergonhas. Quero quebrar barreiras e tabus. O surdo comigo canta. Faço isto dentro de portas, só para eles e divertimo-nos muito», conta ao «barlavento» Paulo Cunha, que faz uso de uns «tampões especiais para sentir melhor a surdez dos alunos».

O processo passa «por experimentarem os sons que têm disponíveis com os instrumentos musicais. Ouvem sons e músicas [com auscultadores próprios] para conhecerem as vibrações. Assistem a vídeos e levo-os a concertos de orquestras e de outros grupos musicais. Há bandas que vêm aqui à escola tocar para só estes alunos», explica.

Está sempre presente uma tradutora intérprete de Língua Gestual Portuguesa que, à medida que a música toca, sempre que há letras, traduz cada frase aos alunos. Assim, as crianças, aprendem as canções com duas linguagens diferentes, podendo mais tarde reproduzi-las, à sua maneira.

Um trabalho que se complica devido a dois fatores. O primeiro porque cada estudante tem o seu grau de surdez, ou seja, há quem consiga sentir as vibrações e reproduzir mais facilmente os diversos sons que outros, que têm uma surdez profunda. Além disso, segundo explica Paulo Cunha, não há um programa adaptado de Educação Musical para alunos surdos, apesar do contacto com a música começar logo no primeiro ciclo.

«Na Escola da Penha, em Faro, onde eles fazem a primária, os meus colegas proporcionam experiências no teatro, nas artes performativas, nas artes plásticas e na música. Quando chegam ao 5º ano começam a ter Educação Musical no horário, tal como os alunos ouvintes. O manual, contudo é o mesmo. Mas a verdade é que têm aulas à parte, sem a presença dos colegas ouvintes, até porque a mistura seria contraproducente. O programa que lhes dou é todo adaptado por mim, com especificidades, mas tendo sempre em conta aquilo que são as aprendizagens essenciais. Não há nada estipulado. O que faço é ajustar a cada um dos alunos de acordo com os vários graus diferentes de surdez. Há quem tenha surdez profunda e há quem tenha apenas moderada. Há quem use aparelho e quem tenha implantes».

Assim, as aulas de Educação Musical do professor Paulo Cunha são todas personalizadas a cada um dos seus estudantes. Por exemplo, no 6º ano, a turma é composta por quatro crianças, todas com 12 anos, provenientes de diversas partes do Algarve.

Filipa Sanó é de Armação de Pêra; João Rafael vem de São Bartolomeu de Messines; Margarida Santos vive em Faro e Micael Ramos em Albufeira. Têm aulas de Educação Musical às quartas-feiras de manhã e durante todo o dia são acompanhados pela tradutora Vera Correia, 36 anos, de Loulé.

Margarida Santos afirma que prefere tocar piano ou pratos, mas que está muito satisfeita com as aulas de música. No futuro quer trabalhar no mundo da moda. Já

Filipa Sanó conta que tem vergonha de cantar porque tem consciência que há palavras que não consegue dizer corretamente. No entanto, gosta do projeto, uma vez que enquanto canta, pode também dançar, a sua atividade preferida, além do desenho, área que quer desenvolver no futuro.

Por fim, Micael Ramos, o único aluno da turma que possui aparelho auditivo, diz que o que gosta mais é de cantar, mas que a sua verdadeira paixão é a jardinagem.

Para Paulo Cunha, este é um projeto especial, que até já percorreu fronteiras. Depois de publicar alguns vídeos nas redes sociais, recebeu respostas até do Brasil.

«Há muitas pessoas a contactarem-me. Perguntam-me o que estamos a fazer e, inclusive, já me pediram autorização para utilizar as filmagens das minhas aulas em âmbito académico», revela o docente.

O objetivo destas publicações é sobretudo para «conquistar os ouvintes para o nosso mundo. Queremos que percebam que existem muitos surdos no Algarve e partilhar informação», refere.

No entanto, muitas vezes, «não me chega nada. Apesar de o feedback ser cada vez melhor por parte dos ouvintes, os surdos continuam muito retraídos. Percebo que não gostem de comentar porque a estrutura frásica é diferente e talvez seja por isso que não se queiram manifestar. A comunidade surda é muito fechada, mas com as minhas aulas estou a tentar abrir portas e não só na área da música. Todos os ouvintes acham o projeto muito interessante porque nunca imaginaram que os surdos tivessem estas capacidades. Eu próprio também nunca pensei, até fazê-lo. E tem sido uma descoberta para todos, inclusive para mim».

Além disso, com mais partilha, todos poderiam beneficiar, mesmo a nível do ensino.

«Faltam mais pessoas a fazer isto para que possamos fazer intercâmbio de metodologias, de práticas musicais, de planificações e de experiências. O plano curricular fui eu que fiz para esta escola. Está escrito, mas estou aberto e disponível para partilhar com quem quiser. Gostava era que houvesse mais interessados. Um dia vou reformar-me e quando isso acontecer gostava que alguém continuasse o projeto», justifica.

Um trabalho que acima de tudo, é muito «gratificante» e que, Paulo Cunha, não trocaria por nenhum outro.

«Se pudesse, apenas dava aulas a alunos surdos. Quanto mais os conheço, mais vontade tenho de ser seu professor. Os ouvintes, muitas vezes, negligenciam e não valorizam o que têm. É fundamental ouvir. Acontece eu mostrar músicas e estarem de conversa uns com os outros. Os alunos surdos, pelo contrário, querem muito aprender e sentir. Tudo o que fazemos aqui, bebem avidamente, interiorizam e vê-se um brilho nos olhos, um sorriso que querem repetir na aula seguinte. Estão aqui para aprender e é uma descoberta. É sem dúvida um grande investimento, mas é um investimento com ganho garantido», conclui.

Alunos que fazem centenas de quilómetros diários para terem aulas

Aulas no Algarve direcionadas para surdos só existem em Faro, o que faz com que crianças de todos os lados da região tenham de percorrer centenas de quilómetros diariamente para terem formação.

Para a tradutora intérprete de Língua Gestual Portuguesa, essa questão é uma «violência. Temos de pensar que existem crianças que vêm, por exemplo, de Aljezur e que acordam todos os dias às 5h00. Como técnicos já sugerimos que se fizesse um polo, pelo menos no Barlavento. O que o Estado alega é que os gastos são muitos porque os alunos precisam de um intérprete de Língua Gestual, de um professor de Língua Gestual e, em alguns casos, de um Terapeuta da Fala. Mas a questão é que o Estado também gasta dinheiro com as viagens diárias. Na prática e a longo prazo, os custos eram os mesmos e as crianças não teriam de passar por esta violência», diz Vera Correia.

É o caso da aluna Filipa Sanó, de 12 anos, de Armação de Pêra, que todos os dias acorda às 05h00 da manhã para ter aulas em Faro. Com a sua inocência de criança, diz ao «barlavento» que gostava de ter a possibilidade de ter a escola mais perto de casa. No entanto, não queria perder os amigos que tem na escola. Assim, o perfeito «era criarem uma casa em Faro só com alunos surdos algarvios. Era muito mais fácil, estávamos perto da escola, não acordávamos tão cedo e estávamos sempre juntos»…

Uma profissão que vai muito mais além da tradução

Todos os alunos surdos são acompanhados por uma tradutora intérprete em Língua Gestual Portuguesa, em todas as disciplinas. Desde o 5º ano que é Vera Correia que acompanha os alunos do professor Paulo Cunha, desde as 08h30 até às 16h30.

«Passo os meus dias inteiros com eles. Só não os acompanho nas aulas de língua gestual. A nível de estatuto e de lei está escrito que sou uma ponte e que traduzo o que o professor diz aos alunos e vice-versa. Na prática? É isso e mais uma série de coisas. Sou amiga, sou mãe e sou psicóloga. É um dia inteiro. Estou mais tempo com eles durante a semana que os pais. É desgastante? É. É cansativo? É. No entanto, não trocava de maneira nenhuma por outra profissão», revela ao «barlavento» a tradutora.

Na opinião da especialista, as aulas de música do professor Paulo Cunha são uma mais-valia.

«Só têm a ganhar. Conseguem fazer tudo e não lhes deve ser vedada alguma oportunidade na sociedade. Acho que gostam de cantar, mas tudo depende do tipo de surdez. São todos diferentes, tal como nós, ouvintes. Daí ser importante que tenham este contacto com a música. Claro que os alunos com surdez profunda vão preferir tocar instrumentos de percussão porque sentem mais vibrações. Quem, por outro lado, tem aparelho ou implante sente a música de maneira diferente, tem já acesso à melodia e claro vai preferir cantar que tocar um instrumento», explica Vera.

Paulo Cunha: carreira de professor de Educação Musical começou aos 18 anos

Paulo Cunha é o professor de Educação Musical que em Faro, na Escola Básica de 1º e 2º Ciclos Santo António, dá aulas a vários alunos surdos. Completou a sua formação no Conservatório Regional do Algarve Maria Campina, em Faro, e na Escola Artística de Música do Conservatório Nacional, em Lisboa.

O gosto pela música surgiu-lhe cedo, muito pelas influências do irmão mais velho que sempre pertenceu a diversas bandas. Com 17 anos, a ter aulas no Conservatório do Algarve, uma das suas professoras sofreu um acidente, ficando impossibilitada de lecionar. Foi aí que surgiu o primeiro convite para ser o próprio jovem a responsabilizar-se pelas aulas, substituindo a professora. No ano seguinte, foi a própria Maria Campina que, após ter assistido às suas aulas, lhe disse que tinha jeito. Desde aí, até aos dias de hoje, com 55 anos, nunca mais parou. O contacto com os alunos surdos começou mais tarde, há 20 anos, depois de ter sido desafiado pela diretora da escola.

«Fui apanhado desprevenido, nunca tinha pensado em tal e nunca tive formação para tal. Apenas já tinha dado aulas a uma aluna cega no Conservatório, o que na altura foi um grande desafio. Pedi uns dias para pensar, informei-me, pesquisei muito e percebi que não havia histórico, nem materiais, nem formação para alunos surdos. Na altura nem havia Internet, portanto foi difícil. Mas obviamente que aceitei e comecei na base da experimentação e da boa vontade», conta ao «barlavento».