Morte de idoso expõe drama de doentes nos Hangares da Culatra

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Comunidade piscatória com mais de 100 habitantes, 80 por cento dos quais ligados à faina, enfrenta graves limitações em situações de emergência.

Um indivíduo com cerca de 70 anos, em cadeira de rodas, morreu esta tarde em sua casa no Núcleo dos Hangares, Ilha da Culatra. Recém chegado do Centro Hospitalar Universitário do Algarve, em Faro, o homem escolheu abandonar a unidade hospitalar e pediu o regresso à ilha por ser o sítio «onde se sente bem».

José Lezinho, presidente da Associação de Moradores do Núcleo dos Hangares falou com o «barlavento» e reivindicou «que um delegado de saúde se desloque ao núcleo para libertar o corpo», questionando ainda como vai ser transportado o cadáver «uma vez que não existe qualquer pontão nem acessibilidades».

A situação é de tal forma dramática que está a ser ponderada «a hipótese de levar o corpo em braços até à costa para ser transportado de barco». Não é novidade este tipo de ocorrência no Núcleo – o ano passado, existiu o mesmo problema aquando de outro falecimento.

Os Hangares não têm pontão, apesar de há mais de um ano «ter-lhes sido oferecido um pela Docapesca». Segundo o presidente da Associação, «as autoridades marítimas já deram permissão para a colocação do pontão, mas «ninguém faz nada e vão passando a batata quente».

O único apoio existente é da Cruz Vermelha da Culatra, que para se dirigir aos Hangares «precisa que o mar e o vento estejam favoráveis, coisa que hoje não estão. E lá está, tem de haver quem transporte o corpo em braços até ao barco».

Esta situação acabou por servir de dínamo a José Lezinho, que ao «barlavento» mostrou o desespero com «os problemas atrás de problemas que colocam para nos virem montar o pontão». E alerta: «se houver alguém que precise de socorro iminente, o tempo que demoram os socorristas a chegar aqui resulta na morte».

Lezinho deixa ainda outros testemunhos de situações exasperantes que alguns doentes vivem ali, no local onde residem: «temos um cego a viver na Ilha, dois ou três casos de pessoas com cancro, e tínhamos duas pessoas de cadeira de rodas. Hoje ficou apenas uma. Há também algumas pessoas com excesso de peso. Sempre que estes doentes precisam de entrar ou sair da ilha, é a Associação de Moradores que as transporta em braços até ao barco, e do barco para casa».

«As pessoas vão morrendo por questões burocráticas! Há mais de um ano que temos um pontão em Faro, pago com dinheiro público, à espera de ser montado aqui na Ilha. O da Culatra, por exemplo, já foi colocado».

O dirigente daquela Associação vai ainda mais longe, e taxativamente afirma que «estamos abandonados pelo governo, e é uma tristeza isto acontecer em Portugal. É inadmissível». E questiona: «Quantas mais pessoas têm de morrer ou ter problemas aqui?».