MAPS avança com Centro de Alojamento de Emergência Social em Faro

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Edifício no Patacão, cedido pela Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve (DRAPAlg), vai permitir que o Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS) tenha resposta para mais de 40 pessoas em situação de sem-abrigo.

«No Algarve temos números assustadores. Há muitas pessoas a viverem na rua. Desde que a região deixou de ter o Centro de Alojamento de Emergência Social (CAES), em 2017, que pensamos em desenvolvê-lo. Queremos dar dignidade a quem a perdeu. O nosso objetivo é que a pessoa acorde e sinta que merece estar num quarto, numa casa», começa por revelar ao barlavento Fábio Simão, presidente do Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS).

O projeto só foi possível de concretizar, graças ao apoio da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve (DRAPAlg) que cedeu ao MAPS um edifício sem uso, no Patacão, às portas de Faro, que servirá, acima de tudo para «contribuir para a estratégia nacional de erradicar as pessoas em situação de sem-abrigo, até 2022. A política é que uma pessoa não passe 24 horas na rua», explicita o responsável.

Ainda segundo Fábio Simão, esta nova resposta vai permitir «que continuemos a fazer o trabalho que já fazemos, o da reabilitação social do utente e da sua integração na sociedade. Esta é a nossa luta», garante.

«É muito difícil sair do trabalho e ter que dormir na rua. O CAES é um marco, é aumentarmos o nosso serviço e as nossas capacidades». Mas mais importante que isso, é «um projeto que se torna vital, devido às respostas sociais lotadas, que o município de Faro possui para pessoas nestas situações», acrescenta.

Também ouvida pelo barlavento, Elsa Morais Cardoso, vice-presidente do MAPS, vai ainda mais longe, e refere que a sociedade não tem consciência de «como é difícil levantar a cabeça em situações destas. Temos um utente, que vive numa habitação não convencional, e que todos os dias vem à nossa sede, às 6h00 da manhã, depois de andar 40 minutos, para tomar banho e seguir para o trabalho», exemplifica.

«Há quem faça um esforço tremendo e doloroso, todos os dias. Com este equipamento queremos que estas pessoas tenham o melhor», garante.

Assim, nas novas instalações haverá 25 camas para 48 horas de emergência e 20 camas para situações de alojamento temporário (no mínimo). Além disso, existirá uma sala de enfermagem, três gabinetes de atendimento, uma sala de formações, uma lavandaria com capacidade para 98 utentes, refeitório e cozinha com capacidade para 70 pessoas e balneários com 20 chuveiros. Um será adaptado para pessoas com mobilidade reduzida.

O MAPS irá ainda ceder duas salas, com economato e gabinete, a dois coletivos que se encontram no momento sem sede: a Associação PAS – Projecto Ana Sanona e a Associação Xis (grupo para a promoção e proteção dos direitos LGBTI). Outro ponto forte é a envolvência da infraestrutura, que possui um grande jardim com árvores e espaços com sombra.

E em que ponto se encontra o projeto? «Estamos em processo de conclusão, de assinarmos, a qualquer momento, o protocolo de cedência, que ainda não chegou. Depois disso, temos de fazer obras de recuperação e de adaptação que deverão levar entre três a seis meses», prevê Fábio Simão.

Os trabalhos implicam intervenções nos isolamentos, canalização e eletricidade. «Será um investimento de cerca de 100 mil euros. É da nossa responsabilidade angariar essa verba», admite o dirigente.

Mas já há estratégias. O MAPS vai «apelar à sociedade civil e a todas as doações entregues será sempre dado um recibo de donativo com uma majoração fiscal de 40 por cento, o que pode ser um bom incentivo para as empresas. No entanto, vai ser uma batalha» conseguir montar um Centro de Alojamento de Emergência Social em Faro.

Ainda assim, não falta tudo. Há colchões cedidos por um hotel cinco estrelas, material de refeitório e de cozinha.

«Ainda não temos lavandaria e faltam as camas. As salas também ainda não estão equipadas e temos sempre dificuldades com as roupas de cama e as toalhas que têm um desgaste maior. Depois, precisamos de material de construção, azulejos, janelas, alumínios e a mão de obra. Na altura correta vamos ter de bater a muitas portas», antevê o responsável.

Com o novo CAES virão também novos projetos. Além da grande dimensão do edifício que permite continuar a desenvolver iniciativas solidárias, «as instalações têm umas águas furtadas maravilhosas, que estão em bruto e têm muito potencial».

Pedro Valadas Monteiro, diretor da DRAPAlg, estrutura afeta ao Ministério da Agricultura, considera que este é um projeto que segue em linha com outros trabalhos já desenvolvidos na área da responsabilidade social.

«No Algarve há uma grande lacuna no que toca a este tipo de apoios e a áreas de acolhimento. O MAPS tinha a necessidade, e nós a disponibilidade. Enquanto instituição pública só temos de ajudar, principalmente quando sabemos que há muita necessidade e pouca oferta», disse ao barlavento.

MAPS ajuda 3000 pessoas por ano em todo o Algarve

O Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS) nasceu a 13 de maio de 1992, sendo a primeira Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) a prestar formalmente serviços nessa matéria.

Segundo Fábio Simão, presidente da associação, que ocupa o cargo há dez anos, «com o decorrer do tempo, o MAPS percebeu que no Algarve havia muita carência na área das problemáticas sociais, tendo acabado por aumentar as suas respostas. Hoje trabalhamos a toxicodependência, pessoas em situação de sem-abrigo, grupos descriminados, minorias étnicas, migrantes, sexo comercial e outras questões de emergência social», enumera. Para isso, há uma equipa de 30 pessoas que se divide em várias valências um pouco por todo o Algarve. Fazendo contas, todos os anos, são ajudadas diretamente cerca de três mil pessoas.

«Temos o único alojamento temporário a sul do país, com capacidade para nove camas e uma residência para cinco. A nossa política é que o utente saia apenas quando estiver integrado na sociedade, com trabalho e casa. Depois temos serviço de apoio domiciliário para pessoas infetadas ou afetadas com o VIH, utentes com características, condições e histórias muito específicas. Temos um centro de acompanhamento e atendimento psicossocial com capacidade para 60 pessoas, para qualquer problemática. Serviços que estão sempre lotados. Temos ainda três equipas de rua, uma no Sotavento, outra no Barlavento e outra no Guadiana, que estão todos os dias no terreno, de manhã à noite. A juntar a isto temos também dois equipamentos sociais, um em Quarteira e outro em Portimão».

Casas para arrendar não há, habitação social nem vê-la

Para a direção do Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS), hoje, uma das maiores dificuldades é arrendar casas. Uma vez que o principal objetivo desta Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) é integrar os utentes na sociedade, encontrar uma habitação faz parte do dia da dia. Uma missão quase impossível. «O Alojamento Local veio matar o mercado de arrendamento no Algarve. Não existe oferta. E na pouca que existe, praticam-se preços que uma pessoa sozinha, a ganhar o ordenado mínimo, não consegue suportar», aponta o responsável Fábio Simão.

«Quando encontramos alguma, no verão, fica indisponível. Esse é o nosso maior obstáculo. Temos utentes que já trabalham, conseguiram a sua estabilidade, mas depois não os conseguimos ajudar no que toca a habitação. Até nas periferias os preços são altos», diz.

Por outro lado, na maioria dos 16 concelhos do Algarve, «não existe habitação social e a que existe está sobrelotada». Uma realidade que Elsa Morais Cardoso, vice-presidente da instituição conhece bem.

«A última pessoa para quem conseguimos arranjar habitação, esteve ano e meio à espera. Acabámos por arranjar um quarto. Estamos a falar de um utente que estudou, que validou as suas competências profissionais e que estava integrado no mercado de trabalho. Neste momento, temos três pessoas prontas na mesma situação», diz. Elsa Morais Cardoso sublinha que «estamos a falar de utentes que fizeram um percurso exemplar a vários níveis para conseguirem voltar a incluir-se. É frustrante porque não conseguem ver o esforço recompensado».